Dia Internacional da Caridade

Num tempo em que é declarado o Dia Internacional da Caridade, vale a pena revermos sucintamente o pensamento de Bento XVI a este respeito

No passado dia 5 de Setembro, o mundo celebrou o Dia Internacional da Caridade. Para meu espanto, a celebração tem origem numa Resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU), de 17 de Setembro de 2012, que me passou totalmente despercebida, como despercebida passou a celebração dessa data em 2013 e 2014.

Conforme se lê na Resolução, entre os pressupostos em que assenta a decisão figura o reconhecimento dos esforços das organizações de caridade e de indivíduos, incluindo o trabalho da Madre Teresa (de Calcutá). Não será por acaso que o dia escolhido recaia no da morte dessa mulher que dedicou a vida aos mais pobres dentre os pobres.

Todavia, tenho outro motivo de surpresa por essa decisão, e que decorre de a palavra “caridade” estar, pelo menos no mundo chamado ocidental, quase totalmente desacreditada. Pessoas e instituições, quando querem valorizar o que dizem em matéria de solidariedade e justiça social costumam tomar o cuidado de explicar, por exemplo, que “não se trata de caridade, mas de justiça”. Uma amiga minha, que muito estimo, esclarecia num colóquio: “não estou a falar de caridade, mas de direitos humanos”. Como foi possível a ONU ter adotado o termo e sem reservas?

Nos anos cinquenta do século XX, houve pensadores que abordaram a questão de palavras que, com o decorrer do tempo, tinham perdido a sua força original e se tinham transformado praticamente em contravalores. Identifiquei, nessa altura, duas tendências. Uma propunha o abandono desses termos e a sua substituição por palavras novas. Outros defendiam a reabilitação desses termos, de modo a restituir o seu significado original.

Creio que o termo “solidariedade”, para cuja divulgação muito contribuiu a encíclica Solicitudo rei socialis, do papa João Paulo II, de 1987, teve, nalguma medida, a função de “substituir” a palavra “caridade”, na linguagem comum. Aconteceu, porém, que o papa Bento XVI, na encíclica Caritas in Veritate, de 2009, optou, decididamente, por recuperar o termo “caridade”, dando-lhe todo o peso que é seu por direito. Num tempo em que é declarado o Dia Internacional da Caridade, vale a pena revermos sucintamente o pensamento de Bento XVI a este respeito. Antes, porém, vejamos o que se colhe dos considerandos da Resolução, sobre o sentido do dia internacional.

O texto começa por reafirmar aspetos básicos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, designadamente que o reconhecimento da dignidade e de direitos iguais e inalienáveis de todos os membros da família humana constitui o fundamento da liberdade, justiça e paz no mundo [1]. A Assembleia Geral reconhece “o papel da caridade em aliviar crises humanitárias e o sofrimento humano dentro das nações e entre nações”; afirma que a caridade pode contribuir para a promoção do diálogo entre pessoas de civilizações, culturas e religiões diversas, bem como da solidariedade e entendimento mútuo; e reconhece os esforços de organizações e indivíduos caritativos, incluindo o trabalho da Madre Teresa [2].

Bento XVI declara-se ciente dos desvios e esvaziamento de sentido que a caridade não cessa de enfrentar, com o risco, daí resultante, de ser mal entendida, de ser excluída da vida ética e, em todo o caso, de impedir a sua correta valorização. “Nos âmbitos social, jurídico, cultural, político e económico - acrescenta -, (…) não é difícil ouvir declarar a sua irrelevância para interpretar e orientar as responsabilidades morais.” [3]

Quem tenha tido algum contacto com o cristianismo conhece, certamente, a importância que o termo “caridade” tem na sua mensagem para a humanidade. Em sentido cristão, “caridade” tem o mesmo sentido que “amor”, termo este que é geralmente utlizado em linguagem comum e que também tem estado sujeito a entendimentos tão diversos quantos os seus utilizadores. Há, porém, uma diferença substancial entre as evoluções semânticas da “caridade” e do “amor”. A primeira tem sofrido um progressivo esvaziamento de sentido, acabando por ser desvalorizada. O segundo continua a ser um termo “válido”, porém, sujeito a uma imensa diversidade de significados e até de graves distorções.

Como disse, para o cristão, a “caridade” identifica-se com o “amor”. E ao verificar que um dos contributos de Jesus de Nazaré a este respeito foi o de fundir o mandamento do amor a Deus com o do amor do próximo, o seguidor desse Jesus fica a saber que está nisso o fundamental e o maior sentido da existência humana. O maior dos mandamentos, dirá o Evangelho.

O grande contributo de Bento XVI consiste, em primeiro lugar, no modo como associa a caridade à verdade: “A caridade é amor recebido e dado; é “graça” (cháris). (…) Sem verdade, sem confiança e amor pelo que é verdadeiro, não há consciência e responsabilidade social”.[4]Em segundo lugar, no papel que atribui a dois critérios orientadores da ação: a justiça e o bem comum.

Numa linha de contraimagem, diz Bento XVI: “Sem verdade, a caridade cai no sentimentalismo. O amor torna-se um invólucro vazio, que se pode encher arbitrariamente.” E mais adiante: “Um cristianismo de caridade sem verdade pode ser facilmente confundido com uma reserva de bons sentimentos, úteis para a convivência social mas marginais.” [5].

Por outro lado, a caridade nunca existe sem a justiça: “Não posso “dar” ao outro do que é meu, sem antes lhe ter dado aquilo que lhe compete por justiça. Quem ama os outros com caridade é, antes de mais nada, justo para com eles.” Porém, “A caridade supera a justiça, porque amar é dar, oferecer ao outro do que é ‘meu’”. Acresce que “a caridade supera a justiça e completa-a com a lógica do dom e do perdão” [6].

Pelo que respeita ao bem comum, Bento XVI defini-o como “o bem daquele “nós-todos”, formado por indivíduos, famílias e grupos intermédios que se unem em comunidade social”. E acrescenta: “Querer o bem comum e trabalhar por ele é exigência de justiça e de caridade” [7].

Para quem tenha da caridade uma compreensão meramente interpessoal, Bento XVI alerta: “Ama-se tanto mais eficazmente o próximo, quanto mais se trabalha em prol de um bem comum que dê resposta também às suas necessidades reais”. E remata: “Este é o caminho institucional — podemos mesmo dizer político — da caridade, não menos qualificado e incisivo do que o é a caridade que vai diretamente ao encontro do próximo, fora das mediações institucionais da pólis” [8].

E uma vez que estamos a comentar uma resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas, vem a propósito concluir esta breve coletânea de passagens da Caritas in Veritate com uma referência à globalização, na qual Bento XVI explicita o sentido teológico do compromisso pelo bem comum: “A ação do homem sobre a terra, quando é inspirada e sustentada pela caridade, contribui para a edificação daquela cidade universal de Deus que é a meta para onde caminha a história da família humana. Numa sociedade em vias de globalização, o bem comum e o empenho em seu favor não podem deixar de assumir as dimensões da família humana inteira, ou seja, da comunidade dos povos e das nações, para dar forma de unidade e paz à cidade do homem e torná-la em certa medida antecipação que prefigura a cidade de Deus sem barreiras.” [9].

Este modo de entender o termo “caridade” valida e valoriza a perspetiva adotada pela Assembleia Geral, completando-a com o sentido que vem da fé.

Sociólogo

[1] Ver Resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas, de 17 de Dezembro de 2012.

[2] Ibidem.

[3] Caritas in Veritate, 2.

[4] Ibidem, 5.

[5] Ibidem, 3 e 5.

[6] Ibidem, 6.

[7] Ibidem, 7.

[8] Ibidem.

[9] Ibidem.

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