Opinião

Das Auto, 25 anos depois

1.O anúncio é inconfundível. “Das Auto”. “O automóvel”. A voz masculina é forte, quase intimidatória, avisando que não admite réplicas. No geral, um carro alemão, seja ele VW, Audi, Mercedes ou BMW, é um sinal de status, pelo menos fora da Alemanha. Quem não chega lá tem de se ficar pelos franceses ou japoneses. É o equivalente ao fato italiano ou ao luxo da Louis Vuitton. A poderosa indústria alemã tem na indústria automóvel o espelho da sua qualidade, precisão e fiabilidade, que faz da Alemanha o maior exportador mundial em valor absoluto.

Psicologicamente, é tremendo para os alemães sofrer um “percalço” desta natureza. Para a admirada indústria alemã é um golpe na sua credibilidade. Haverá outras marcas europeias com um “desfasamento” entre a poluição nos testes e a poluição na estrada. Mas, pelo menos até agora, nenhuma se tinha dado ao trabalho de produzir um software deliberadamente destinado a enganar os reguladores. É como se descobríssemos que a City de Londres andava a enganar os accionistas e os investidores, falsificando números. A indústria financeira é a marca da economia britânica como a indústria alemã é o símbolo do seu poder económico. A marca vai sofrer danos irreversíveis durante algum tempo para compensar aqueles que foram enganados directa ou indirectamente no mundo inteiro. Não se trata apenas dos carros em circulação, trata-se também dos efeitos poluentes acumulados ao longo de anos, numa Europa que se autoproclama exemplar nas políticas de protecção ambiental e que quer fazer delas um factor de competitividade. Justamente, o que se vê com este exemplo é que a globalização económica tornou muito mais dura a concorrência mundial, criando a tentação (mesmo que indesculpável) de “contornar” as leis.

2. Ambrose Evans-Protchard, colunista do Telegraph, lembra que a VW não é caso único na Alemanha. O CEO do gigante da engenharia Siemens foi forçado a resignar em 2007, na sequência da revelação de um escândalo de subornos a uma escala “épica” (40 milhões de euros por ano, apresentados como parte do modelo de negócio”). Outro caso que conhecemos bem é o da empresa de submarinos (Ferrostaal) que vendeu dois a Portugal e seis à Grécia, ganhou os concursos comprovadamente graças ao pagamento de luvas, proibidas desde 1997 pela lei alemã. O caso já foi julgado na Alemanha e na Grécia e encontrados os culpados. Há outros casos menos importantes mas igualmente reveladores de uma “arrogância” alemã por vezes extremamente irritante. Quem não se lembra do caso dos pepinos contaminados com um produto químico que afectava a saúde pública? As autoridades alemãs apressaram-se a apontar o dedo a Espanha. Afinal, eram todos produzidos in loco.

Na própria Alemanha os jornais não escondem a realidade e as suas consequências. “Made in Germany caiu no esgoto”, escreve um jornal de Berlim. O mais reputado jornal económico, o Handelsblatt, classifica o truque da VW como uma “catástrofe para o conjunto da indústria alemã”, que arrasa a campanha promovida pelas grandes marcas, da Audi à BMW passando pela VW e pela Mercedes, para convencer os americanos de que o diesel já não era poluente mas, pelo contrário, a melhor maneira de cumprir os requisitos impostos à emissão de poluentes. A própria VW tinha assumido o compromisso de ser o construtor automóvel mais verde do mundo em 2018. Conseguiu empréstimos da ordem dos 4 mil milhões de euros no BEI (Banco Europeu de Investimento) justamente para financiar projectos de investigação na área da “energia limpa”, escreve o site Politico-Europe. E não vale sequer a pena cair na tentação de culpar a América, a cuja indústria este desaire dá jeito. Os EUA têm regras muito estritas em matéria de emissão de poluentes e, sobretudo, aplicam-nas com mão de ferro, ignorando se os visados são grandes ou pequenos e aplicando multas colossais.

A economia alemã assenta numa base industrial muito competitiva e isso mudará pouco. Mas a grande indústria, apesar de tecnologicamente avançada, continuará a queixar-se das regras abstractas definidas em Bruxelas ou em Berlim, que afectam a concorrência num mercado cada vez mais global. Quando a chanceler decidiu (sem consultar nenhum parceiro europeu) pôr fim à indústria nuclear depois de Fukushima para dar lugar a energias limpas, a indústria protestou, dado o preço mais baixo da energia nuclear (a França que o diga), também em nome da competitividade externa. Não se trata de tirar conclusões demagógicas. Trata-se de compreender que, num mundo globalizado onde a economia europeia tem de concorrer pela qualidade com as economias emergentes que avançam na escala de valor acrescentado e mantêm uma mão-de-obra barata, a fraude corre o risco de ser generalizada para contornar as regras. Mais difícil mas mais produtivo seria encontrar outras formas de mobilidade mais ecológicas, alterando os hábitos e incluindo algum sacrifício. Mas isso pode ser mais impopular do que a fraude que comprime o preço e melhora a velocidade.

Finalmente, há fábricas da VW no mundo inteiro, incluindo em Portugal, onde representa 1,4 por cento das exportações nacionais e tem um efeito multiplicador na indústria adjacente. Não vale a pena pensar que esta débacle não nos baterá à porta com um impacte que pode ser muito negativo. A economia mundial está em franca desaceleração, graças às fracas performances das economias emergentes. A retoma europeia é frágil, a deflação ainda não está debelada, e o mundo arde à nossa volta com uma sucessão de crises que é preciso encarar.

3. Celebrou-se ontem, em Frankfurt,  o 25º aniversário da reunificação alemã  (3 de Outubro de 1990) com a presença dos seus principais protagonistas (Kohl, Gorbatchov e George Bush). Na véspera da integração dos seis Lander da antiga RDA na RFA nem toda a gente estava pelos ajustes, na rica e tranquila Alemanha Ocidental a gozar os frutos do seu milagre económico, preferindo uma transição prolongada e ignorando uma das palavras de ordem mais gritadas nas manifestações: “Se o marco não vem até nós, vamos nós até ao marco”. Foi o caso de Oskar Lafontaine, na altura líder do SPD, contra a vontade de Willy Brandt que percebeu imediatamente, como Kohl, que a reunificação era imparável. O SPD teve uma das suas maiores derrotas nas primeiras eleições da Alemanha unificada. Vinte cinco anos depois ainda há diferenças entre o leste e o ocidente quanto a salários ou pensões mas a integração foi um êxito. A Alemanha renasceu como uma grande democracia que não esquece o seu passado e que é de novo a grande plataforma económica do continente mas ainda à procura do seu novo destino europeu, às vezes com relutância outras deixando-se cair na tentação da arrogância. Merkel foi exemplar na crise dos refugiados, lembrando que ela testa os fundamentos da verdadeira Europa. Quer liderar também pelo “exemplo moral”, embora os alemães não pareçam gostar desta nova ambição da chanceler. “O Grexit era uma coisa virtual nos jornais”, diz a investigadora Ulrick Guérot, para acrescentar: “Os refugiados estão aqui, são pessoas de carne e osso, não é uma questão elitista, é uma questão da sociedade”. Ontem, Berlim anunciou que tenciona propor o prolongamento por mais um ano da presença da NATO no Afeganistão, incluindo 850 soldados alemães que ficaram no terreno com a missão de instruírem as tropas locais. O motivo prende-se com Kunduz, perdida para os talibã, obrigando os americanos a intervir em força. Também nesta frente, a mais difícil de todas, a Alemanha faz a sua caminhada. O escândalo da VW pode ensinar-lhe alguma coisa sobre os outros, e a guerra na Síria talvez lhe mostre que nem tudo se pode reduzir ao défice e à dívida.