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Esquerda acusa Presidente de “passar por cima dos partidos”

PSD anuncia que Pedro Passos Coelho está disponível para dialogar com o PS, mas não especifica se procura um entendimento para o Governo ou apenas parlamentar.

PSD foi dizer a Cavaco que há "todas as condições de estabilidade e de coesão" para governar
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PSD foi dizer a Cavaco que há "todas as condições de estabilidade e de coesão" para governar Enric Vives-Rubio

A esquerda não gostou que o Presidente da República chamasse a Belém o líder do PSD e o encarregasse de “desenvolver diligências” para conseguir uma solução com “estabilidade política e governabilidade”, praticamente deixando claro que esse entendimento se deve fazer com o PS. Porque considera que Cavaco Silva passou por cima dos partidos e do seu papel. Já a direita aplaude a atitude do Presidente.

Com esta atitude, o Chefe de Estado está a "patrocinar a manutenção no Governo das mesmas forças [políticas] que os portugueses disseram nas urnas que não queriam que continuassem", considera o deputado e líder da bancada comunista, João Oliveira. Em declarações no Parlamento, lamentou a opção de Cavaco Silva de "avançar num caminho", previamente à "auscultação de todos os partidos para tomar uma decisão".

"Dizendo que não cabe ao Presidente, mas sim aos partidos políticos criar condições para um novo Governo e que não se substituirá aos partidos, [Cavaco Silva] está a passar por cima dos partidos políticos e do seu papel", acusou João Oliveira.

"O Presidente está a procurar insistir na perpetuação da política que vinha sendo executada pelo Governo, particularmente com aquelas notas de continuação da submissão externa no plano da participação de Portugal na NATO, as questões do euro, do Tratado Orçamental ou mesmo da renegociação da dívida", acrescentou.

Já para a deputada bloquista Mariana Mortágua, o que o chefe de Estado fez foi "pressão para um Governo de direita", criticando que este tivesse falado antes de publicados os resultados oficiais das legislativas do último domingo e sem ter ouvido todos os partidos que terão assento na Assembleia da República. A cabeça-de-lista do BE por Lisboa, censurou ainda o Presidente por ter dito que o novo Governo devia dar garantias firmes de que respeitará os compromissos internacionais assumidos pelo Estado, uma vez que "não cabe ao Presidente da República nesta fase do processo dizer quais os compromissos internacionais ou europeus a cumprir", mas, sim, respeitar a Constituição da República.

"Não será pelo Bloco de Esquerda que teremos em Portugal um Governo de direita assente numa minoria parlamentar de direita", avisou a dirigente do Bloco, numa declaração em que reiterou "o desafio ao Partido Socialista para criar as condições para uma solução governativa, estável," que "respeite a vontade dos três milhões de eleitores que rejeitaram claramente a política de austeridade".

Verdes: Presidente “não consegue ser isento”
"Os Verdes entendem que o Presidente está a provar que não consegue ser isento. Está nitidamente a favorecer o PSD e o CDS relativamente à formação de Governo, pretende que as políticas que estes partidos prosseguiram continuem", acusou Heloísa Apolónia, no Parlamento.

A deputada ecologista recordou que o chefe de Estado "tem o dever constitucional de ouvir todos os partidos políticos relativamente às hipóteses de solução governativa" e considerou que há um "processo enviesado", dado que "PSD e CDS perderam a maioria absoluta". "[O Presidente] deu preferência ao PSD, ditou-lhe um determinado mandato para uma solução governativa e não ouviu os outros partidos políticos. Aquilo que dizemos é que, eventualmente, existem no país outras hipóteses de solução governativa e o Presidente deve encará-las", condenou.

Passos disponível para dialogar com o PS
Numa atitude de quem já assumiu plenamente o recado do Presidente da República, o coordenador da comissão permanente do PSD, Marco António Costa, mostrou a disponibilidade de Pedro Passos Coelho para dialogar com o PS. É esse o partido eleito pelo PSD para um entendimento, tendo em conta a partilha de valores europeus em torno da moeda única e da defesa.

“Vemos na proximidade nestes valores a oportunidade de criar uma solução governativa sólida, que tenha estabilidade, que seja forjada no compromisso”, afirmou o vice-presidente do PSD, sem referir directamente as razões da exclusão dos outros partidos: o PCP defende a saída do euro, o Bloco pretende que Portugal deixe de fazer parte da NATO. Será Passos Coelho a “conduzir as negociações”, adiantou, sem avançar com qualquer calendário para iniciar ou terminar as conversações.

Questionado sobre qual a natureza do entendimento que se procura com o PS – de Governo ou apenas parlamentar – Marco António Costa não foi claro sobre a intenção ou a disponibilidade dos sociais-democratas. O dirigente lembrou que o líder do PSD já tinha dado conta, na noite eleitoral, de tentar procurar “pontos de convergência” para uma “solução negociada  para a estabilidade política do próximo Governo”. 

O vice-presidente centrista João Almeida afirmou hoje que o CDS comunga da interpretação do Presidente da República dos resultados eleitorais, sublinhando que o partido está a trabalhar para uma solução de Governo e para "construir os consensos necessários à estabilidade”.

"A comunicação do senhor Presidente da República vem no sentido em que o CDS interpreta o que foram os resultados eleitorais. Houve uma vitória clara da coligação Portugal à Frente, o que faz com que esta coligação tenha a responsabilidade de gerar uma solução de Governo", afirmou João Almeida. com Lusa

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