Ana Marques Maia
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Ana Marques Maia

Era um fotógrafo sem máquina e hoje está no "New York Times"

O nome dele consta na lista dos vencedores de dois dos mais prestigiados prémios internacionais de fotografia — mas nem sempre Daniel Rodrigues teve tantas oportunidades. O fotojornalista português de 28 anos colabora com “o maior jornal do mundo” e viaja só para fotografar. O P3 falou com ele dois anos depois do World Press Photo

Ouvimos falar dele pela primeira vez em Fevereiro de 2013. Daniel Rodrigues tinha vencido o World Press Photo (WPP), na categoria “Daily Life”, com uma fotografia tirada na Guiné-Bissau. Estava desempregado. Daniel nem sequer tinha material fotográfico quando venceu o prémio: havia sido obrigado a vendê-lo para fazer face às despesas. Em dois anos e meio, na vida do jovem de Riba de Ave “muita coisa mudou, quer a nível pessoal quer profissional”. “Foi uma reviravolta”, confessa ao P3 o fotógrafo que, desde Abril, trabalha para o jornal norte-americano “The New York Times” (NYT). “Na altura, estava sem nada e agora estou feliz: tenho o material que quero, fotografo e colaboro com o maior jornal do mundo. Não posso querer outra coisa.”

Daniel Rodrigues gosta de conversar. Com o P3, num café da baixa do Porto, o fotógrafo de 28 anos faz um exercício de memória que começa em 2013. É esse o ano que marca o verdadeiro início da sua carreira. Há um antes e um depois do prémio internacional. “Sejamos sinceros: antes de ganhar o WPP não tinha nada para apresentar num jornal”, começa por dizer. Desde aí já publicou no “Expresso” e na “Visão”, em Portugal, e na CNN, no “Daily Mail”, no “Die Welt” e no NYT, no estrangeiro, só para citar alguns títulos. Alguns trabalhos fotográficos que realizou por conta própria, em viagens que faz, já foram vendidos mais de dez vezes.

Mas para entender a importância dos últimos anos é preciso recuar até 2008, quando Daniel começou a estudar fotojornalismo no Instituto Português de Fotografia (IPF), no Porto. Logo no primeiro dia de aulas perguntaram-lhe o que queria ser, em jeito de apresentação. “Eu disse que tinha cinco sonhos: ser fotojornalista, trabalhar para o ‘Jornal de Notícias’, ganhar o World Press Photo, trabalhar para o ‘The New York Times’ e para a ‘National Geographic.” Desta lista só falta realizar-se um sonho — o último —, mas até este pode estar próximo. “Só me falta o jipe para viajar por África”, diz.

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No Brasil fez uma reportagem sobre o futebol de rua, a propósito do Mundial 2014 Daniel Rodrigues

África é, aliás, um dos sonhos pessoais que ainda não conseguiu realizar como gostaria. Depois de ter estado na Guiné-Bissau em Março de 2012, ao abrigo de uma missão humanitária, só voltou àquele continente uma vez, para entregar a fotografia aos meninos com quem jogou à bola na aldeia de Dulombi. Mas a malária — que contraiu numa outra viagem, à Indochina — não o deixou cumprir o desejo de passar várias semanas a fotografar lá. A temática dos direitos humanos interessa-lhe sobejamente. “Sinto falta de fotografar aspectos sociais e humanitários, de ir para zonas onde precisam de ajuda e onde sei que as minhas fotografias podem ajudar, mostrando as histórias e os problemas das pessoas que têm menos”, desabafa.

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O fotógrafo passou 21 dias, em 2014, com a tribo índia Awá, com quem foi à caça Daniel Rodrigues

No “The New York Times”, para onde tem feito a maior parte dos trabalhos nos últimos meses, Daniel publica sobretudo nas secções “Travel” e na revista de fim-de-semana. O objectivo profissional, agora, é chegar ao internacional e fazer outro tipo de reportagens. Itália, Ucrânia e Polónia foram alguns dos países que visitou em representação do jornal norte-americano, para o qual também tem feito reportagens em Portugal. “Embora gostasse muito de trabalhar para jornais portugueses, os preços são muito diferentes”, diz. “Em Portugal, infelizmente, cada vez mais não respeitam os fotógrafos. E não são só os fotojornalistas”, assegura, criticando a acção dos órgãos de comunicação social nacionais. “Continuamos a ter excelentes fotojornalistas, excelentes jornalistas e assunto para fazer reportagens. Mas para isso é preciso gastar dinheiro.”

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Em Istambul, na Turquia, visitou uma zona ocupada por refugiados sírios Daniel Rodrigues

15 prémios em nove meses

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O Princípio, o primeiro livro de Daniel Rodrigues, vai ser editado em Outubro Ana Marques Maia

Só em 2015, Daniel Rodrigues já venceu 15 concursos. O mais relevante de todos, o POY (Picture of the Year), distinguiu-o como “o terceiro melhor fotojornalista de 2014, a nível mundial”. Ao contrário do que aconteceu em 2013, Daniel não esteve em todos os jornais e revistas nacionais. “Ninguém sabe isso porque eu não estou desempregado”, desabafa. Apesar de não incluir um prémio monetário, o POY “abre portas”. “O WPP tornou-me conhecido e o POY fez com que tivesse trabalho”, compara o jovem fotógrafo.

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Já este ano, o fotógrafo esteve 20 dias no Irão Daniel Rodrigues

Depois do reconhecimento do World Press Photo, Daniel sentiu-se obrigado a melhorar a técnica fotográfica, para mostrar que o prémio era merecido [vê a galeria]. “Não vivo para prémios, embora sejam muito importantes. São um bónus que me traz mais dinheiro e mais trabalho”, diz. “Só tenho pena de não ter reconhecimento em Portugal”, desabafa. “As pessoas continuam sem saber quem é o Daniel Rodrigues, só sabem se eu disser que foi o desempregado que ganhou o WPP há uns anos.”

O dinheiro que vai recebendo dos prémios é investido em viagens. Indochina, Irão e Brasil são destinos que visitou nos últimos tempos: vai, explora o máximo possível, fotografa e depois procura vender os trabalhos a jornais portugueses e estrangeiros. Foi o que aconteceu com a reportagem sobre a tribo dos Awá, índios que vivem na Amazónia brasileira há séculos. Daniel já vendeu o trabalho, que resultou da sua estadia de 21 dias com a tribo em 2014, mais de dez vezes (CNN, “Die Welt”, “Daily Mail”).

A nível pessoal, garante, “foi incrível”. Durante três semanas esteve “fora do mundo”, no meio da floresta amazónica, com pessoas que só diziam “algumas palavras em português”. Caminhou durante 12 horas para caçar macacos, pumas, tatus. Foi acolhido como parte das famílias da tribo, uma das mais ameaçadas do mundo. “Fui para lá com um bocado de medo porque eles não falam português. Não tinha Internet para poder dizer se corria tudo bem, estava no meio do nada depois de já ter apanhado malária”, lembra. No fim “foi incrível” e o que mais o impressionou foi “a simplicidade e o facto de não saberem o que são coisas banais para nós”. “E são felizes assim”. Quando voltou, garante, começou a dar “muito mais valor a pequenas coisas”. Algumas das fotografias que tirou na Amazónia fazem parte do livro que vai publicar já em Outubro. “O Princípio” é o primeiro livro de Daniel Rodrigues e inclui tudo o que fez em 2012, 2013 e 2014.

“Em Portugal, há muitas pessoas com talento que acabam a trabalhar num supermercado”, disse ao P3 Daniel, há dois anos. Já nessa altura acreditava ser “importante não desistir”. “Eu desisti uma vez quando vendi o material e fiquei sem nada. Mas ganhar o prémio mudou a minha maneira de pensar”, admite. É preciso “lutar pelas coisas, fazer sacrifícios”. “Mesmo que estejas a trabalhar no supermercado ou numa loja, se tens um sonho, continua a lutar.”