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Megafone

E se chamassem lento ao teu filho?

Mas, não há miúdos lentos. Não há pessoas lentas. Há pessoas e miúdos bons em determinadas áreas e vertentes e menos bons noutras. Não queiram que o Ronaldo seja o ás da matemática ou da semântica. Ainda assim, ele é o melhor do mundo, no futebol.

Basta fechar os olhos para voar no tempo e cheirar o pó do pau de giz a percorrer grosseiramente a lousa escura da sala de aula. Benditos aqueles dias onde as maiores preocupações eram escolher a brincadeira do intervalo, intercaladas com alguns testes e avaliações aparentemente necessárias. Felizmente, tive uns pais e uma professora primária tão desfocados dos números e dos objectivos das boas notas que, por isso mesmo, me tornei numa boa aluna.

Foi um percurso. Não comecei logo nos primeiros anos a pertencer ao outrora quadro de honra. Nesses tempos, aliás, o meu nome estava mais vezes escrito nos recados dos pais devido aos castigos. A criatividade instigava-me a estender o pé ao mesmo tempo que a minha irmã gémea (contactada apenas pelo olhar) para, daí a segundos, juntas fazermos voar das mãos de um colega distribuidor de sala para o éter os cadernos diários. Ser as mais novas da turma era a nossa maior justificação para este tipo de comportamento esporádico. Eu prefiro chamar-lhe espírito de iniciativa.

Felizmente, a minha professora primária também o encarava assim e sempre estimulou estas e outras atitudes supostamente menos escolares. Claro que com conta, peso e medida. Nunca ouvi da sua boca um "os alunos mais lentos não me deixam avançar". Foram precisos 34 anos de vida para os meus ouvidos testemunharem tal afirmação. É certo que na terceira pessoa. Proferidos por uma pessoa ligada à educação. Apenas na semana passada. Reconheço, é certo, todas as dificuldades que a profissão de professora acarreta.

Sobretudo nos nossos dias. Salas repletas, sem condições muitas vezes, crianças adultas cada vez mais cedo, indisciplinadas desde o ventre. Mas, não há miúdos lentos. Não há pessoas lentas. Há pessoas e miúdos bons em determinadas áreas e vertentes e menos bons noutras. Não queiram que o Ronaldo seja o ás da matemática ou da semântica. Ainda assim, ele é o melhor do mundo, no futebol. Por outras palavras, urge uma mudança no paradigma educacional português à luz da tão falada educação finlandesa amplamente divulgada por cá. E ainda bem.

Apenas se esqueceram de um pequeno grande detalhe. Há mais de 30 anos, ainda antes de eu pisar uma sala de aula povoada de giz, sonhos e de esperanças, os finlandeses vieram à Escola (pública) da Ponte copiar, em bom, o seu projecto educativo. Sim, a ideia é nossa. É precisamente este um dos grandes motes de um fórum educativo agendado para a próxima quinta-feira, dia 1, na Câmara de Matosinhos. "(Re)volução da Aprendizagem" tem inscrição, espante-se, gratuita, feita previamente online. É dirigido sobretudo à importante classe dos professores (para que os alunos lentos deixem de ser uma realidade), mas também a todos os cidadãos que, como eu, se preocupam com temáticas educativas nas mais diversas faixas etárias.

Porque o futuro das nossas escolas começa hoje e agora. Lentamente, é certo, mas cheio de diversidade, multidisciplinaridade e, sempre, numa aprendizagem ao longo da vida.