Shell desiste de explorar petróleo no Árctico

Depois de anos de polémica ambiental e regulatória, prospecção ao largo do Alasca deu resultados "decepcionantes", segundo a empresa.

Foto
A plataforma que foi construída no Alasca AFP PHOTO / TIM EXTON

A multinacional Shell desistiu de explorar petróleo no Árctico, encerrando anos de polémica com ambientalistas e o Governo norte-americano. Numa anúncio surpreendente feito nesta segunda-feira através de um comunicado, a empresa anglo-holandesa diz que, embora tenha encontrado gás e petróleo num poço exploratório ao largo do Alasca, as quantidades não são suficientes para a sua exploração comercial.

A Shell apostara fortemente no seu projecto. Mas a exploração de petróleo no Árctico enfrentava uma aguerrida contestação, pelo receio de acidentes num ambiente frágil e praticamente intocado, simbolizado por baleias, morsas e ursos polares.  

O anúncio foi feito no último dia em que a Shell podia efectuar prospecções, este ano, num poço da bacia chamada Burger J, no mar de Chukchi, a 240 quilómetros de Barrow, no Alasca.  A perfuração chegou a cerca de 2070 metros de profundidade. Mas o que foi encontrado desapontou o grupo petrolífero, que agora selará definitivamente aquele poço.  

A Shell ainda considera que aquela bacia petrolífera – com um tamanho equivalente a metade do Golfo do México – pode vir a ter uma importância estratégica para o Estados Unidos e para o Alasca. “No entanto, o resultado desta prospecção é claramente decepcionante para esta parte da bacia”, refere Marvin Odum, director da Shell para as Américas, citado num comunicado do grupo.

A empresa diz ainda que não planeia voltar ao Árctico “no futuro próximo”, não só em função do resultado em Burger J, mas também pelo elevado custo do projecto e pelas dificuldades regulatórias para o levar adiante. A Shell já investiu sete mil milhões de dólares (6,3 mil milhões de euros) no projecto, ao longo de vários anos, e antecipa que a decisão agora tomada  irá abrir um buraco de 4,1 mil milhões de dólares (3,7 mil milhões de euros) nas suas contas. Uma actualização será apresentada no balanço do terceiro trimestre deste ano. 

O Árctico vinha sendo visto como a próxima grande fronteira da exploração em massa de petróleo. Em 2008, o instituto norte-americano para os recursos geológicos (United States Geological Survey) avaliou que, acima do Círculo Polar Árctico, estariam 13% das reservas mundiais não descobertas de petróleo e 30% das reservas não descobertas de gás natural.

Várias petrolíferas lançaram projectos de prospecção na região. Mas com o colapso do preço do petróleo e outros constrangimentos, quase todas congelaram as suas pretensões.

A Shell, no entanto, manteve a sua aposta no mar de Chukchi, perante os cenários de um aumento no consumo global de combustíveis fósseis, apesar do apelo às energias renováveis e do problema das alterações climáticas. O projecto sofreu um grande revés em 2012, depois de incidentes com dois navios-plataforma – o Noble Discoverer e o Kulluk. O primeiro esteve temporariamente à deriva em Julho e o segundo encalhou junto da ilha da Kodiac, no Golfo do Alasca, em Dezembro.

Em 2013, a empresa suspendeu as prospecções no Árctico e retomou-as apenas este ano, autorizada pelo Governo de Barack Obama, numa decisão alvo de muitas críticas.

Organizações ambientalistas saudaram como uma vitória a decisão da Shell de abandonar o Árctico. “Eles tinham um orçamento de milhares de milhões, nós tínhamos um movimento de milhões. Por três anos enfrentamo-los, e o povo venceu”, disse o director executivo da Greenpeace no Reino Unido, John Sauven, citado pela agência Reuters.

A maior preocupação dos ambientalistas é a de que seria muito difícil, senão impossível, limpar a poluição deixada por um eventual derrame de petróleo. Aprisionado por baixo da calota polar, seria impossível chegar aos hidrocarbonetos, ainda mais trabalhando em condições inóspitas – com extremo frio, parte do ano às escuras e sob permanente riscos à navegação. Além disso, as águas frias não permitem a proliferação de bactérias que naturalmente degradam os hidrocarbonetos.