Nos céus da Síria

O povo sírio é a vítima. Quando virá a ser protagonista? Virá?

O que para eles parecia coutada sem controlo à vista, afinal tornou-se algo bem diferente. E não foi só no Ocidente; na Arábia Saudita e na Turquia os dirigentes destes países entraram em sobressalto.

Parece que a França à medida que perde poder económico e político no xadrez europeu e mundial tenta mostrar a sua força exibindo o seu poderio militar, sobretudo com Sarkozy e Hollande.

A incapacidade económica para se colocar ao nível da Alemanha, fá-la exibir-se no terreno militar.

Contrastando com o declínio económico, a força militar da potência francesa visa esconder essa fraqueza e dar à França ares da grande senhora que foi outrora.

No mundo do pós-guerra jogou um papel de charneira e de certa autonomia com Charles de Gaulle.

Foi perdendo essa fisionomia e recuperando alguma aquando da invasão do Iraque com Chirac, mas hoje não passa de um país normalizado dentro da NATO.

A vocação belicista no caso da intervenção da Líbia e no ataque a Bashar Assad na Síria também servirá para mostrar à Alemanha que a França pode servir para ser o que este país não pretende ser; passando a França a ter um papel cada vez mais subalterno na economia em declínio.

Por outro lado há algo profundamente viciado no jogo francês quanto ao mundo árabe.

A França sente-se bem ao lado de países árabes cuja essência do regime se funda no mais frio despotismo, como é o caso da Arábia Saudita, do Catar e dos Emiratos. 

A Arábia Saudita que oprime e reprime pelo menos mais de metade da população, não permitindo à mulher deslocarem-se sozinhas, conduzir, serem médicas, irem ao cinema; que todas as sextas-feiras executa presos; que não permite a um cristão ir a um templo cristão interdito de existir; que condena à morte um muçulmano que pretenda deixar de o ser; que invade países como o Bahrein e reprime as revoltas juvenis e cidadãs; que invade o Iémen para impor a sua lei obscurantista conta com aliados como Barack Obama e Hollande… Em Riad há um parceiro.

Em Damasco a democracia deixa muito a desejar, é uma caricatura, mas há um regime laico, e as outras confissões religiosas são toleradas, incluindo os cristãos.

Em Riad a democracia é uma heresia, e os sauditas exportam o islamismo para todo o lado onde se podem infiltrar, incluindo apoiando setores dos jiadistas.

É triste olhar para a França, berço dos direitos humanos, para a França laica, republicana orgulhosa do seu passado com De Gaulle e dar com esta negação desse mesmo passado.

Os EUA e a França falam de bombardeamentos de civis na Síria e possivelmente pode ter sucedido. E o hospital dos Médicos sem Fronteiras na madrugada de 3 de Outubro em Kunduz que causou a morte a pelo menos duas dúzias de doentes, médicos e pessoal civil? Não atormenta a França?

A Síria é dos sírios. A Síria enfrenta não só os terroristas do E.I, a Al-Qaeda como outros grupos a soldo das Arábia Saudita e da Turquia e até dos EUA.

A Rússia tem interesses na região, tal como a França e os EUA. Não há santidade nas relações internacionais. Poderia haver menos hipocrisia. A Síria é hoje um laboratório no mundo multipolar. Os turcos preferem o E.I. a qualquer autonomia curda. Os sauditas preferem o E.I. à minoria alauita. Os EUA querem quem quer que seja que os apoie. O Irão quer a minoria alauita no poder. A Rússia quer preservar a sua influência naquela região. A França quer mostrar ao mundo que ainda é o que já não é.

O povo sírio é a vítima. Quando virá a ser protagonista? Virá?

Advogado