Sínodo da família regressa ao Vaticano mais dividido do que nunca

Situação dos divorciados e posição face aos homossexuais opõe sectores reformistas e conservadores. Papa tentará na reunião um equilíbrio delicado.

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O papa deverá publicar na Primavera uma exortação apóstolica com as suas conclusões Andreas Solaro/AFP

Um ano depois, bispos de todo o mundo regressam neste domingo ao Vaticano para o segundo dos dois sínodos sobre a família, num ambiente de grande tensão entre reformistas e conservadores. O Papa, que fez deste um tema central do seu pontificado, não quer que a reunião fique refém da discussão sobre a situação dos divorciados que voltaram a casar ou dos homossexuais. Mas pela frente tem a árdua tarefa de conciliar posições que estão mais extremadas do que nunca.

“Existem tantos outros problemas”, desabafou Francisco aos jornalistas no regresso da viagem aos Estados Unidos e a Cuba, um périplo cheio de desafios diplomáticos que parecem fáceis quando comparados com a reunião que se avizinha. No avião, o Papa disse que a Igreja precisa, por exemplo, de uma resposta pastoral para “os jovens que não se querem casar” ou de “reflectir sobre como pode melhorar a preparação para o matrimónio”.

Só que não serão esses temas, aliás bastante consensuais, que mais vão ocupar os 360 participantes no Sínodo, dos quais 279 são bispos vindos de todo o mundo para discutir “a vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo”. Foi o Papa, aliás, que direccionou a discussão quando, ao convocar o sínodo extraordinário de 2014, afirmou que a Igreja não deve excluir os divorciados recasados, os que vivem em uniões informais, os homossexuais. Sem abrir a porta à revisão da doutrina – “o casamento é indissolúvel”, reafirmou no regresso dos EUA –, defende uma atitude pastoral que seja inclusiva.

Posição que é partilhada pelo bispo da diocese de Portalegre-Castelo Branco, que tal como o cardeal patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, participará no encontro. A Igreja tem de responder a estas famílias “sem julgar, sem condenar, sem apontar”, disse à Lusa Antonino Dias, que é também presidente da comissão episcopal da família.

Mas se os reformistas aplaudem a possibilidade de aggiornamento, os conservadores denunciam o que dizem ser uma cedência ao relativismo moral das sociedades ocidentais. A tensão ficou bem visível no primeiro sínodo, no Outono passado, onde as críticas ao Papa se fizeram ouvir fora das salas fechadas onde decorreu o encontro, que terminou sem que as duas propostas mais polémicas fossem aprovadas: o acesso dos divorciados recasados aos sacramentos e o acolhimento dos homossexuais na Igreja “com respeito e delicadeza”.

Repetindo o método usado para preparar o sínodo anterior, o Vaticano voltou a enviar questionários às dioceses que, juntamente com as conclusões da primeira reunião, serviram de base a um novo documento de trabalho, divulgado em Junho. Este guião, escreveu o jornal católico francês La Croix, sublinha que depois da discussão do ano passado “é tempo de procurar soluções práticas” para assegurar uma atitude de “acolhimento e abertura”.

O documento desiludiu os que anseiam por reformas – um participante no primeiro sínodo adiantou à AFP que a questão da homossexualidade que tanto dividiu os bispos no ano passado será evitada ao máximo. Mas o texto vai longe o bastante para mobilizar os tradicionalistas – mais de 700 mil fiéis em todo o mundo assinaram uma “súplica filial” pedindo ao Papa que reafirme os ensinamentos da Igreja.

"Não há nenhuma dúvida que a família está submetida a um ataque feroz, mesmo dentro da Igreja”, afirmou recentemente o cardeal norte-americano Raymond Burke, porta-voz dos opositores de Francisco. No sector contrário, o cardeal alemão Walter Kasper não calou as críticas aos “fundamentalistas” da doutrina.

Do sínodo, que se prolonga até dia 25, sairá um relatório, mas a última palavra cabe ao Papa, que a comunicará na exortação apostólica prometida para a Primavera, no que promete ser um dos momentos definidores do seu pontificado.