Investigadores descobrem novo método para localizar coágulos

Português Bruno Oliveira integra equipa que desenvolveu método capaz de detectar coágulos sanguíneos com um só exame. Radiofármaco deve ser avaliado em humanos ainda este ano

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Actualmente, podem ser necessários vários exames para detectar um coágulo sanguíneo Desmond Boylan/ Reuters

Localizar coágulos pode ser tarefa para três técnicas de imagem diferentes: ultra-som para verificar as artérias carótidas ou membros inferiores, ressonância magnética para o coração e tomografia computadorizada para os pulmões. O diagnóstico pode, por isso, ser demorado e a administração de terapia adequada também. Foi este o problema que investigadores do Massachusetts General Hospital - Harvard Medical School procuraram solucionar com o desenvolvimento de um radiofármaco que permite detectar coágulos "de maneira mais rápida e eficiente com um único exame de imagem de corpo inteiro". Na equipa internacional está o português Bruno Oliveira, 35 anos, formado em Química pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, onde completou também um mestrado e um doutoramento.

Os coágulos, também designados por trombos, formam-se no interior de um vaso sanguíneo e são "potencialmente mortais", podendo provocar acidentes vasculares cerebrais (AVC), ataques cardíacos ou embolias pulmonares. Apesar de serem "uma das principais causas de doença e morte", não foi ainda desenvolvida uma técnica de diagnóstico rápido. Bruno Oliveira, que se mudou para os Estados Unidos em Janeiro de 2013 para trabalhar neste projecto e está actualmente em Cambridge, exemplifica: "A identificação da fonte de um coágulo que provoca um AVC pode envolver vários estudos de imagem, o que torna o diagnóstico demorado, podendo atrasar o uso de terapias adequadas." Neste caso específico, o tratamento mais eficaz é um medicamento que dissolve os trombos. Mas ele é eficaz se for administrado "nas três horas que se seguem ao início das manifestações do AVC", o que torna urgente o diagnóstico, também porque após um primeiro AVC, "o risco de ter um segundo aumenta consideravelmente".

Foi neste contexto que a equipa liderada por Peter Caravan começou a estudar. "Identificámos um pequeno péptido que demonstrou ter elevada afinidade para a fibrina, uma das proteínas que está envolvida na formação de trombos. Este péptido foi posteriormente modificado com diferentes ligandos utilizados para estabilizar diferentes radionuclídeos", explicou Bruno Oliveira. Ao todo, os investigadores avaliaram 15 sondas diferentes e uma delas — 64Cu-FBP8 (FBP significa Fibrin-Binding Probe) — destacou-se pela "elevada estabilidade 'in vivo', elevada captação no trombo e uma rápida eliminação de tecidos não-alvo, resultando num elevado contraste".

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Imagem PET-CT revela a localização do trombo ao nível da artéria carótida

No mercado talvez em cinco anos

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Bruno Oliveira formou-se na Universidade de Lisboa e mudou-se para os Estados Unidos em Janeiro de 2013 DR

Estudos pré-clinicos demonstraram que uma única injecção é capaz de detectar trombos quer em artérias carótidas quer em veias femorais, utilizando um exame de imagem da medicina nuclear designado tomografia por emissão de positrões (PET). Num estudo cego, os membros da equipa conseguiram detectar trombos com uma precisão de 97% e a sonda revelou ainda ser capaz de distinguir coágulos recentemente formados e coágulos antigos, bem como diferenciá-los de acordo com a sua composição em fibrina.

"Estes resultados são de elevada relevância na medida em que coágulos mais velhos são mais estáveis, e consequentemente têm menos probabilidade de ser a fonte de um coágulo que causou um AVC ou embolia pulmonar", explana o investigador português, acrescentando que o facto de a sonda ser capaz de diferenciar trombos pela composição de fibrina pode ser particularmente importante, uma vez que os medicamentos utilizados hoje em dia actuam por dissolução dessa proteína.

Os resultados preliminares, apresentados recentemente no encontro nacional da American Chemical Society, foram obtidos em modelos animais, mas a avaliação clínica vai ser iniciada ainda neste ano. Já a chegada do radiofármaco ao mercado, prevê Bruno Oliveira, terá de esperar "pelo menos cinco anos".