Yuya Shino/Reuters
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Megafone

Em Londres não se pode votar, yô

Sexta-feira: dez milhões de pessoas nesta cidade e só nos temos aos dois. Tivéssemos vindo sozinhos, um sem o outro, e não teríamos ninguém. O sentido da vida? Podermos estar juntos, todos

Votar em Londres? Impossível! Assim como impossível é descrever em apenas três mil caracteres todos os "A"s e "B"s através dos quais um Estado (o nosso) mantém o mais longe de si quem um dia se viu fora do país.

Então, façamos de conta que vivemos em Londres e queremos votar. Primeiro passo, ir ao Consulado. Como o Consulado só está aberto durante a semana é preciso esperar por um período de férias, porque tirar um dia de folga nem pensar. Como temos a sorte de ser professores no Reino Unido, temos férias de seis em seis semanas (mordam-se de inveja), pelo que passadas as seis semanas aqui vamos nós a caminho do Consulado.

"Bom dia, desculpe, como é que fazemos para poder votar?"

Responde o tuga de bigode gordo (é o tuga que é gordo ou o bigode?) do lado de lá do guichet: "Ó meu senhor, não sei, para isso tem de ir à Junta de Freguesia da sua área de residência. “Qual área de residência?", perguntamos, “A sua área de residência em Portugal!“.

Passam seis semanas e vamos a Portugal, à respectiva Junta de Freguesia para, feitos tansos, perguntar:

“Bom dia, desculpe, como é que fazemos para votar em Londres?“ (já devem estar a adivinhar a resposta)

Responde a senhora de óculos cansados (os óculos ou a senhora?) do lado de lá do guichet, que agora também faz as vezes do posto dos correios fechado o mês passado: “Ó meu senhor, para isso tem de ir ao Consulado Português em Londres!“.

Resumindo, uma vez de volta ao Reino Unido de mãos a abanar e enquanto passam mais seis semanas e voltamos a Portugal, acabamos por descobrir que na verdade é preciso começar por actualizar a morada no Cartão de Cidadão num balcão do Registo Civil em qualquer ponto do País. Uma vez actualizada a morada, mandam-nos um papelinho para a nossa morada em Londres, o qual devemos apresentar no consulado no prazo de quarenta e cinco dias. Através do Consulado Virtual, na internet, fazemos uma marcação para efeitos de recenseamento eleitoral, esperamos mais seis semanas e, no respectivo dia, lá vamos nós outra vez:

“Bom dia, desculpe, gostaríamos de nos recensear no Consulado“.

“Sim senhor, fizeram marcação?“

“Sim, através do site, para as dez horas.“

“Ó meu senhor, o site não funciona, tem de fazer marcação por telefone“.

Pois, mas agora só daqui a seis semanas, e entretanto caduca o prazo do papelinho...

Passaram doze semanas: fomos a Portugal, actualizámos a morada e enviaram-nos um novo papelinho para casa, marcámos no consulado por telefone e aqui estamos nós, mais uma vez. De papelinho na mão o senhor de bigode gordo actualiza os dados. “Bom, agora têm de cá voltar outra vez porque o cartão [de cidadão] demora sempre vinte e quatro horas a actualizar.“, de modos que ainda não é desta que podemos votar...

E a paciência que começa a faltar.

Seis semanas depois, outra vez no consulado, descobrimos que o cartão deu erro e temos de voltar a Portugal outra vez. E porque para podermos votar temos de nos recensear até sessenta dias antes do próximo acto eleitoral, já não vamos poder votar nas Legislativas desta semana e assim ajudar quem para trás deixámos a derrubar Portugal mais este governo que nos atropela. De caminho foi mais fácil tirar uma pós-graduação em Inglaterra ou adquirir a cidadania Britânica, incluindo comprar casa.

Tocam à campainha. É dos serviços eleitorais Ingleses, os quais todos os anos vêm porta-a-porta certificar-se como todos os cidadãos residentes podem, de facto, exercer o seu direito elementar de voto. Assino um papel e agradeço. Agora já posso votar, mas não em Portugal.

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