Uma história de amor não é só uma história de amor

Praia do Futuro chega às salas portuguesas mais de um ano depois da estreia no Brasil, onde as cenas de sexo gay eclipsaram quase tudo o resto sobre o filme: uma história de irmãos, uma história do medo.

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De que medo é feito o homem que finge que nada é perigoso? E de que medo é feito aquele que sabe que tudo é perigoso? Talvez não sejam feitos de coisa diferente. E talvez sejam os dois feitos do mesmo: a coragem. De seguir caminho mesmo quando o caminho parece mais não estar ali. De olhar o mar no horizonte e perceber que o mundo existe para além da linha que a vista alcança. De procurar vida e viver. Praia do Futuro, do brasileiro Karim Aïnouz, é isto: a história não de um homem à beira do abismo mas de um homem que se aventura no abismo como princípio de vida, como reinício de tudo.

Mais de um ano depois da estreia no Festival de Berlim, e depois de ter chegado às salas brasileiras, estreia-se em Portugal. É a história de Donato (Wagner Moura), um nadador salvador que pela primeira vez perde um homem no mar. Ele que é adorado pelo irmão mais novo, como se de um super-herói se tratasse, com direito a nome e tudo – Aquaman –, não conseguiu salvar quem se aventurava no mar com um amigo. “Aquilo é um disparo muito forte para a personagem, que é um personagem toda calcada na coragem, na bravura, uma personagem que está ali sempre para salvar o outro”, diz ao Ípsilon Karim Aïnouz. “Queria começar a história a partir dessa perda, uma perda que tem consequências que são mesmo de vida – ele muda a vida dele, começa um outro movimento. Quando perdemos alguém de repente, mesmo que não conheçamos, sempre nos perguntamos sobre a nossa vida. Damo-nos conta que é tudo muito curto, pode ser tudo muito súbito.”

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À estreia no Brasil seguiu-se uma onda de polémica interminável. E as cenas de sexo entre as personagens de Donato e Konrad chocaram aqueles que não sabiam ao que iam

Tão súbito que viver ganha outro significado. Donato, que vive no mar a sua liberdade plena, pergunta às tantas ao irmão, que tem medo de entrar na água por saber o risco que existe, o que aconteceria se tivesse sido ele. Como assim, se tivesse sido ele? O Aquaman não morre porque o mar não leva o que é do mar - mas esquece-se o pequeno Ayrton que o mar não acaba ali. “Na verdade o filme começou com um desejo que eu tinha de falar de aventura. Queria ter uma personagem que fosse extremamente aventureira mas que fosse também contraditória, que tivesse medo mas também que tivesse coragem”, conta o realizador. “Os meus filmes sempre começam a partir de uma imagem e neste caso é uma pessoa a trabalhar como salva vidas, sentada naquelas guaridas, a olhar o mar e imaginando o que há do outro lado, imaginando o que tem num lugar que não o lugar onde ele está.”

Esse lugar ganha forma em Berlim, quando Donato se aproxima de Konrad (Clemens Schick), ele que era o amigo daquele homem que despareceu do mar. Os dois apaixonam-se e Donato vê no regresso com Konrad à Alemanha uma oportunidade de recomeçar a sua vida. Uma vida que até agora não havia vivido. Pelo caminho fica o irmão. “A grande história do filme são esses dois irmãos que são muito próximos, é uma relação meio de pai e filho, mas que é de irmão mais velho e irmão mais novo”, diz Aïnouz, que quis fazer um filme sobre “o afecto entre homens”. “E esse afecto, o mais central, a história mais preponderante do filme, é a história dos irmãos e aí [paralelamente] você tem uma história de amor, mais romântica, que é a história entre Donato e Konrad.”

No ecrã, vemos o tempo passar, através da evolução da relação entre os dois . Nunca sabemos realmente quanto tempo passou até reencontrarmos Ayrton, mais velho, e percebermos que foram anos. “Sempre tive a vontade de fazer um filme com grandes elipses de tempo”, conta o realizador. “Este era um filme onde eu queria fazer tudo o que não tinha feito até agora”, diz, justificando a escolha de separadores temporais ao estilo de capítulos literários. “Fiquei na dúvida se devia ter posto data mas acho que é mais poético não ser tão preciso em relação a quantos meses, quantos anos. Foi um pouco imaginar o filme como um romance de aventura.”

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Karim Aïnouz escolheu a canção Heroes, de David Bowie, para o espectador, através da melodia, levar um pouco do filme consigo Stefanie Loos/REUTERS

Assim como não temos ideia do tempo que passa, há outros silêncios/ausências que se completam com a imaginação de quem vê. “Na verdade tem muitas elipses que são de narrativa dentro do filme. Você não vê a mãe, não vê as irmãs. Tem uma série de coisas que você não vê no filme. Eu queria muito trabalhar com a questão de que o espectador pode às vezes preencher algumas lacunas e tornar a própria história dele. Achei que seria mais bonito imaginar essa mãe”, acrescenta. “Para você será uma coisa, para outra pessoa será outra. Quis deixar essas lacunas como espaços de projecção, o espectador pode projectar coisas muito pessoais e se apropriar da história.”

Onda de polémica
A história resume-se assim a três homens. Não existem muitos mais personagens nem presença feminina. Algo que não passou despercebido a quem viu o filme no Brasil, onde à estreia se seguiu uma onda de polémica interminável. "É uma coisa muito masculina no filme. Acho que isso bagunçou a cabeça das pessoas." As cenas de sexo entre Donato e Konrad chocaram aqueles que não sabiam ao que iam. “Foi uma loucura. A gente lançou o filme em Abril do ano passado e tivemos uma visibilidade de imprensa muito grande por conta do Wagner Moura, que é uma pessoa muito querida [intérprete de Donato, fez um dos filmes de melhor bilheteira no Brasil, Tropa de Elite]. Como teve uma repercussão de imprensa enorme, ele foi para muitos lugares, desde centros comerciais a cinemas de rua”, lembra o realizador.

“O que aconteceu foi que o filme foi lançado numa quinta-feira e na segunda-feira começámos a ouvir coisas muito esquisitas, como um cara que vendia bilhetes num cinema em Maceió que tinha sido agredido por alguns espectadores que abandonavam o filme. Numa outra cidade, 60% da sala saiu do cinema.” E houve ainda algumas salas em que os funcionários das bilheteiras foram obrigados a avisar os que escolhiam ver Praia do Futuro que existia cenas de sexo homossexual, a cada resposta um carimbo no bilhete a dizer "avisado".

Mas o que justifica isto? “É um misto de coisas. É a surpresa do Wagner, que estava saindo de um filme onde era um policial militar super violento fazendo o papel de um cara que é gay. Isso para muita gente foi uma surpresa mas acho que não precisava ter sido tão violenta a surpresa”, continua, defendendo que o que aconteceu “é na verdade a ponta do icebergue”. “O Brasil é um país que nos últimos dois anos tem dado uma guinada grande para a direita, tem havido uma coisa de conservadorismo que é muito emergente, uma coisa de religião que é esquisita. O Brasil é um país que tem uma taxa de homofobia altíssima."

Karim Aïnouz tem a certeza que se o protagonista do filme não fosse Wagner Moura a polémica tinha sido menor – a imagem do actor não corresponde ao estereótipo. “O filme acendeu um debate que acho que é sempre bom provocar. Uma pena que tenha sido através da violência, mas aí no momento em que isso foi passando foi muito bonito ver também a maneira como a imprensa abraçou o filme. Teve um pouco de um escândalo, de um reacção raivosa e violenta mas  acho que foi importante acontecer. Mas o filme não é só sobre isso, é sobre um monte de coisas: a polémica levou o debate para esse lugar" - a relação entre Donato e Konrad - "e tinha outras questões em torno do filme que infelizmente não foram discutidas por conta disso.”

A relação dos irmãos e o abandono do mais novo, que anos mais tarde vai à procura do seu herói, foi uma delas. “As pessoas não quiseram ver para além das cenas de sexo. É uma tristeza porque tem tantas coisas no mundo que estão acontecendo que são tão graves e aí você mobiliza a energia para esse lugar que é tão inócuo, tão absurdo.”

Tal como Donato conseguiu fugir mas não se conseguiu esconder, também o realizador considera que as pessoas não podem continuar a fechar os olhos a uma realidade que não querem aceitar. “O preconceito é o medo do outro e então o cinema te aproxima do outro”, diz, para defender a importância de Praia do Futuro. Já sobre Donato, lembra que “não dá para você começar do zero a vida, tem coisas que por mais que você esconda elas voltam à tona”.

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Como nos canta David Bowie: We can beat them for ever and ever/ Oh we can be heroes just for one day (Nós podemos vencê-los, para todo o sempre/ Oh, nós podemos ser heróis, apenas por um dia). Não é por acaso que é esta canção a despedida do filme. “Quando ouvia Heroes eu tinha uma emoção muito específica que sentia que era uma certa mistura dessa irreverência do rock’n’roll, dessa aspereza da guitarra, junto com a sensação de uma certa melancolia. É uma canção de amor e uma canção que sempre me encantou muito. Então quando comecei a pensar nesse salva vidas, nessa viagem, vi a Heroes como a sua música." Conta que sempre que se queria encontrar um caminho para o filme ouvia a canção. “A música é um hino de uma certa Berlim, fala do Muro, do casal. Não foi só a minha intuição de gostar da música, era uma música com sentido narrativo. Acho muito bonito quando você pode sair de um filme e levar com você alguma coisa, e a música tem essa força: você leva às vezes a melodia, cantarola a música. Queria que o filme continuasse com quem acabou de ver.”