Editorial

A Catalunha precisa de política

A Catalunha votou este domingo e revelou duas coisas: metade dos catalães não quer separar-se de Espanha e metade gosta da ideia. O voto não foi um referendo à independência, mas porque em democracia as eleições são sempre esclarecedoras, a primeira conclusão a tirar é que o resultado vai condicionar o futuro da Catalunha e da Espanha.

Alguma coisa vai ter de mudar.

Milhares e milhares de catalães não se impressionaram nem com os argumentos de Madrid (sobre a ilegalidade da iniciativa e a inexistência do direito à autodeterminação), nem com o discurso do medo (independência seria sinónimo de isolamento; perda da nacionalidade espanhola; saída da União Europeia e da NATO; início de um ciclo de 70 anos de recuo económico criado pelo abandono das grandes empresas, espanholas e estrangeiras, da região).

O que é visto em Madrid como uma “aventura secessionista” tem agora um número: quase metade dos catalães acredita num futuro melhor com instituições nacionais catalãs, um exército, banco central e sistema judicial próprios.

Por anacrónico que seja lutar hoje por uma Catalunha independente quando o debate na Europa deve, pelo contrário, caminhar para um reforço da União Europeia, é um erro ignorar esta força independentista por mais tempo.

Espanha, “uma nação de nações”, tem de enfrentar a questão catalã de forma mais dialogante e tangível. O cenário de ruptura não faz sentido. É necessário renovar os instrumentos de análise e olhar para a realidade como ela é, sem falsas ilusões. A solução é política e só será encontrada através da negociação. Dos dois lados. Tal como não vale a pena forçar um voto ilegal dando a Madrid argumentos fáceis para o rejeitar; também Madrid tem de iniciar um genuíno processo de reforma do Estado que responda aos desejos e frustrações catalãs.

Há propostas para uma revisão da Constituição no sentido de criar um federalismo inspirado no modelo alemão; reconhecer o carácter nacional da Catalunha; delimitar as competências do Estado e das comunidades; reconhecer as singularidades de cada região, e definir os princípios do financiamento das autonomias de forma equitativa. Há ideias, também, para a criação de um Senado federal.

Isto leva tempo.

“Tem-se praticado a lei do menor esforço e negado o problema catalão de duas formas: minimizando-o e dando como certo que era apenas uma exaltação passageira e desapareceria por si só; e declarando-o ilegal, como se o facto de uma coisa não ser legal a fizesse desaparecer automaticamente”, escreveu há dias no El País Josep Ramoneda, professor de Filosofia e durante anos director do Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona. “Mas o independentismo está aqui, goste-se ou não dele, e sairá reforçado das eleições”.

Artur Mas, cujo futuro é hoje incerto, diz que já é tarde de mais para negociar e prometeu a independência da Catalunha em 18 meses. Não é realista. Além disso, todos sabemos – e Mas também –, há sempre tempo para negociar, desde que haja vontade.