Svetlana Alexievich, um Nobel para uma escrita de vozes reais

O mais importante prémio literário foi atribuído à jornalista e escritora bielorrussa "pela sua escrita polifónica, memorial ao sofrimento e à coragem na nossa época".

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Svetlana Alexievich, nascida em 1948 em Minsk, na Bielorrússia, é considerada uma das autoras mais prestigiadas a escrever sobre a antiga URSS Reuters
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O momento do anúncio por Sara Danius, secretária permanente da Academia Sueca AFP/JONATHAN NACKSTRAND
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A escritora à porta da sua casa em Minsk REUTERS/Vasily Fedosenko
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Os livros traduzidos em várias línguas na Academia Nobel AFP/JONATHAN NACKSTRAND
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A escritora numa foto não datada
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Em Cabul, numa fotografia de 1988. A escritora presenciou no terreno a ocupação soviética do Afeganistão e dessa experiência, e dos relatos que então recolheu, nasceu o livro Zinky Boys DR

O Prémio Nobel da Literatura foi esta quinta-feira atribuído em Estocolmo à jornalista de investigação bielorrussa Svetlana Alexievich, autora de livros sobre as mulheres na II Guerra, os soldados soviéticos mortos no Afeganistão, as consequências do acidente nuclear de Chernobyl ou a criação e sobrevivência do Homo sovieticus.

A ficcionista e jornalista bielorrussa Svetlana Alexievich tornou-se ontem, aos 67 anos, o 112.º escritor (e apenas a 14.ª mulher) a receber o Prémio Nobel da Literatura. O seu nome foi anunciado às 12h (hora local) em Estocolmo pela Academia Sueca, cuja secretária permanente, Sara Danius, destacou a “obra polifónica” de Alexievich, descrevendo-a como “um memorial ao sofrimento e à coragem na nossa época".

Autora de obras fundamentais para se perceber quer a sociedade soviética, quer o mundo que emergiu do colapso da U.R.S.S., Svetlana Alexievich é sobretudo conhecida por livros como (citam-se os títulos das edições inglesas) War's Unwomanly Face (1985), sobre as mulheres soviéticas na II Guerra, Zinky Boys (1989), dedicado à intervenção soviética no Afeganistão, Voices from Chernobyl (1997), que dá voz aos sobreviventes do desastre nuclear, ou o recente O Fim do Homem Soviético, cuja edição portuguesa saiu já este ano na Porto Editora.

A nova secretária da Academia Sueca, Sara Danius, que sucedeu em Junho a Peter Englund, diz que a escritora bielorrussa inventou “um novo género literário”, que “funde literatura e jornalismo”, e “criou uma história das emoções, uma história da alma”.

Svetlana Alexievich era apontada como favorita ao prémio pelas principais casas de apostas, que por uma vez acertaram na mouche. Outros autores bem colocados eram o japonês Haruki Murakami ou os norte-americanos Philip Roth e Joyce Carol Oates, todos eles candidatos recorrentes. José Saramago, premiado em 1998, continua a ser o único Nobel da Literatura português.

Nascida em 1948 em Ivano-Frankivsk (então Stanislav), na Ucrânia, Alexievich é fiha de pai bielorrusso e mãe ucraniana, ambos professores, e ela própria se dividiu durante algum tempo entre a docência e o jornalismo. O que caracteriza a sua obra é o modo como procura dar literalmente voz àqueles que viveram os acontecimentos que aborda. Seja em War's Unwomanly Face, o livro que lhe trouxe notoriedade, seja em Voices from Chernobyl: The Oral History of a Nuclear Disaster, o ponto de partida é sempre ouvir directamente os (as) testemunhas e permitir que a sua voz chegue intacta à versão final do livro.

Já este ano foi editado pela Porto Editora o seu título mais recente, O Fim do Homem Soviético - Um Tempo de Desencanto, originalmente publicado em 2012, e que lhe valeu no ano seguinte o Prémio Médicis de Ensaio, tendo ainda sido considerado o melhor livro do ano pela revista literária francesa Lire.

É a sua única obra disponível em português até ao momento, mas a editora Elsinore já anunciou que irá publicar Vozes de Chernobyl (título provisório) em 2016, assinalando os 30 anos do desastre nuclear que ocorreu em Abril de 1986 naquela que é hoje uma cidade-fantasma ucraniana, perto da fronteira com a Bielorrússia. O livro foi já adaptado ao cinema pelo realizador Pol Crutchen, num filme com estreia prevista para 2016.

A autora abre a introdução a O Fim do Homem Soviético, intitulada Notas de uma cúmplice, com esta promessa: "Despedimo-nos dos tempos soviéticos. Dessa nossa vida. Tentarei escutar honestamente todos os participantes do drama socialista…”. Defendendo que “o comunismo tinha um plano louco – transformar o ‘homem antigo’”, Alexievich acrescenta que esse terá sido talvez o único objectivo que foi mesmo cumprido: “Em pouco mais de setenta anos, no laboratório do marxismo-leninismo criou-se um tipo humano especial - o Homo sovieticus”. E termina o seu texto com uma constatação e uma pergunta: “Encontrei nas ruas jovens com a foice e o martelo e o retrato de Lenine nas camisolas. Saberão eles o que é o comunismo?".

Dando voz a centenas de cidadãos deste mundo pós-soviético, muitos deles desiludidos com o desmoronamento da U.R.S.S. e ansiando por um novo Estaline, Svetlana Alexievich mostra-nos como a histórica abertura promovida por Gorbachov, que levou à queda do Muro de Berlim, é hoje vista por muitos russos como o gesto que desencadeou a catástrofe.

Licenciada em Jornalismo pela Universidade de Minsk em 1972, Svetlana Alexievich trabalhou depois num jornal de Beresa, na região de Brest, ao mesmo tempo que dava aulas. É com o jornalismo que descobre, segundo as suas próprias palavras, que “a melhor maneira de aprendermos alguma coisa sobre a vida é através do som das vozes humanas”.

De regresso a Minsk, trabalha em vários jornais até ser convidada para integrar a equipa da revista literária Neman, onde irá dirigir a secção de não-ficção.

Nesses anos de formação enquanto escritora, durante os quais ensaiará vários registos, do conto ou do ensaio à reportagem, será decisivo o encontro com a obra do escritor bielorrusso Ales Adamovich, que tentava então criar um novo género, ao qual foi dando vários nomes, de “romance colectivo” ou “romance-evidência” a “coro épico”. Alexievich assumi-lo-á sempre como o seu principal mestre, afirmando que Adamovich a ajudou a encontrar o seu próprio caminho.

“Tenho procurado um género [de escrita] que me permita a maior aproximação possível à vida real, a realidade sempre me atraiu como um íman, tortura-me e hipnotiza-me”, diz a autora numa entrevista. E conclui: “Escolhi como género as verdadeiras vozes humanas, as confissões e testemunhos, porque é assim que eu vejo e ouço o mundo, como um coro de vozes individuais e uma colagem de detalhes da vida de todos os dias”.  

A sua primeira obra com repercussão internacional é War's Unwomanly Face (1985). Quando o livro saiu, a autora foi acusada de pacifismo e de menorizar o heroísmo da mulher soviética, acusações sérias nesses últimos anos do regime, sobretudo para quem já ganhara uma reputação de dissidência após ter publicado um primeiro livro em que dava voz aos muitos que, no interior da União Soviética, tinham sido obrigados a deixar a sua terra natal.

As autoridades comunistas ordenaram a destruição de War's Unwomanly Face, ameaçaram-na com o desemprego e levaram-na a tribunal, e as consequências poderiam ter sido mais graves se entretanto Gorbachov não tivesse desencadeado a renovação do regime.

Muitas vezes reeditado nos anos seguintes, o livro vendeu mais de dois milhões de exemplares e deu lugar a um premiado ciclo de documentários. Apesar deste sucesso, os editores bielorrussos continuam a não publicar as obras de Alexievich. “Fazem de conta que eu não existo”, disse esta quinta-feira a escritora, numa conferência de imprensa convocada após a atribuição do Nobel.

Tendo optado pelo exílio para escapar à persistente perseguição das autoridades do seu país, a escritora viveu em Paris, Estocolmo e Berlim, e só em 2011 regressou a Minsk, capital da Bielorrússia.

O prémio agora atribuído à jornalista talvez não chegue na melhor altura para o presidente bielorrusso Alexander Lukashenko, que será provavelmente reeleito nas eleições deste domingo, já que Alexievich é uma declarada opositora do regime. A autora explicou que não iria votar, mas que se o fizesse escolheria a candidata de oposição Titiana Karatkevich.“Não sou uma pessoa de barricadas, mas estes tempos forçam-nos a isso, porque o que se está a passar é vergonhoso”, disse a jornalista, numa referência à situação política do país, onde muitos temem a crescente influência russa.

Tal como War's Unwomanly Face (traduzível por A Guerra Não Tem Rosto de Mulher), também Zinky Boys inspirou vários filmes, e o mesmo  aconteceria com Enchanted with Dead, de 1993, um livro sobre as tentativas de suicídio de cidadãos que não conseguiram resignar-se à derrocada do comunismo e aceitar a nova ordem política.

Na lógica dos seus outros livros, Zinky Boys não é um ensaio sobre a política soviética que conduziu à intervenção no Afeganistão, mas um livro que dá voz aos que sofreram com a guerra: militares de diversas patentes, mães de soldados mortos, enfermeiras, até prostitutas.

No mesmo ano em que publicou War's Unwomanly Face, Alexievich lançou ainda outro livro sobre a II Guerra, The Last Witnesses: the Book of Unchildlike Stories, baseado nas memórias dos que testemunharam e sofreram o conflito quando eram crianças.

Andrei Zorin, professor de russo na Universidade de Oxford, afirmou ao jornal Financial Times que “a atribuição do Nobel a Svetlana Alexievich é uma forte tomada de posição moral e literária, que defende os valores da vida humana, em tempos de militarismo triunfante, e a dignidade pessoal dos que enfrentam ditaduras arrogantes”.

Traduzida em 22 línguas, Alexievich, cujas obras têm sido adaptadas não apenas ao cinema, mas também aos palcos, recebera já mais de uma dezena de prémios literários, aos quais se veio agora juntar o Nobel. Alguns dos mais relevantes são o prémio Tucholsky, atribuído pelo P.E.N. sueco em 1996, o prémio da fundação Friedrich Ebert para livros políticos (1998), o Prémio da Paz Erich Maria Remarque (2001), o prémio americano National Book Critics Circle Award (2005), ou o prémio de reportagem literária Ryszard-Kapuscinki (2011).

Atribuído em 2014 ao escritor francês Patrick Modiano, o Nobel da Literatura voltou este ano a oferecer um prémio pecuniário de cerca de 877 mil euros, montante estabelecido em 2012, quando a Academia Sueca reduziu o prémio de dez milhões de coroas suecas (cerca de um milhão de euros) para o seu valor actual.

Este é o quarto prémio Nobel atribuído este ano, depois do Nobel da Medicina (William Campbell e Satoshi Omura), da Física (Takaaki Kajita e Arthur McDonald,) e da Química (Tomas Lindahl, Paul Modrich e Aziz Sancar). Nesta sexta-feira será atribuído o Prémio Nobel da Paz pelo Comité Nobel Norueguês.

 

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