BE deixa Europa fora de acordo de governo

Para Catarina Martins, o "essencial" é a protecção do "emprego, os salários e as pensões". António Costa reconheceu haver "condições" para concretização de acordo à esquerda. “Fica hoje claro que governo de Pedro Passos Coelho e de Paulo Portas acabou", disse ainda a porta-voz do BE.

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Catarina Martins e António Costa à entrada para a reunião desta segunda-feira Daniel Rocha
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As delegações de ambos os partidos numa reunião que durou perto de duas horas Daniel Rocha
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O líder socialista António Costa saiu da reunião com o Bloco de Esquerda reconhecendo que esta tinha decorrido de forma “muito interessante”. A porta-voz do BE Catarina Martins admitiu que estavam “criadas as condições” para uma “solução de governo que pudesse proteger emprego, os salários e as pensões”. Assim, havia um sinal importante que sobressaía da declaração da coordenadora do Bloco. A Europa, ou seja, a renegociação da dívida e a revisão do Tratado Orçamental, estava fora das condições impostas pelo BE para viabilizar um governo de esquerda.

“O BE não teve votos para formar governo”, reconheceu Catarina Martins depois de admitir, “naturalmente”, que a “responsabilidade” do BE era “viabilizar um governo do partido que teve mais votos”, a saber, o PS. Isso levou mesmo a porta-voz do BE a ser taxativa em relação à direita: “Fica hoje claro que governo de Pedro Passos Coelho e de Paulo Portas acabou."

A bloquista repetiu por mais de uma vez que o “essencial” eram as garantias que o PS poderia dar em relação ao “emprego, salários e pensões”. “Há condições para um consenso básico que BE tinha colocado”, reforçou Catarina Martins.

"No que nos diz respeito, o Governo de Passos Coelho e Paulo Portas acabou hoje, tanto porque não terá apoio no Parlamento mas também porque há uma outra solução de Governo que responde à vida das pessoas e que pode ser a alternativa de que o país precisa", apontou Catarina Martins.

Também o socialista António Costa admitiu existirem bases para um entendimento. “Há condições para que esse acordo possa acontecer”, disse  na sede do BE, depois de identificar progressos nas “três condições” que o BE havia colocado em cima da mesa. Por exemplo, em relação à TSU – em que o PS propôs uma redução rejeitada pelo BE – Costa preferiu destacar que os dois partidos tinham o “objectivo comum” da “recuperação dos rendimentos das famílias”.

O secretário-geral do PS confirmou ainda que o processo vai demorar mais do que previra inicialmente. Admitiu que não haverá esta terça-feira uma reunião da comissão política do PS, que só se vai realizar “assim que estiver concluído mandato [de ouvir todos os partidos] e [assim que Costa] poder fazer a avaliação” sobre as condições de governo.

Ainda esta segunda-feira, António Costa reunir-se-á com o PAN, que elegeu um deputado. A reunião com o BE foi a quarta das reuniões em que o líder do PS participou, desde que o Presidente da República se dirigiu ao país depois das eleições legislativas.

À saída dos encontros foi notória a diferença que o secretário-geral assinalou na comparação entre esquerda e direita. Na sede do PCP, destacou o “diálogo muito franco” com os comunistas. Com os Verdes, Costa falou de uma reunião “muito produtiva”.

Mas na Lapa, onde está sedeado o PSD, o socialista optou por destacar a troca de impressões como “bastante inconclusiva”. O líder do PS apontou depois para a necessidade de uma nova reunião com o PSD e CDS, em que esperava discutir propostas concretas – algo que António Costa reconheceu ter debatido logo nos primeiros encontros com o PCP e Verdes.

A reunião com o BE realizou-se esta segunda-feira a pedido do partido de Catarina Martins, com o argumento de que estavam a ultimar os pontos de debate. Mas no interior do PS a percepção que transpirava era que o BE teria sido surpreendido pela disponibilidade comunista, até para assumir responsabilidades governativas num governo de esquerda.