Bodyboard: Elas e as ondas da Madeira

Algumas das melhores bodyboarders do mundo, entre as quais as portuguesas Joana Schenker e Teresa Almeida, estiveram na ilha da Madeira para uma experiência de várias dimensões. O Madeira Bodyboard Girls Experience proporcionou passeios, competição e diversão.

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Isabela Sousa Joana Sousa
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Jessica Backer Joana Sousa
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Joana Schenker Joana Sousa
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Joana Schenker Joana Sousa
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Joana Schenker Joana Sousa

Quem estivesse de fora, a observar aquele grupo, imaginaria tratar-se de um conjunto de amigas a aproveitar umas férias. Reinava a animação, repetiam-se as fotografias, a poncha era a protagonista dos brindes, e até chegou a haver, em grande algazarra e para estupefacção do artista que actuava, uma invasão pacífica do palco nas festas populares do Rosário, lugar na freguesia madeirense de São Vicente. Mas aquele ambiente descontraído dava uma impressão enganadora, porque estavam ali reunidas algumas das melhores bodyboarders do mundo, de passagem pela ilha para a segunda edição do Madeira Bodyboard Girls Experience (MBBGE).

Não se tratou apenas de uma competição, mas também de uma oportunidade para conhecerem a cultura local e partilharem a sua experiência com as jovens praticantes de bodyboard. Esse foi, desde o princípio, o objectivo da organização do evento organizado pela Associação de Surf da Região Autónoma da Madeira, em parceria com o Ludens Clube Machico. “O conceito foi sempre de as menos experientes aprenderem com as mais experientes, para captar mais jovens para a modalidade”, contou ao PÚBLICO uma das mentoras do MBBGE, Carina Carvalho, acrescentando: “No ano passado fizemos a primeira edição, com uma competição meramente regional, e este ano propusemos à federação europeia integrar a prova no circuito europeu. Esta é a primeira prova internacional que se faz na Madeira. Coroámos aqui a campeã europeia”. O ceptro permaneceu nas mãos da portuguesa Joana Schenker, que já detinha o título.

Os tempos em que Carina Carvalho era a única madeirense a descer ondas numa prancha de bodyboard não estão ainda assim tão longe. “A primeira experiência foi numa brincadeira, quando estava a estudar em Lisboa. Quando voltei à Madeira, olhei à volta e vi que havia ondas em todo o lado. Depois, também por brincadeira, comecei a entrar nos circuitos regionais. Só havia rapazes a competir, mas as provas eram abertas a rapazes e raparigas. Durante dois anos estive sozinha a competir, era a única mulher a competir com rapazes na ilha da Madeira”, recordou.

Também pelo facto de ser uma prova somente feminina, este campeonato pretende contribuir para “valorizar o papel da mulher no desporto”. Até porque, vincou Carina Carvalho, as mulheres continuam a ter um tratamento diferente daquele dado aos homens nas principais competições. “Há, de facto, uma diferença entre ser homem e ser mulher, em relação às capacidades físicas em si. O que pretendemos é afirmar que as coisas devem ser tratadas da mesma forma e com o mesmo profissionalismo”, sublinhou.

Esta é uma realidade que Teresa Almeida conhece de perto. Em 2014 sagrou-se campeã do mundo de bodyboard no campeonato organizado pela Associação Internacional de Surf (uma espécie de Jogos Olímpicos dos desportos de ondas) e este ano dedicou-se a tempo inteiro à modalidade, tendo cumprido o circuito mundial. “As organizações [das provas] procuram sempre pôr os rapazes nas melhores condições, quando estão as melhores ondas, nas melhores fases das marés. Quase sempre somos prejudicadas com isso”, afirmou a bodyboarder de 23 anos. Daí a importância de eventos como o MBBGE: “Permite-nos surfar nas melhores condições, porque o campeonato é todo dedicado a nós e focado no que é melhor para nós. Em provas exclusivamente femininas o nível é sempre muito mais elevado. Entramos sempre na melhor fase da maré e logo aí temos muito mais potencial para mostrar a nossa qualidade.”

Joana Schenker, a quem o terceiro lugar no MBBGE (a praia da Fajã D’Areia, em São Vicente, foi o palco da terceira e última etapa do circuito europeu de bodyboard feminino) bastou para revalidar o título de campeã europeia, corroborou a análise de Teresa Almeida: “Somos menos e, logo a partir daí, é natural que os homens tenham prioridade nas melhores condições nos campeonatos. O que também não nos ajuda, porque precisamos de ondas boas para surfar bem, tal e qual os homens. Mas tem vindo cada vez mais a haver competições só femininas, e aí realmente vê-se que as mulheres têm todo o potencial, porque de repente têm as melhores condições para elas. Se as condições são boas o nível sobe, é um ciclo vicioso”, frisou. Mas este tipo de tratamento “não se restringe ao bodyboard, vai acontecendo em várias modalidades”, alertou a bodyboarder algarvia.

Também a brasileira Isabela Sousa, três vezes campeã no circuito mundial de bodyboard feminino (2010, 2012 e 2013), tem opinião semelhante: “Acho que em todas as modalidades há um pouco de machismo, até mesmo em questões de patrocínios ou prémios. Há um desnível entre as categorias feminina e masculina, mas não é só no bodyboard. Acontece no surf, no futebol... há sempre a tendência das empresas e da organização olhar mais para o sector masculino. Aqui [na Madeira] está a ser diferente, por estarmos num evento só de meninas, temos prioridade a 100%.”

Mas as coisas vão mudando, lá fora e em Portugal. “Qualquer pessoa que nos acompanhou nestes dias viu 15 mulheres a saltarem para um pico de ondas que normalmente é apenas frequentado por homens. Dá nas vistas, de certeza, e notou-se que as pessoas repararam em nós. Acho que é bom, porque várias pessoas que nunca pensaram no bodyboard vão ficar com esta imagem na cabeça”, indicou Joana Schenker. A este efeito de sensibilização somam-se os feitos obtidos pelas diversas atletas em competições internacionais: “Quanto mais títulos Portugal, e principalmente as meninas, conseguirem, mais credibilidade teremos. E isso pode traduzir-se em mais apoios para a modalidade, ou até em eventos que não estavam programados. É, principalmente, uma confirmação que temos talento e temos atletas para investir. Isso traduzir-se-á no número de praticantes, mas claro que leva tempo.”

O título e a visibilidade conquistados por Teresa Almeida em 2014 deram um “empurrão” ao bodyboard nacional e ajudaram a levar mais raparigas para a modalidade. “Não só para mim, mas para o desporto em si, foi óptimo. Espero que tenha aberto portas para mais atletas. Eu trabalho numa escola de bodyboard, e via que as miúdas ficavam impressionadas por verem que é possível uma portuguesa ser campeã mundial. Mais pessoas procuraram a escola para terem aulas e começarem a praticar. E espero que tenha sido assim em mais escolas. É sinal que o bodyboard está bem e pode crescer”, reforçou.

A nível pessoal, Teresa Almeida faz um balanço positivo do ano que passou. “Foi um ano muito diferente. Estive só dedicada ao bodyboard, sem fazer mais nada. Consegui os apoios necessários para fazer o circuito e, para primeiro ano, foi bom. Consegui ficar no "top-10". Foi uma boa experiência e senti-me muito mais confiante no meu surf. O que eu queria para este ano, em que tinha o título mas não estava muito pressionada por resultados, era evoluir. Sei que nos próximos anos, se quiser continuar a ter bons resultados, tenho de estar a surfar muito melhor. Para o ano quero voltar a fazer o circuito e tentar melhorar os resultados”, confessou a atleta natural da zona de Alcobaça.

Em jeito de parêntesis num quotidiano de stress competitivo, a passagem pela Madeira foi uma experiência bem-vinda para as atletas. “Geralmente eu viajo para competir, por isso estou sempre num clima tenso, porque preciso de resultados. O MBBGE é diferente, acho que o próprio nome do evento já evoca uma ‘experiência’, algo distinto. Tem um gosto diferente e é bom porque estou a conhecer as meninas de uma maneira diferente. Quando viajamos para competir, na maioria das vezes ficamos afastadas umas das outras. Aqui está toda a gente unida, ficámos juntas numa casa, andamos sempre juntas”, salientou Isabela Sousa.

“Permitiu-nos conhecer a ilha e proporcionou também o convívio entre as atletas, porque fora de competição está tudo mais relaxado, há mais diversão. As estrangeiras acabaram o circuito mundial na Nazaré, e vieram para aqui muito mais relaxadas, porque o MBBGE é apenas uma prova à parte no calendário delas. No circuito está tudo mais fechado, não há tanta conversa”, apontou Teresa Almeida. E Joana Schenker destacou também as vantagens que a presença de um grupo de bodyboarders de elite mundial na Madeira poderá trazer à ilha: “Não é ainda muito reconhecida como um destino de ondas, mas acho que isso está mudar. Não tardará muito a aparecerem aqui mais surfistas e bodyboarders. Afinal, estamos numa ilha, com ondas por todos os lados...”, rematou com um sorriso.

O pensamento de Carina Carvalho já está em 2016 e na organização do próximo MBBGE: “O feedback foi positivo, as entidades que nos apoiam gostaram”, disse. Entusiasmo não faltará na Madeira. Haja ondas.

O PÚBLICO viajou a convite da organização do Madeira Bodyboard Girls Experience