PCP disponibiliza-se para viabilizar governo PS e para fazer parte dele

António Costa disse que PS e PCP estão numa fase de tentar “dar expressão institucional àquilo que foi a vontade popular de mudança de políticas”. Para já, a convergência resumiu-se à avaliação dos resultados das eleições legislativas.

Nuno Ferreira Santos
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Nuno Ferreira Santos

Não se falou em saída do euro, em renegociação da dívida, nem em rejeição do Tratado Orçamental ou sobre a NATO. Em cima da mesa da reunião entre PCP e PS esteve apenas a forma como a esquerda pode impedir um governo PSD-CDS. Jerónimo de Sousa garantiu a António Costa que viabilizará um governo PS e até admite assumir “responsabilidades governativas”, mas não põe essa participação como condição para esse apoio.

Jerónimo de Sousa voltou a bater na mesma tecla que usou logo no domingo à noite, de forma a colocar pressão sobre o PS. Reafirmou a intenção de o PCP rejeitar qualquer solução governativa da direita e classificou-a como “a questão chave e principal” que se sobrepõe mesmo às divergências de políticas entre comunistas e socialistas.

“O PS só não será governo, se não quiser”, defendeu o secretário-geral comunista, garantindo que o PCP rejeitará “qualquer moção de rejeição vinda do PSD ou do CDS” a um programa de governo socialista. E colocou pressão sobre os socialistas: “O PS terá de escolher entre associar-se à viabilização e apoio a um governo PSD-CDS ou tomar a iniciativa de formar um governo que tem garantidas condições para a sua formação e entrada em funções.”

Além do apoio explícito ao PS, o PCP propõe-se ajudar activamente. “Nós sempre considerámos que o PCP estava preparado para assumir todas as responsabilidades, incluindo governativas, para realizar uma política diferente da que foi realizada nestes últimos anos pela maioria. Essa disponibilidade mantém-se”, afirmou Jerónimo de Sousa.

E garantiu que não põe como condição entrar num governo socialista. E também “não significa que o programa do PCP ou do PS tenham de estar contidos no programa do governo”. “[Mas essa] solução governativa terá da nossa parte compreensão política e apoiamos a sua viabilização”, afirmou. Essa é a maneira de impedir mais quatro anos de política de direita, considerou.

“Neste encontro não discutimos participações ou não participações num governo. Foi uma reunião produtiva, mas é um processo inacabado”, acrescentou o líder comunista, que deixou a garantia da “continuação de diálogo” entre os dois partidos.

Mas, por enquanto, os dois partidos estão ainda num plano a montante desse cenário. António Costa disse que PS e PCP estão numa fase de tentar “dar expressão institucional àquilo que foi a vontade popular de mudança de políticas” expressa na eleição de domingo. Por seu lado, Jerónimo de Sousa contou que não levou para a reunião qualquer “caderno reivindicativo”, mas se limitou a “afirmar o que é conhecido das propostas” do PCP.

Porém, é certo que ninguém falou sobre o que os divide profundamente, como é o caso, do lado do PCP, da rejeição do Tratado Orçamental, da defesa da saída do euro, renegociação da dívida, reversão total das privatizações ou nacionalização da banca. Jerónimo disse, no entanto, aos jornalistas que não admite deixar cair a saída do euro ou a renegociação da dívida e que o PCP manterá o seu “alinhamento, programa e objectivos”.

Divergências não afectam diálogo
“As divergências são por demais conhecidas”, admitiu António Costa, que preferiu passar ao lado das perguntas dos jornalistas sobre as questões inconciliáveis. “O que estamos discutir não é o programa dos partidos, porque cada um tem o seu programa. O que estamos a discutir são as medidas de políticas consideradas prioritárias para o país, tendo em vista haver uma inversão da política seguida, dando satisfação e expressão institucional àquilo que foi a vontade dos portugueses no domingo", argumentou o líder socialista.

“Não tratamos das formas [de governo], mas das políticas. Era preciso apurar o que, além da divergência, havia de convergência. Não estivemos a trabalhar sobre o que nos divide, mas a trabalhar em torno de perspectivas comuns e actuações prioritárias que correspondam à vontade dos cidadãos para que haja uma alteração de políticas em Portugal”, acrescentou António Costa.

O encontro entre as delegações dos dois partidos durou quase hora e meia. Pelo PS, além de Costa, estiveram os deputados Ana Catarina Mendes e Pedro Nuno Santos e o coordenador do programa do PS Mário Centeno; do lado do PCP estavam, além de Jerónimo, os deputados João Oliveira e Francisco Lopes, e Jorge Cordeiro, do comité central.

Apesar de António Costa ter afirmado aos jornalistas que foram discutidos “pontos de convergência”, embora se tenha recusado a “esmiuçar” o assunto, Jerónimo de Sousa acabou por contar que a convergência se ficou, por enquanto, ao nível da “avaliação dos resultados das eleições legislativas”. “Comungamos da opinião de que a maioria do povo português não quer este Governo PSD-CDS nem esta política.”

A declaração de Jerónimo de Sousa contém, porém, uma contradição: diz que o programa do PS “não responde a uma aspiração de ruptura com a política de direita”, mas logo a seguir afirma que “nada impede o PS de formar governo, apresentar o seu programa e entrar em funções”, tendo em conta a nova correlação de forças na Assembleia da República.

“Mesmo num quadro em que o PS insista no seu programa e que não seja fácil encontrar uma convergência sobre um programa de governo, nem assim se pode concluir que a solução seja um governo do PSD-CDS”, vincou ainda o líder comunista.