Entrevista

"Talvez se a televisão desaparecesse, se a internet desaparecesse..."

Jacques Doillon é o cineasta em foco na Festa do Cinema Francês. Os seus filmes já foram pequenos fenómenos, em Portugal também. Hoje já nem estreiam, em França são pouco vistos. "Talvez se a televisão desparecesse, se a internet desaparecesse...", desabafa...

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Mes Séances de Lutte (2013), um "jogo de massacre" amoroso para dois actores
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O Pequeno Criminoso , um dos filmes que exemplificam limpidamente um dos temas mais caros ao cinema de Doillon, a juventude, entre a infância e o fim da adolescência
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Ponette, um pequeno fenómeno em 1996

Jacques Doillon é o cineasta em foco na secção retrospectiva da Festa do Cinema Francês deste ano, com oito filmes projectados na Cinemateca, em Lisboa.

O programa abriu sábado passado com o seu título mais recente, Mes Séances de Lutte (2013), um "jogo de massacre" amoroso para dois actores, que é exibido outra vez na terça-feira (19h00). Mes Séances de Lutte não estreou em Portugal, mas o nosso país pode manter durante anos uma relação próxima com Doillon, cujos filmes, sobretudo durante os anos 80 e 90, chegaram regularmente ao circuito comercial com pequenos sucessos de estima. Casos de A Apaixonada (dia 16, 19h00), O Pequeno Criminoso (dia 14, 21h30), ou Ponette (dia 13 às 15h30 e dia 15 às 19h00), filmes que também exemplicam limpidamente um dos temas mais caros ao cinema de Doillon, a juventude, entre a infância e o fim da adolescência.

Nascido em 1944, Doillon, que começou a filmar na década de 70, é um dos nomes mais proeminentes da "geração pós-nouvelle vague" do cinema francês, com Jean Eustache e Philippe Garrel (a que Doillon, na conversa que tivemos, acrescenta ainda Maurice Pialat, Marguerite Duras, André Téchiné e a "pobre Chantal" [Akerman] que morreu a semana passada. Em entrevista realizada pouco antes do início da retrospectiva, Doillon falou do seu percurso artístico e da crescente dificuldade de fazer um cinema pessoal e idiossincrático - até porque, como ele diz, actualmente não está muito na moda.

Esta retrospectiva abre com o seu último filme. Que já é de 2013, talvez entretanto tenha iniciado outro projecto...
Não, ainda não. É cada vez mais difícil. Toda a vida vivi com a ideia de que todos os filmes se podem fazer, mas isto é cada vez menos verdade. Eu trabalho muito sozinho, escrevo sozinho, e não tenho gosto nenhum em produzir. Hoje o dinheiro para o cinema está sobretudo nas televisões, e para se conseguir montar um projecto é preciso passar por inúmeras reuniões com directores da TV, e não tenho paciência para isso. Também acho que eles não têm muito interesse por mim.

Mes Séances de Lutte, que praticamente só tem dois actores e um cenário, dá ideia de um filme artesanal, barato...
Sim, foi feito com muito pouco, cerca de cem mil euros. Que é muito dinheiro em absoluto, mas pouco no cinema. Rodei em casa, na minha casa, com uma equipa pequena, poucos actores. De certa maneira é o tipo de filme que hoje se tornou "infinanciável", não o conseguiria fazer fora deste registo de produção artesanal. Mas às vezes sinto-me "mimado", passei uma vida a fazer os filmes que quis, como quis e quando quis. Isto hoje já não é possível com a mesma facilidade, sobretudo se tivermos, como a generalidade dos cineastas da minha geração, noções claras do que devemos fazer e, ainda mais, do que devemos recusar. Isto não significa que devamos ser menos ambiciosos, pelo contrário. Gosto de pensar que sou mais ambicioso hoje do que quando comecei a filmar.

Em todo o caso, houve momentos da sua obra que foram bem recompensados no circuito comercial...
Foi sobretudo o caso de Ponette, mas mesmo isso foi um fenómeno estranho. O filme começou por ser vendido para o Japão, e foi um pequeno sucesso. Fez 100 mil espectadores só numa sala de Tóquio. Depois estreou em Nova Iorque, onde novamente foi um pequeno sucesso, com grande apoio da crítica. E só então, depois deste rasto, é que os distribuidores europeus se interessaram e começaram a comprar o filme para a Europa.

Tem o discurso bastante desencantado sobre o estado contemporâneo da produção e distribuição. Quando começou, nos anos 70, era mais fácil?
Era, era mais fácil. Era perfeitamente possível estrear um filme numa cópia 16mm, numa pequena sala de Paris, sem fazer publicidade, e ter umas dezenas de milhares de espectadores. Não implicava nem um esforço sobre-humano nem um dispêndio de dinheiro por aí além. Os filmes eram baratos, e podiam estrear com relativa facilidade. O que por sua vez os tornava mais fáceis de financiar, porque se um filme vai ter dificuldade em estrear há menos gente disposta a investir nele. De um modo geral, os meus filmes sempre tiveram entre 200 mil espectadores e um milhão.

E Mes Séances de Lutte? Dá a ideia de ser um filme que circulou pouco, que ecoou pouco. Aqui em Portugal, por exemplo, não chegou a estrear.
Teve 30 mil espectadores em França. Que é muito pouco. Mas há um público que desapareceu das salas de cinema. Talvez se a televisão desparecesse, a internet desaparecesse, ele voltasse às salas... Em todo o caso, creio que o cinema desperta hoje muito menos curiosidade do que antes. O que tem saída são ou as grandes bombas comerciais ou os filmes de festival, os filmes que conseguem gerar a sua própria publicidade. Aliás, é outro fenómeno actual: há mais público para festivais do que para a exibição. As pessoas vão a um festival ver filmes que nunca veriam numa estreia comercial normal. O que também leva a que certos filmes acabem por ser feitos a pensar em festivais, porque é neles que vão ser vistos.

A desaparição do público de cinema é um fenómeno que se passa em muitos lados, mas visto daqui, pelo menos, França ainda parece um caso menos dramático, a cultura cinéfila ainda é bastante forte...
É a sua percepção e provavelmente está correcta, mas mesmo em França o interesse pelo cinema é gradualmente menor. Dou-lhe um exemplo: com todos os meus filmes fui convidado a ir a programas de televisão, falar deles e discuti-los na altura da estreia. Podia ir três ou quatro vezes à televisão sempre que estreava um filme. Sabe quantas vezes fui por Mes Séances de Lutte? Nenhuma. E depois é certo que em França sempre houve uma tradição crítica forte, a crítica defendia aguerridamente os filmes de que gostava, independentemente das circunstâncias comerciais, e isso de alguma maneira era um apoio que funcionava. Mas, não sei, hoje quando vou ao cinema ver um filme francês que a crítica pôs nos píncaros saio decepcionado. Se calhar tornei-me num velho cretino, mas não consigo perceber o entusiasmo suscitado pela generalidade dos jovens realizadores franceses. Há muito, muito tempo que um filme francês não me emociona. Leio mais, e ouço mais música, do que vejo filmes. E continuo a escrever, embora com menos força do que dantes. Havia um sentido de privilégio na minha escrita, que vinha da grande probabilidade de aquilo que eu escrevia se vir a converter num filme. Esse sentido desapareceu.

 Vem duma geração, com por exemplo Philippe Garrel e Jean Eustache, a que se convencionou chamar a primeira geração "pós-nouvelle vague". Quais eram as suas referências quando chegou ao cinema?
Bem, não tive nada uma educação cinéfila clássica. Nem cinéfila nem intelectual. Nasci e cresci num bairro popular, não vivíamos na miséria, mas intelectualmente era um ambiente pobre. Em minha casa praticamente não havia livros. Ainda hoje não me considero um "intelectual", e o meu trabalho é sobre sentimentos, não sobre ideias. O cinema para mim era os westerns que via no cinema do bairro. E era o Gary Cooper, não era o Raoul Walsh - quer dizer, só os actores existiam para mim, não os realizadores. Comecei a olhar de outra forma no liceu, onde havia um cineclube que eu frequentava. E aí sim, descobri um outro cinema que eu nem sonhava que existia: Dreyer, Bergman, Mizoguchi. Passei a saber quem era Raoul Walsh e a interessar-me pelo papel do realizador. Mas ainda assim, a ideia de vir a fazer cinema como modo de vida parecia-me, nessa altura, uma extravagância longínqua.

E como é que se veio a tornar menos extravagante?...
Um pouco por acaso. Concorri a um estágio de montador num laboratório e fui aceite. Todos os meus colegas eram "filhos de", filhos de realizadores, actores, etc, que estavam lá por cunha familiar e que só queriam aquilo para o currículo. E portanto nem apareciam lá. E eu, que não era "filho de ninguém", acabei de facto por aprender e trabalhar em alguns filmes, com realizadores e montadores. Como era o único estagiário presente, era sempre eu que era chamado... Mas entre esse momento e a aquisição da consciência de que podia vir a fazer filmes como modo de vida passou-se muito tempo, cerca de dez anos.

Tem um interesse especial na juventude, que é o tema e a matéria de muitos dos seus filmes, Le Petit Criminel, L'Amoureuse, ou mesmo a infância, caso de Ponette. De onde vem essa predilecção?
Vem da imprevisibilidade. Do prazer e da descoberta que é trabalhar com jovens actores, com actores ainda não formados, sem vícios profissionais, sem a perfeição técnica do métier. Penso que o cinema é como a música, a interpretação é muito importante. A mesma peça - sei lá, as últimas sonatas de Beethoven - pode ser muito ou pouco interessante conforme o intérprete. Trabalhar com actores jovens significa descobrir as cenas em conjunto, estar aberto às surpresas da interpretação, aproveitá-las e integrá-las no tecido do filme. Aliás, tenho pena de não ter trabalhado mais cedo com crianças, embora talvez uma actriz como a Victoire Thivisol [a protagonista de Ponette, filme de 1996] não apareça todos os dias. Pensando nisso, só passaram vinte anos, mas hoje acho que seria impossível fazer Ponette ou arranjar dinheiro para o fazer. Uma criança a fazer o luto pela morte da mãe? Hoje isto seria visto como uma violência insuportável. Aliás acho que muitos dos grandes filmes do passado hoje nunca seriam feitos. Adorava pegar num argumento do Antonioni, apagar a assinatura, e mandá-lo para um director de televisão ou um gestor de financiamentos ao cinema. Tenho a certeza que seria logo chumbado: "não, não é bem isto que nos interessa".

Conheceu bem Eustache e Garrel. Uma coisa em comum entre vocês, para lá das diferenças no cinema de cada um, era a obstinação, uma espécie de solidão artística.
Sim, concordo, mas não significa que essa solidão fosse desejada. Eustache morreu há muito tempo. Garrel, enfim, a família Garrel, incluindo o filho Louis, continuo a vê-los, de tempos em tempos. Acho que as coisas hoje são mais fáceis para o Philippe do que para mim. Houve alturas em que era o contrário. Digo isto sem acrimónia nem inveja nenhuma, longe disso, desejo-lhe o melhor possível. Mas uma coisa que se aprende depois de quarenta anos no cinema é que isto vive muito de modas. E actualmente não me sinto muito na moda.