Uma revista com qualidades

A Telhados de Vidro, dirigida pelos poetas Manuel de Freitas e Inês Dias, editores da Averno, chegou ao seu 20.º número, um volume de quase 250 páginas que inclui, em separata, um livro de Adília Lopes. É talvez a mais relevante revista literária portuguesa deste início do século XXI.

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Doze anos, 20 números, 136 colaboradores: a Telhados de Vidro é definitivamente mais do que o brinquedo de um grupo de amigos fernando veludo/nfactos

De Herberto Helder ou António Barahona a Adília Lopes e José Miguel Silva, a revista Telhados de Vidro acolhe um elenco de colaboradores demasiado diversificado para poder ser conotada com um qualquer movimento, mas também não é tão ecléctica que se torne anódina.

É exigente no plano gráfico, mas evita a exuberância. Tem na poesia o seu centro de gravidade, mas dá espaço a todo o género de textos. A sua dimensão política é notória, mas os seus autores cobrem todo o espectro ideológico. Lançada em 2003 pelos fundadores da então recém-criada editora Averno, os poetas Manuel de Freitas e Inês Dias, chega agora ao seu 20.º número, uma longevidade assinalável para uma revista que faz questão de não receber quaisquer apoios, salvo aquele que resulta das colaborações (sempre inéditas) enviadas pelos autores convidados.

O número inaugural tinha 11 colaboradores e 90 páginas. Doze anos mais tarde, este número 20 que agora chega às bancas (às poucas bancas que distribuem a revista), tem 41 colaboradores e 238 páginas, e oferece ainda em separata um livro inédito de Adília Lopes, Comprimidos.

A sobrevivência e a consolidação da revista não surpreendem o poeta e dramaturgo Jaime Rocha, seu colaborador regular: “É das poucas ilhas poéticas que existem no país, e é uma ideia diferente de revista, que consegue uma junção pouco habitual da qualidade dos textos com a qualidade gráfica." Daí que os autores tenham prazer em colaborar, argumenta, dando o exemplo da romancista Hélia Correia, sua companheira: “Nunca tinha pensado em colaborar, mas quando a convidaram pela primeira vez, como já conhecia a revista, ficou entusiasmadíssima." E agora, “de cada vez que a convidam”, conclui, “saem-lhe sempre bons poemas que de outro modo não escreveria”.

Os poemas de Hélia Correia que integram este último número confirmam-no. Um deles, escrito a pretexto da morte de Herberto Helder, é mesmo um dos momentos altos da revista: “(…) Julga que o apanhou: não apanhou./ Opera no vazio. E não lhe chamo/ nem cabra nem cadela, esses abusos/ vocabulares das imprecações./ Não terá nome de animal, de algo que possa/ agarrar-se ao meu peito e comover-me./ Não terá nome algum. (…)”.

Este agigantado número 20, no qual também Jaime Rocha participa com mais um ciclo do conjunto Anjos Tardios, dá bem ideia da qualidade, mas também da variedade estética, geracional, e até geográfica dos colaboradores. Num inventário necessariamente resumido, refiram-se poetas que se estrearam na década de 70, como A. M. Pires Cabral, Helder Moura Pereira, Paulo da Costa Domingos, Emanuel Jorge Botelho ou Fernando Guerreiro, autores dos anos 80, como Rui Baião ou José Carlos Soares, e ainda nomes mais recentes, do próprio Manuel de Freitas a Rui Pires Cabral, João Almeida, Miguel Martins, Renata Correia Botelho ou Tiago Araújo.

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A estes e outros autores vêm ainda juntar-se três recomendáveis poetas brasileiros: Fabio Weintraub e Pádua Fernandes, ambos na casa dos 40 anos, e Luca Argel, nascido em 1988. De modos diversos, todos eles partilham dessa energia inventiva que marca muita da lírica brasileira recente, mas doseada por uma aspereza e uma violência que os afasta das tendências mais feéricas e culturalistas de alguns dos seus conterrâneos.

Como em todos os números da Telhados de Vidro, não faltam também traduções de autores estrangeiros: poemas do norte-americano Gerard Malanga, o poeta-dançarino-fotógrafo que fundou com Andy Warhol a revista Interview, da romena francófona Linda Maria Baros, do argentino Mariano Peyrou, e ainda duas cartas de Novalis.

Os textos em prosa que fecham a revista não são menos variados: António Barahona partilha as suas Ponderações àcêrca do paradoxo da fé, Isabel Nogueira reflecte sobre a imagem cinematográfica, Maria Filomena Molder assina um ensaio intitulado Amor do longínquo, obediência à proximidade, e Manuel de Freitas redige mais um dos seus Incipit – um ciclo dedicado a livros de estreia notáveis –, lembrando desta vez a Lírica Consumível (1965) de Armando Silva Carvalho.

O inventário das colaborações é tão heterogéneo que permite adivinhar que o método de organização da revista é um tanto peculiar: “Cada número é sempre uma incógnita: dos 20 ou 30 autores que convidamos, nunca sabemos qual vai ser ao certo o elenco final, nem o que iremos receber”, explica Manuel de Freitas. A regra é simples: o convidado manda o que quiser, poema, ficção, ensaio, ele é que sabe. Às vezes corre manifestamente bem. Veja-se o número 4, ao qual Herberto Helder fez chegar duas notáveis prosas inéditas, enquanto Joaquim Manuel Magalhães enviava o longo poema Homossexualidade, talvez um dos textos mais importantes que a revista até hoje publicou.

Que nesta diversidade de vozes se pressinta ainda assim uma coerência essencial, só pode dever-se aos critérios de escolha dos organizadores, que Freitas resume com laconismo: “Escolhemos autores de quem gostamos." Só que este “gostar” não se restringe à apreciação da obra. “Há um lado ético que está para lá do texto: só convidamos alguém cuja postura ética nos inspire alguma cumplicidade, e isto tanto vale para poetas como para ensaístas ou tradutores”, assegura.

“Postura ética” não tem aqui qualquer conotação político-ideológica. Freitas acha, aliás, que “é impossível definir em termos políticos” uma revista que inclui autores “muito alinhados à esquerda”, mas também “monárquicos, conservadores ou anarquistas”. O que interessa, diz, é que sejam “coerentes com as suas opções, como o António Manuel Couto Viana o era à direita, ou o João Almeida o é à esquerda”.

Se olharmos para o já extenso rol de 136 colaboradores da revista, uma das linhas de força das escolhas dos seus editores parece ser o desejo de recuperar bons poetas que tinham saído um pouco de cena, como Fátima Maldonado, Carlos Poças Falcão, José António Almeida ou Gil de Carvalho, para citar apenas alguns nomes de qualidade mais indiscutível.

Ao mesmo tempo, a Telhados de Vidro tem divulgado muitos poetas da geração de Manuel de Freitas, alguns um pouco mais velhos, como Vítor Nogueira, Ana Paula Inácio, Rui Pires Cabral, José Miguel Silva ou Miguel Martins, e outros mais novos, como Renata Correia Botelho, Miguel-Manso ou Diogo Vaz Pinto, mas não parece andar muito à procura de novos talentos. “Não temos editado muitos poetas com menos de 30 anos”, reconhece Freitas. “Não aparecem naturalmente com a qualidade que o justificasse e não vale a pena estar a inventá-los: há tanta gente a escrever bem e tanta coisa a merecer ser traduzida…”.

Agitar as águas
Aos autores literários da revista, juntam-se os artistas convidados a colaborar nas capas, que incluem nomes como Lourdes Castro, Carlos Nogueira, Pedro Calapez, Luis Manuel Gaspar, Adriana Molder ou Luís Henriques, entre muitos outros. Uma variedade que, também no plano visual, não põe em causa a coerência da revista, cujo arranjo gráfico foi concebido pelo principal cúmplice de Manuel de Freitas e Inês Dias na fase inicial do projecto, Olímpio Ferreira, que morreria precocemente em 2007.

“Creio que há uma harmonia no modo como as várias capas convivem, e que essa unidade em coisas tão diversas, que incluem desenhos, colagens, fotografias, se deve muito ao trabalho gráfico do Olímpio”, diz Luis Manuel Gaspar, observando que a Telhados de Vidro “tem uma lógica de sobriedade, de não ostentação, mas é feita com um cuidado invulgar”.

Convidado para ilustrar o número inaugural da Telhados de Vidro, Gaspar colaborou ainda em vários números como poeta, e assina agora a capa do livro-separata de Adília Lopes, para a qual desenhou uma bela cabeça de gato. “Quando me convidaram, achei que teria graça unificar as duas capas em volta dos gatos”, diz, referindo-se à capa deste número 20, para a qual Daniela Gomes desenhou também um gato preto, empoleirado numa poltrona. Para se perceber as pequenas cumplicidades mais privadas de que também se tece a revista, tem graça sabermos que o modelo do gato de Gaspar é a gata de Daniela Gomes, Anita, e que o gato que esta desenhou é por sua vez o saudoso Barnabé, de Manuel de Freitas e Inês Dias, e que a poltrona é a de Mário Botas, que a pintou com um dos seus galgos enroscados no assento.

Quando mostraram a Gaspar o projecto da Telhados de Vidro, este diz ter-se lembrado dos esforços de Vitor Silva Tavares para ressuscitar, em meados dos anos 80, a velha revista & etc, que dirigira em 1973 e 1974. “A Telhados de Vidro tem uma personalidade bem vincada, mas acho que há uma espécie de passagem de testemunho, como se a revista que Vitor Silva Tavares não conseguiu fazer nos anos 80 se tivesse materializado de outra forma 20 anos mais tarde”, disse ao Ípsilon, sem saber que o histórico editor de Herberto ou Luiz Pacheco já só teria um dia de vida.

Mas se o espírito da & etc pode ter ressurgido na Telhados de Vidro, talvez seja legítimo encontrar um precedente mais próximo na efémera revista As Escadas Não Têm Degraus, que António M. Feijó, João Miguel Fernandes Jorge e Joaquim Manuel Magalhães dirigiram para a Cotovia entre 1989 e 1991. O formato e a organização têm algumas afinidades e as duas publicações partilham vários autores.

Absurdo é querer continuar a ver numa revista cujo elenco de colaboradores já soma 136 nomes “o órgão dos poetas sem qualidades”, expressão em tempos usada por um crítico. Se no primeiro número podiam ainda pressentir-se alguns ecos da polémica gerada pelo prefácio que Manuel de Freitas escrevera pouco antes para a sua antologia Poetas Sem Qualidades (2002), a Telhados de Vidro rapidamente demonstrou que visava bastante mais alto do que servir de brinquedo a um grupo de amigos apostados em irritar os Dantas dos nossos dias.

Se privilegiarmos a qualidade dos autores, a mistura de criação e reflexão, a consistência editorial e gráfica, a vontade de intervir no presente e de agitar (e separar) algumas águas, mas também a reavaliação crítica do cânone literário mais recente, é até difícil não reconhecer na Telhados de Vidro a revista literária portuguesa mais relevante surgida nesta primeira década e meia do século XXI.