Crítica

O regresso de Mariza: grandes fados num disco com poucos fados

Mariza volta a fugir do fado tradicional, mas é quando vai ao fado que encanta. Primeiro disco de originais em cinco anos.

Foto
Estando Mariza em tão boa forma nos fados, fica a pena de o disco não se centrar exclusivamente neste género DR

Em 2008, com Terra, Mariza fugiu ao fado tout court e arriscou por caminhos que poderíamos designar por world. Era o seu quarto álbum de estranho e o primeiro em que decidia sair do universo que a havia tornado um dos nomes mais importantes do fado. Dois anos depois regressava ao seu universo de eleição, com Fado Tradicional (2010) e desde então editou apenas, em 2014, um best of.

Tendo em conta o estatuto icónico que adquiriu, havia certa curiosidade em saber o que faria a seguir. Mas bastava o título para se perceber que no seu regresso aos originais surge de novo a vertente que se desvia do fado tradicional, seja em temas que são mais canção que fado ou em temas que falam linguagens estrangeiras. Curiosamente, é no fado que Mariza encanta: da lenta tristeza de Rio de mágoa (um fado admirável) às sombras de Sombra (que merece o mesmo adjectivo), passando por Maldição ou Anda o sol na minha rua, torna-se claro que, por mais que o fado já não seja suficiente para Mariza, é nele que ela brilha. <_o3a_p>

As investidas pela canção vão do bem conseguido, como no caso de Alma ou Paixão, à confusão de Padoce de céu azul (e a esta confusão não será indiferente o facto de Mariza cantar tanto em inglês como em criolo). Em Melhor de mim não dá o melhor de si – chega até a exagerar um pouco no uso da sua bela voz, recurso que se compreende mas seria melhor domado (o que acontece, com resultados admiráveis, nos fados). Aqui e ali há soluções curiosas: o uso de coros e percussão em Saudade solta, a electrónica em Sem ti (que, apesar de curiosa, acaba por ser dispensável, isto apesar de o tema subir num crescendo que lhe fica bem), ou os dedos que estalam em Paixão. Estando Mariza em tão boa forma nos fados, fica a pena de o disco não se centrar exclusivamente neste género.<_o3a_p>