Quando o visitante se torna “cliente”, no Museu de Orsay…

Museu parisiense mostra Esplendores e Misérias. Imagens da Prostituição, 1850-1910, até 17 de Janeiro.

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A Olympia de Manet é item obrigatório de uma exposição que se propõe mostrar o lugar do mundo interdito da prostituição na aventura da pintura moderna Coleccção Museu D'Orsay
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Au Moulin Rouge, de Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901) Helen Birch Bartlett Memorial Collection/ The Art Institute of Chicago

“O museu informa que algumas das obras apresentadas na exposição são susceptíveis de ferir a sensibilidade dos visitantes (e muito particularmente do público mais jovem).”

O aviso colocado à entrada do Museu de Orsay é já todo um programa. A exposição Esplendores e Misérias. Imagens da Prostituição, 1850-1910, que o museu parisiense inaugurou no final de Setembro e vai mostrar até 17 de Janeiro, não cede às interdições normalmente associadas à representação das coisas do sexo. “Da Olympia de Manet a O Absinto de Degas, das incursões aos bordéis [maisons close] de Toulouse-Lautrec e Munch às personagens atrevidas de Vlaminck, Van Dongen ou Picasso, a exposição propõe-se mostrar o lugar central ocupado por este mundo interdito no desenvolvimento da pintura moderna”, acrescenta o Museu de Orsay no texto de apresentação da mostra que tem causado filas intermináveis na margem esquerda do Sena – e que tem simultaneamente estado no centro de um conflito sindical entre os agentes de segurança e a administração quanto ao anunciado projecto de o museu passar a abrir diariamente (incluindo às segunda-feiras, até agora dia de descanso), a partir de Novembro.

Com um título inspirado no romance de Balzac Splendeurs et Misères des Courtisanes (1838-47), e apresentada como a primeira grande iniciativa do género consagrada a este tema, a exposição subdivide-se em cinco capítulos: Ambiguidade, Bordéis, A prostituição na ordem moral e social, A aristocracia do vício, Prostituição e modernidade. E reúne uma selecção de obras realizadas entre 1850 e 1910 – pintura, escultura, fotografia –, vindas de vários países, maioritariamente de colecções institucionais e privadas norte-americanas, e naturalmente também do próprio Museu de Orsay, principal depósito francês das criações da geração impressionista.

Outros grandes nomes da história da pintura, como Van Gogh ou André Derain, ao lado de figuras menos conhecidas, como Constantin Guys ou Félicien Rops, estão igualmente representados nesta exposição que o crítico do jornal Libération Philippe Lançon descreve como “uma grande violação organizada, encenada, e que artisticamente desemboca logicamente no expressionismo”.

A montagem de Esplendores e Misérias. Imagens da Prostituição, 1850-1910, assinada por Robert Carsen – os comissários sendo Marie Robert e Isolde Pludermacher (conservadores do próprio Museu de Orsay), Richard Thomson (historiador de arte da Universidade de Edimburgo) e Nienke Bakker (Museu Van Gogh de Amesterdão) –, não esquece sequer a instalação de duas cabinas de fotografia, fechadas com espessas cortinas e interditadas a menores de 18 anos, em que o visitante – tornado “cliente” voyeur – acede ao visionamento de fotografias e cenas que documentam a vida sexual da segunda metade do grande século da indústria.

Enfim – sintetiza Philippe Lançon –, “uma exposição total: artística, política e socialmente”.