Turquia pode ajudar UE com os refugiados a troco de apoio contra os curdos

A Europa teme a chegada dos mais de dois milhões de refugiados sírios que vivem na Turquia. Para fechar as fronteiras, Ancara pede um preço elevado.

Refugiados curdos fogem do Norte da Sìria em direcção aos campos da Turquia, em 2014
Foto
Refugiados curdos fogem do Norte da Sìria em direcção aos campos da Turquia, em 2014 Ilyas Akengin/AFP

Se a União Europeia quiser que a Turquia faça mais para conter a chegada de refugiados e migrantes às suas fronteiras, terá de fazer mais do que enviar mil milhões de euros em ajuda humanitária, como ficou decidido na Cimeira de Líderes de quarta-feira. “Não é tão fácil como seria de esperar”, disse em Bruxelas o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, que acabara de regressar de uma viagem à Turquia.

Os líderes europeus querem convencer a Turquia a apertar os seus controlos de fronteira com a União Europeia, agir contra as redes de tráfico humano no país e construir centros de documentação de refugiados. Esperam fazê-lo enviando mais fundos comunitários. Mas, na quarta-feira, segundo escreve o diário britânico Guardian, Ancara propôs colaborar com a União Europeia caso ela e os Estados Unidos apoiem a construção de zonas protegidas e de interdição aérea a Sul da sua fronteira com a Síria.

É uma velha ambição turca. Ancara insiste em dizer que, ao longo de uma cintura de 80 quilómetros de largura e 40 de profundidade, pode instalar novos campos de refugiados, impedir avanços de grupos extremistas como o autoproclamado Estado Islâmico e começar a repatriar alguns dos mais de dois milhões de sírios que hoje alberga em 25 campos. O plano foi recentemente discutido em Julho com os Estados Unidos, alegadamente como requisito para que os aviões norte-americanos pudessem usar as bases aéreas no Sul do país.

Há sérias dúvidas sobre quais são as verdadeiras intenções turcas em construir uma zona-tampão. O território proposto por Ancara é precisamente o troço de terreno que falta às milícias curdas na Síria conquistar para dominarem o Rojava – a cintura de terreno a Sul da Turquia que liga com o Curdistão iraquiano. “Um anel de fogo”, nas palavras do primeiro-ministro turco, Ahmet Davutoglu.

É aqui que surge o dilema ocidental. Para Ancara, as milícias curdas na Síria, as YPG, não passam de uma organização terrorista aliada ao PKK turco (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) – com quem a Turquia reacendeu uma guerra civil que dura há 40 anos. Mas, para o Ocidente, não existe aliado mais valioso no combate ao Estado Islâmico na Síria. Retirar-lhes o território que a Turquia quer para zona-tampão é roubar-lhes um troço importante do seu sonho de autonomia. 

A autonomia curda, mesmo no Norte da Síria, é um projecto que o Presidente e homem forte da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, há muito tenta impedir. A agravante é que a Turquia está outra vez em ambiente eleitoral, e o partido do Presidente procura recuperar a maioria absoluta incitando o sentimento nacionalista anti-curdo. 

Dedo no gatilho

A Turquia é fundamental para limitar o fluxo de refugiados e migrantes para a Europa. Agora mais do que nunca. A guerra na Síria tem sido especialmente mortífera para as grandes cidades do Norte, como Kobani e Alepo, a poucos quilómetros da fronteira turca. Acontece algo de semelhante no Iraque para quem foge do autoproclamado Estado Islâmico através do Curdistão. O resultado, como escreve o Financial Times, é que há agora sete vezes mais de pessoas a entrarem irregularmente na Europa vindas da Turquia.

A chegada de 480 mil refugiados e migrantes desde o início do ano deixou a Europa em convulsão. Donald Tusk pôs o dedo na ferida e, em Bruxelas, disse que os Vinte e Oito se devem preparar para a chegada de milhões de pessoas. Não milhares. Na Turquia, estão à mercê das políticas de Ancara, como explica um refugiado de Alepo ao portal norte-americano da Al-Jazira. “E se houver uma mudança de regime aqui e o apoio à população síria acabar? E depois o quê?”

 A resposta será provavelmente a Europa. E é por isso que os líderes europeus preferem estar nas boas graças da Turquia. Antes de Tusk, foi o ministro alemão dos Negócios Estrangeiros a visitar Ancara, no início do mês, e, de lá, exigir que a União Europeia enviasse mais dinheiro para ajudar com a crise de refugiados no país. As próximas semanas serão decisivas. A chanceler alemã encontra-se nos próximos dias com o primeiro-ministro turco em Nova Iorque, para discutir a crise de refugiados na Europa. No início de Outubro, é Erdogan quem viaja para Bruxelas. Quererão saber se a União Europeia paga o seu preço.