Crítica

Correspondência secreta de um origamista galego

Vento, fogo, pó, nevoeiro são invocados neste espectáculo para retratar o abandono a que cada um se vota no exílio, voluntário ou não, da terra natal, da vida e da memória.

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Este espectáculo Habrás de ir a la guerra que empieza hoy, como o anterior, O Estado Salvaxe. Espanha 1939 (visto um dia antes no Rivoli), faz parte de um trabalho sobre a biografia dos seus antepassados que Pablo Fidalgo Lareo tem levado a cabo.

Necessariamente documental, nestas peças o texto assume a forma de cartas encenadas, ditas na primeira pessoa do singular, com destinatários vários mas remetentes devidamente identificados. O que se representa em cena é o que está em cena, fazendo da literalidade da performance força.

O descendente Pablo Fidalgo Lareo reinventa as vozes do passado, que se fazem ouvir num futuro para além das fronteiras familiares, mas directamente. No caso de O Estado Salvaxe. Espanha 1939, depois de uma sequência de filmes caseiros, super 8, a que se sobrepõe a fala do avô, sobe ao palco a própria avó de Pablo, que lê a sua carta para as netas.

Mas no caso de Habrás de ir a la guerra que empieza hoy é um actor (não um actor qualquer, mas Cláudio da Silva), quem assume o papel de Giordano Lareo, o parente fugido aos franquistas, exilado de Vigo para Buenos Aires com uma máquina de escrever às costas, e que se tornará especialista em figuras de papel, ao ponto de escrever um manual de origami no tempo em que o origami não se chamava a assim.

A última carta deste Lareo no exílio foi inventada de raiz. Às fontes biográficas e documentais, o dramaturgo e encenador sobrepôs a ficção e a poesia, expandindo a cena, aumentando a contundência dos factos, reforçando o drama. O espectador quase toca o fantasma desse tio-bisavô exilado no novo mundo, cuja presença em palco é materializada pela interpretação precisa de Cláudio da Silva, concreto, decidido, em pleno, um actor em confronto com a sua personagem e o público ao mesmo tempo, capaz de fazer uma sala viajar no tempo e no espaço.

Graças às metáforas encontradas para descrever a situação dramática, metáforas que são ditas no texto, é claro, mas que também vêm do desenho de luz e do desenho de som, e em especial de um dispositivo cenográfico, o de centenas de pássaros de papel dispostos em palco, a carta é entregue em mãos. O texto é precioso, cheio de jóias. Vento, fogo, pó, nevoeiro são invocados neste espectáculo para retratar o abandono a que cada um se vota no exílio, voluntário ou não, da terra natal, da vida e da memória.

O equilíbrio entre os aspectos literais deste espectáculo e os aspectos metafóricos é admirável. Pablo, radicado em Lisboa, é, de certo modo, também um exilado. E Cláudio da Silva, nascido no Huambo, então Nova Lisboa, traz as marcas da colonização no corpo. As alusões que todos entendem são completadas pela comparação com outras sensações e ideias. A guerra civil, os fascistas, o exílio, são espanhóis, nos anos trinta, mas chegam até Portugal e Angola, no fim do século XX, início do XXI. Nem que seja trazidos por passarinhos de papel.