Não ficções

& obrigada

1. Devo mais do que muitas histórias ao Vitor Silva Tavares. O nome da & etc era uma natureza e será um destino, a conversa que nunca acabou não acaba, cá ficaremos aos papéis, às cerejas, cada um sabe as que apanhou. De resto, ninguém o apanhará. Acima de qualquer história, liberdade.

2. A primeira vez que fui vizinha dele foi há 21 anos e não nos conhecíamos. Eu morava na rua do Machadinho, e em algum momento soube que duas paralelas atrás, na rua das Madres, morava o Vitor Silva Tavares. Sabia como sabemos dos minotauros ou dos orixás, era uma espécie de entidade do subterrâneo. E ele, saltarilhando da Madragoa ao Chiado, quantas vezes o devo ter cruzado sem saber que aquele pardal, aquele peso-pluma era o próprio do Oxum da cave da & etc, essa morada que eu lia no verso da folha de rosto de cada um daqueles livros quadrados, e 21 anos depois continua lá, junto a cada título:
… é uma edição & etc
produzida por Edições Culturais do Subterrâneo, Lda
Rua da Emenda, 30, sub 3
Edições Culturais do Subterrâneo! Sub 3! Qualquer ficção tem de comer muita alpista para chegar aos pés disto. Eu adorava morar na Madragoa, apesar do rato nas escadas, para não falar das baratas, e além de todas as razões ainda havia o Oxum da rua das Madres. Isto foi há tanto tempo que, claro, uma pessoa não ia ao Google ver a cara para ver se o reconhecia. Mas antes mesmo de o conhecer essa já era a geografia dele, cidade de paralelípedo e calçada, relance de rio e assobio, clara-escura, furta-cor, íngreme, tortuosa. E quando, 21 anos depois, voltámos a ser vizinhos, Lisboa já não seria isso sem o Vitor Silva Tavares, os quilómetros que ele fazia a pé como fazia os livrinhos, porque gostava e quando queria, trazendo todo o século XX fresco, como se acabasse de deixar o Almada, o Amado, o César, o Cesariny, o Forte, o Pacheco, o Herberto, ali no café.

3. Não foi o Vitor que se mudou, a sua última casa foi a primeira, eu é que em 2015 voltei para perto, o suficiente para volta-e-meia nos encontrarmos entre a Rua das Madres e a Rua da Emenda, ora mais para o fim da D. Carlos I, ora mais para o começo da Calçada do Combro, espécie de eixo libertado dos livrinhos, lá chegarei. Quando essa segunda vizinhança aconteceu, conhecíamo-nos ia para uns 15 anos, contando com correspondência, porque a primeira memória que tenho do Vitor nem é daquele timbre de rábula na voz dele, mas de uma cartinha, só curta no diminutivo, escrita a preto e à mão, com certeza, pois, que eu saiba, isto de agora ficarmos aos papéis é moral e literal: o Vitor escrevia tudo à mão, poemas, textos, memórias, como essa sobre o Almada que ele enviava na tal cartinha, a meu pedido, e, como todas em que ele punha a mão, de um português vivaz e requintado, tão cavalheiro quanto vicentino. Era parte do tempo das cerejas que era o tempo dele, tempo dono do tempo, fosse para contar histórias ou ir à tipografia onde os livrinhos se faziam, pois claro, ir pelo próprio pé e pelos dedos, letras com relevo, com cheiro, que faziam justiça ao termo que ainda hoje se usa para o tamanho das letras: corpo. Nesse tempo, as letras tinham corpo e capricho, eram uma existência física, tal como a textura, a forma, o peso do livrinho. Tinham e têm, eram e são, já que no tal eixo libertado dos livrinhos a tipografia está viva e com mais qualidade de vida do que qualquer aglomerado editorial, daqueles que hoje funcionam na base do terror: vender ou morrer. O Vitor nunca reeditou um livro na & etc, a não ser por manguito à ditadura, e nunca morreu. Em 40 anos de edição fez o que quis, como quis, com quem quis e não só não morreu como a herança dá para gerações & gerações.

4. Desde os anos 1970 a 2000, editoras como a Frenesi de Paulo da Costa Domingos, a Fenda de Vasco Santos, a Hiena de Rui Martiniano ou a Averno de Manuel de Freitas reconhecem-se na matriz da & etc, mas isso não fica por aí. Na última década, ontem, agora, vários outros projectos poderão dizer o mesmo, e isso vai desde uma editora como a Douda Correria, fundada por um dos poetas que a & etc publicou, o Nuno Moura, a uma livraria como a Letra Livre ou um colectivo como a Homem do Saco, que não apenas edita, como faz tipografia, desenho, manufactura, e onde estão cúmplices regulares do Vitor, o Luís Henriques ou a Mariana Pinto dos Santos. Soube da morte do Vitor ao fim da manhã de segunda-feira, fora a pé até à Madragoa, como muitas vezes, e por acaso deixara o telefone em casa. Sentei-me na varanda onde o Vitor veio jantar em Março, talvez Abril, impossível não me lembrar dele a contar histórias de Angola-e-do-diabo a sete ali. E não lembrar todas as pessoas que associo ao Vitor, mortos e vivos, achados e perdidos. O Vitor foi o amigo do Almada Negreiros, do Fernando Amado, do João César Monteiro, do António José Forte, do Luiz Pacheco, do Herberto Helder. Chegando aos vivos, do Alberto Pimenta, do Rui Caeiro, da Inês Lourenço, do António Vieira, do Nunes da Rocha, da Eduarda Dionísio (de quem foi parceiro assíduo na Abril em Maio e na Casa da Achada). Publicou tanto Manuel João Gomes como Nuno Júdice, Gastão Cruz, Jaime Rocha ou Fiama Hasse Pais Brandão, para não mencionar muitas dezenas de autores estrangeiros, em grandes traduções. E debaixo do seu chapéu de chuva de pardal prevenido cabiam todos aqueles que nasceram depois ou muito depois, como o Luis Manuel Gaspar, que tantas capas fez, o Pedro Serpa, que

fez a sua primeira capa na & etc (depois da morte do Olímpio Ferreira, gráfico da casa por sete anos), o Changuito, que também por causa do Vitor fez a Poesia Incompleta, poetas como o Miguel Cardoso, que lhe levou um livro do qual vieram a resultar dois, o José Miguel Silva, a Margarida Ferra ou a Valeska de Aguirre, carioca que ele editou à distância. E isto do chapéu de chuva talvez seja porque uma das imagens que tenho do Vitor é num dia de tormenta em frente à Homem do Saco, onde tínhamos ido buscar livrinhos da Valeska, capa acabada de imprimir, para eu levar para o Rio de Janeiro. Pronto, publicar na & etc parecia-me uma coisa mítica, do domínio dos orixás, mas tenho essa alegria de ter sido correio.

5. Há um ano telefonei-lhe para dizer que estava a acabar um livro que de certa forma nunca existiria sem ele. Não porque ele fosse responsável por nada do que lá está, mas por todos os manguitos à censura de que foi capaz. A coragem vem da liberdade tanto quanto a gera, essa é uma das muitas coisas que o Vitor deixa, para além das histórias. E ele deu-me a honra de se sentar no palco da Barraca para apresentar esse livro, como já fizera com outro, mas dessa vez a solo. Eu não fazia ideia do que ele diria porque praticamente só tínhamos discutido jaquinzinhos. Um dos problemas que o livro tinha era que os jaquinzinhos não estavam no ponto. Depois, na hora, o Vitor não falou desse, nem dos outros problemas do livro, e deu a todos uma noite que talvez tenha sido a melhor razão para o livro existir.

6. Não sei se havia algo da & etc no prelo. A seguir a isso não sairem mais livrinhos é o fim de um mundo, mas a morte multiplica o que a vida espalha, e cada um sabe o que guarda, e agradece.

PÚBLICO -
Foto
Nuno Ferreira Santos

7. Havia no Vitor um pudor, de temperamento e cultivo. Não me recordo de alguém que, como ele, fosse tanto um libertário púdico. Era uma forma de elegância também, e que par elegante, ele e a Carmo descendo a Calçada do Combro. Também era de um passeio mais longe. Há pouco tinha ido ao Minho, mesa, amigos, livrinhos, fez planos para ir a Trás-os-Montes, talvez lançar um destes volumes do João César Monteiro que estava a fazer com a Letra Livre. E os jaquinzinhos não entraram aqui por acaso, sendo magríssimo o Vitor não se sentava à mesa só para conversar, sabia do petisco, se vinha jantar trazia, por exemplo, aquelas amêndoas, no seu cartucho de papel. Estou desde segunda-feira a tentar lembrar-me como se chamam.