Design

Nuno Gama e Filipe Faísca fizeram parar a chuva na ModaLisboa

Públicos fiéis para quando o espectáculo da moda pára a chuva durante o dia e as engrenagens da criação a findar a noite. A 45.ª ModaLisboa terminou este domingo.
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Um smiley Infante Dom Henrique, Sofia Aparício a ver as horas, mulheres (mais) adultas e muito mais público do que é habitual para os primeiros desfiles de dias de ModaLisboa – a 45.ª edição termina hoje à noite no Teatro São Luiz, mas para já Nuno Gama e Filipe Faísca fizeram parar a chuva com as suas colecções para a próxima Primavera/Verão.

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Espectáculo e mais de uma centena de pessoas na passerelle: é isto um desfile de Nuno Gama, cujo casting incluiu 96 modelos masculinos, mais praticantes de tai-chi e dois dragões chineses (e um “monstrengo” d’Os Lusíadas feito de caixas amarradas com cauda de jeans). O público já espera a cada estação que Nuno Gama dê a sua versão dos símbolos portugueses versão dandy – e desta vez estava previsto que o desfile acontecesse no espaço da Marinha, junto ao Pátio da Galé, com espaço para quem não vem munido de convite e alargando a dimensão pública do desfile. Mas nem o sentido Milagre das Rosas de Alexandra Moura, que encerrara a noite de sábado, conseguiu dar os homens, armas e barões assinalados de Nuno Gama às ruas de Lisboa.

O mau tempo da manhã obrigou à retirada para o Pátio da Galé, onde durante cerca de 40 minutos Gama, que já tinha ultrapassado o Cabo das Tormentas na última estação, continuou a exploração do épico camoniano. Rumo a África, depois Índia e finalmente ao Oriente chinês e japonês. Sala cheia, audiência pronta para a foto, e na passerelle máscaras com penas de pavão e a solenidade dos actores Ricardo Carriço e Tiago Fernandes a dizer um excerto de Mensagem, de Fernando Pessoa. O que é isto em moda? Fatos de calças justas, calções, t-shirts brincalhonas com smileys Camões e emojis D. Henrique, o azul e estampados paisley, cintos de kimono e o hino assobiado no final. Festa, como sempre, mesmo a calhar para as mulheres cheias de história(s) que Filipe Faísca fez depois entrar na sala.

O início do dia fez-se de dois designers com público fiel e garantia de forte adesão dos convidados, que se distribuem por uma passerelle quadrangular ladeada por cerca de 900 cadeiras (que constituem a capacidade da sala, fora os lugares em pé), criadores de e para um homem e uma mulher de identidade forte. Filipe Faísca Now, o título da sua colecção, é pensar quando sair de casa dos pais, onde ir sair em Ibiza, fazer um teste de gravidez ou celebrar uma vitória sobre o cancro. Apanhar comboios, aviões, transitar. As veteranas Sofia Aparício e Sofia Baessa, entre outras modelos, viam as horas Montblanc enquanto as Short Stories criadas pela jornalista Sandra Nobre desfiavam nos altifalantes o rol das vidas vestidas a sedas e viscoses, rendas e plissados. “Verde tardio” e “Coral agora” são duas das cores descritas pelo criador para alguns dos voos ou rodopios mais marcantes do desfile, dos seus plissados ou rendas de diferentes comprimentos mas sempre, sempre sensuais. O Verão vai ser quente.

Fora da sala de desfiles, o fluxo costumeiro de quem faz fila para assistir à apresentação seguinte – neste caso, a de Kolovrat, aliás Lidija Kolovrat, que pôs a túnica nos homens e não abriu excepções para os vestidos, que eram sempre também macacões. Tudo em negro. Coleccionam-se brindes, respigam-se objectos com marca e acumulam-se revistas nos braços nos intervalos, com a pop-up store Wonder Room do outro lado da rua. Selfies, muitos selfies, e retratos, muitos, com os logotipos do evento e seus patrocinadores em fundo. Seguiu-se o desfile da angolana Nadir Tati, que se apresentou sob o tema Almas de África, de turbantes e transparências.

Ao fim desta tarde, chegará The Lady in Question. Pedro Pedro, cuja queda para o sportswear marcou as últimas edições e estações da ModaLisboa, está nos bastidores a fazer as últimas provas. Manequins entram e saem de peças de cetim, escorregam rendas e redes e o designer fala em “materiais ricos” e brilhos. “Há sempre qualquer coisa de sportswear em mim”, confirma o criador enquanto se prepara o desfile, mas “que morreu esta estação”, anuncia. Pensou “uma rapariga muito mais velha” – “a minha menina tornou-se mulher”. Consumidor de imagens voraz, há qualquer coisa de mais amadurecido nos tempos que vivemos e transportou-o para os vestidos, para “algo mais formal” mas ainda com o “brutalismo dos acabamentos, dos pormenores”. As filas para o desfile já se formavam para ver cores sóbrias, do azul marinho ao preto e ao branco. Juntam-se-lhes os sapatos da sua parceria de calçado com a Basilius, uma de 13 marcas de calçado português presente nos desfiles da ModaLisboa.

Público para a moda
A chuva impediu que o show Nuno Gama fosse para a rua, mas a abertura ao grande público dos desfiles (a Givenchy fê-lo há exactamente um mês em Nova Iorque) vai acontecendo pontualmente no mercado internacional e também na ModaLisboa. À beira do final do mais recente protocolo com a Câmara Municipal de Lisboa, que co-organiza o evento, a presidente da Associação ModaLisboa diz estar já em conversações com a equipa de Fernando Medina e espera ter novo acordo firmado com a autarquia “em breve” – e sobre o desejo manifestado pela vereação do CDS-PP em Outubro de 2014 de que o evento tivesse maior ligação ao público não-especializado, Eduarda Abbondanza precisa que tal dizia respeito a “um desfile por edição”. E ressalva que “é algo que já fazemos na ModaLisboa” - Luís Buchinho, Ricardo Dourado, a marca Adidas ou Nuno Gama, por exemplo, fizeram da rua passerelle nos últimos anos.

Fixa-se a dimensão da moda como espectáculo, confirma-se a sua presença no centro da cultura pop, por vezes apelando ao toque de Midas das celebridades.

Horas antes do espectáculo de teatro de Dino Alves, no São Luiz, no Chiado, o convidado polaco Piotr Drzal apresentou propostas masculinas “simples, modestas e acessíveis”; Aleksandar Protic trouxe Deusas à passerelle, com vestidos longos, mangas largas e capas a envolver as suas mulheres, em branco cru, pérola, oliva e preto (presente nos apontamentos em pele).

Com mais de uma hora de atraso, a noite terminou com convidados e imprensa de bilhetes de teatro na mão, a entrar na sala principal do Teatro São Luiz para assistir ao processo criativo do designer – o Verão 2016 de Dino Alves é o desvendar dos bastidores da criação de uma colecção de moda.

Da plateia ou dos camarotes, assistiu-se ao Diário de uma colecção, e Dino Alves trouxe, literalmente – o criador também subiu a palco depois de o pano subir – os papéis amarfanhados e escrevinhados antes da criação. Seguiram-no vestidos e saias com drapeados e folhos, em camisas e calças brancas dos homens. Riscos a preto, vermelho e multicoloridos ilustraram o caos que antecede uma apresentação e deram cor às folhas em branco. Diante de um público munido de telemóveis e muitos flashes – e que aplaudiu insistentemente antes de o espectáculo começar para o apressar –,  a 45.ª edição da ModaLisboa terminou com tinta em pó rosa a cair sobre três manequins. Um fim, um desfile-espectáculo que evidenciou também o dispositivo da encenação, sem a proximidade do público, com as engrenagens, rascunhos e costuras à mostra.