Torne-se perito

Três irmãs russas que são este país entre tensões

Depois da versão itinerante, para o espaço público, da peça baseada no texto original de Tchékhov, o Teatrão confina-a uma sala. Retrato de Portugal (e de uma companhia subfinanciada) à vista, entre Coimbra e Lisboa.

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Três Irmãs, que a companhia de Coimbra O Teatrão criou a partir do texto original do dramaturgo russo Anton Tchékhov, uma versão de sala que esta semana chegou à Oficina Municipal do Teatro e a seguir irá até Lisboa CARLOS GOMES
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CARLOS GOMES

“Se eu tivesse autorização, entrava ali dentro e perguntava aos estudantes: já escolheste o país para onde vais trabalhar?”

O “ali dentro” é a Universidade de Coimbra e Irina Prozorov é a mais nova de três irmãs, uma recém-licenciada que pretende fazer um documentário sobre a portugalidade contemporânea. Um documentário para exportar, claro. Para isso, sai à rua para recolher testemunhos e confrontar pessoas com questões provocadoras formuladas a partir de uma visão carregada de empreendedorismo.

Esta é uma das linhas que conduzem a narrativa de Três Irmãs (Making of), que a companhia de Coimbra O Teatrão criou a partir do texto original do dramaturgo russo Anton Tchékhov, Três Irmãs – primeiro para uma versão itinerante estreada em Julho e depois para uma versão de sala que esta semana chegou à Oficina Municipal do Teatro e a seguir irá até Lisboa. Ao mesmo tempo que sublinha que o texto original é apenas uma base, o encenador, o brasileiro Marco António Rodrigues, estabelece pontos de contacto entre a Rússia do século XIX e o Portugal do século XXI. “Tchékhov escreve em épocas de pré-ruptura ou pré-transformação da ordem económica, política e social, e a gente identifica também este tempo como de pré-ruptura, ou de futuras transformações muito violentas”, explica o encenador de São Paulo.

No meio destas tensões há pessoas que, como as irmãs Prozorov, vêem a sua realidade abalada. Olga, a mais velha, é o sustento da casa, a única que recebe, que tenta manter o núcleo familiar unido e que, para isso, pondera vender casa para se mudarem para um apartamento. “É um pouco aquilo que acontece com todos nós e, numa escala macro, com o país”, diz a directora d’O Teatrão, Isabel Craveiro, a Olga desta peça.

A casa onde habitam as irmãs Prozorov é também Portugal. Como em Portugal, ali coabitam a tentativa de preservação do lar como forma de manter a família, apesar dos parcos meios, e a discordância sobre os caminhos a seguir. Porque ali vive também Irina, símbolo da vanguarda individualista que quer vender, soltar amarras e fazer o seu documentário. Com o seu "olhar de fora”, o encenador avalia que Portugal “tem uns casos curiosos”. Há “toda uma geração jovem ocupando um espaço muito grande nos media… Tem essa coisa do indivíduo forte, que vende essa imagem do self-made man, e a Irina vai-se transformando nisso”. A directora da companhia completa que “o discurso do empreendedorismo” acaba por “esvaziar o papel do Estado”

Ao longo dos quatro actos, a mais nova das Prozorov vai-se radicalizando. Pelo meio há o revisitar do 25 de Abril, com Irina a defender que hoje também devemos fazer a revolução, mas uma revolução interior, valorizando o individual em detrimento do esforço colectivo. E aqui, perante o revisionismo de marcos históricos portugueses não muito distantes, Isabel Craveiro assume a intenção de lutar contra a criação de “uma história anódina do passado recente do país”, para que percebamos “como chegámos aqui”.

Também o encenador parte de uma base documental para construir a ficção, explorando o papel das narrativas mediáticas – “um braço armado do capital”, interpreta Marco António – na definição do que as pessoas percebem como realidade.

Em Julho, antes da estreia em sala, O Teatrão percorreu Coimbra, distribuindo os quatro actos da peça por outros tantos espaços públicos. A adaptação para encaixar o espectáculo dentro de quatro paredes não resultou numa versão “condensada”: este Três Irmãs (Making of) que fica na Oficina Municipal do Teatro até 24 de Outubro e depois estará em cena no Teatro da Politécnica, em Lisboa (de 29 a 31 de Outubro, O Teatrão troca de casa com os Artistas Unidos), é uma “experiência digerida”. “A estrutura básica está aí, mas é como se você estivesse começando no ponto em que acabou. O que é que você faz hoje com a casa? Como é que se governa? Como é que se habita? Como é que se salva a casa?”

Nesse sentido, a peça que é um país é também uma companhia de teatro.

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Reorganizar as forças
Em Junho de 2015, O Teatrão anunciou que pela primeira vez em 15 anos não teve financiamento por parte da DGArtes. Como consequência, a companhia que ocupa e gere a Oficina Municipal do Teatro foi forçada cancelar programação, despedir alguns trabalhadores e reduzir horário a outros, num cenário que coloca em causa a sua própria existência.

A discussão sobre a casa também passa por aí, explica Marco António Rodrigues. “De certa forma, a peça é uma resposta a isso. Uma tentativa de reorganizar as forças a partir de uma realidade que tem sido muito violenta."

Se em 2014 O Teatrão recebeu 127 mil euros, em 2015, viu a candidatura ao apoio para o biénio 2015-2016, no valor de 125 mil euros, recusada pela DGArtes. Isabel Craveiro explica que a DGArtes atribuiu recentemente à companhia uma verba extraordinária de 50 mil euros, que serviu “fundamentalmente para pagar aos credores e às finanças”. “Um pequeno balão” para a companhia continuar a trabalhar.

Tal como Olga Prozorov é a única fonte de rendimento para as três irmãs, o financiamento que a companhia recebia era “estrutural para manter a casa”. E se a situação d’O Teatrão é uma das leituras possíveis (e desejáveis) deste espectáculo, Marco António sublinha que há uma tentativa de não assumir uma posição moralista, e de “colocar as coisas de forma dialéctica”.

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