Fraude da Volkswagen alastra-se e Bruxelas pede investigações nacionais

Grupo alemão vai nomear amanhã novo presidente executivo. CEO da Porsche é dado como o nome mais provável.

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A Volkswagen está a braços com a maior crise da sua história Reuters

A fraude detectada nos EUA foi apenas o começo. Já surgiram sinais de que o problema se estende também à Europa e a outras marcas para além da Volkswagen, num caso que está a lançar desconfiança tanto sobre os fabricantes europeus, como sobre as práticas de regulação.

Nesta quinta-feira, a Comissão Europeia apelou a que todos os Estados-membros levem a cabo investigações nacionais e comuniquem os resultados a Bruxelas. “A nossa mensagem é clara: tolerância zero com a fraude e cumprimento rigoroso das regras europeias”, afirmou, em comunicado, a comissária Elzbieta Bienkowska, que tem a pasta do Mercado Interno e Indústria. “Precisamos de toda a informação e de testes robustos de emissão de poluentes”.

Contrariamente ao que acontece nos EUA, que são mais exigentes a este respeito, a União Europeia ainda não faz testes em estrada. Estes vão começar a ser introduzidos no início do próximo ano, mas ainda não se sabe o que acontecerá se os resultados forem muito diferentes dos obtidos em laboratório. “Ainda temos de chegar a um acordo no tratamento a dar à certificação em caso de grande divergência entre os resultados dos testes de emissão de poluentes em laboratório e em condução real”, referiu a Comissão.

Ainda antes do apelo, alguns países já tinham decidido avançar. O Governo francês vai analisar carros de todas as marcas, incluindo da Peugeot e Citröen, ambas do grupo francês PSA. No Reino Unido, o regulador está em conversações com os fabricantes e poderá vir a fazer novos testes de laboratório aos automóveis já analisados.

Em Portugal, o ministro da Economia, António Pires de Lima, adiantou que o Governo está trabalhar com o Instituto de Mobilidade e Transportes "para perceber se há alguma implicação para Portugal". Pires de Lima disse ainda ter falado com responsáveis da Autoeuropa, a fábrica da Volkswagen em Palmela, que asseguraram que os automóveis feitos em Portugal não incluem o sistema fraudulento.

O Governo alemão, entretanto, já afirmou ter descoberto que a Volkswagen também manipulou os testes dos motores a diesel comercializados no mercado europeu. O ministro dos Transportes, Alexander Dobrindt, disse que uma comissão especial formada para investigar o assunto foi informada por executivos da própria Volkswagen, num encontro na sede da empresa, em Wolfsburg, de que alguns modelos na Europa também estavam equipados com software para emitir menos gases poluentes quando estavam a ser testados. Segundo o ministro, a empresa referiu-se aos veículos com motores a diesel de cilindradas 1.6 e 2.0.

A revelação aconteceu no mesmo dia em que a revista alemã Auto Bild divulgou resultados de testes que indicam que um modelo Volkswagen e um outro da BMW ultrapassam os limites legais na União Europeia para a emissão de óxido de azoto – um poluente associado a asma e outras doenças pulmonares e que motivou o processo nos EUA. Os testes foram feitos pelo Conselho Internacional para a Transportação Limpa, o mesmo grupo ambientalista que alertou as autoridades americanas para as irregularidades. Àquela revista, a BMW negou ter nos seus carros qualquer sistema que manipule as emissões quando estes estão a ser testados.

Por outro lado, o jornal El País noticiou que os motores da Volkswagen com o sistema de fraude foram também usados, desde 2009, em mais de meio milhão de veículos da Seat, a marca espanhola que é subsidiária do grupo alemão. A Seat confirmou ter usado aqueles motores, mas não revelou em quantos carros.

O escândalo está desde sexta-feira a fazer crescer uma onda de indignação na Europa, onde os carros a diesel têm muito mais peso do que nos EUA. No ano passado, segundo números da Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis, 53% dos carros novos vendidos tinham motor a diesel. Em Portugal, este tipo de motores representou 71% das vendas.

A Volkswagen está a esforçar-se por conter a maior crise da sua história. A empresa deverá anunciar nesta sexta-feira um novo presidente executivo. O actual CEO da Porsche, Matthias Müller, tem sido nome mais apontado. O grupo também já indicou que afastará mais executivos de topo.

O caso está a afastar os investidores das acções dos fabricantes europeus. A cotação Volkswagen terminou o dia a subir 0,6%, abrandando a tendência positiva já registada na quarta-feira e estando muito longe de recuperar do desastre do início da semana. A BMW caiu 5,2% e a Daimler (que fabrica os Mercedes) desceu 4,4%. A PSA teve uma queda de 1,6%.