Delírios do deserto funk australiano

Uma banda soul/funk a deixar aguados Animal Collective, Erykah Badu e Prince? Sim, existe, chama-se Hiatus Kaiyote e tem em Choose Your Weapon um surpreendente disco de revelação.

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Há que amar uma história de reconhecimento global que começa em Avey Tare (dos Animal Collective) e, em cinco curtos passos, chega a Erykah Badu. E é tão milagrosamente fácil de seguir que os australianos Hiatus Kaiyote conseguem reconstituir toda a cadeia que fez com que de uma banda de nome estranho, e a que logo se torceriam o nariz e o pescoço por precaução, se transformasse numa banda de nome estranho a que logo meio mundo se quer entregar sem resistência antes de ouvir a primeira nota

Caminhemos então por essa cadeia de gente rendida a esta sonoridade soul/funk polvilhada de psicadelismo com trejeitos futuristas: Avey Tare ouviu um qualquer tema dos Kaiyote na rádio, ficou suficientemente impressionado para falar disso a Angel Deradoorian (ex-Dirty Projectors), Angel partilhou a descoberta com o baterista, produtor e homem forte dos The Roots ?uestlove, este passou a palavra a James Poyser (compositor ao serviço de Erykah Badu) e Poyser mostrou o quarteto-maravilha australiano a Badu.

?uestlove não demorou a fazer saber que muito de vez em quando surge uma banda pela qual está disposto a alienar amigos (não esclarecendo se tal se deve a varrer da sua vida quem não partilhe o seu entusiasmo, se será motivo de ofensa mortal para alguns o facto de declarar publicamente a sua admiração por um grupo de desconhecidos e não por gente próxima que lhe implora 15 segundos de abnegada publicidade, se simplesmente tem de cortar no número de amizades por deixar de ter tempo para todos a fim de poder ouvir esta música em paz); Badu anunciou, sem rodeios, estar apaixonada. Meses mais tarde, também Prince partilhou o vídeo de Nakamarra no Twitter, incitando os seus seguidores a clicarem no link até à revelação daquela banda alojada, entre milhões de outras, no mesmo YouTube em que todos aguardam impacientemente a sua sorte. O vídeo, por estes dias, conta com mais de 1,2 milhões de visualizações.

Graças a esse coro ecléctico de admiração, do universo pop em estrepitosa expansão assinado pelos Animal Collective ao soul/funk aberto à contaminação de Badu, percebe-se, com um mínimo de rigor, a paisagem que se encontra nos dois álbuns dos australianos: soul e funk, com certeza, mas sobrevivente a pazadas de psicadelismo, viagens imaginárias a África e uma tal porosidade a diferentes géneros que, no capítulo da excentricidade pop, se diria o primo tardio (e nos antípodas) dos idos Mler Ife Dada. Ouvindo Tawk Tomahawk e o fabuloso segundo álbum Choose Your Weapon, não é fácil acreditar que esta música que complexifica a soul tenha, em grande parte, surgido na ressaca de um desaire amoroso da vocalista Nai Palm e resulte, antes de mais, de um mês a acampar no deserto, num processo solitário de purga afectiva.

Nakamarra from Hiatus Kaiyote on Vimeo.

No regresso, Nai começou de imediato a procurar uma banda que a auxiliasse a engrandecer as canções que bolçara no retiro. “Conheci-a na rua quando ela veio falar comigo à porta de um café”, conta o baterista Perrin Moss ao Ípsilon. E talvez seja esse lado algo acidental da forma como os Hiatus se juntaram que permite a emergência de uma música tão pouco lógica, juntando gente com os ouvidos enfiados em funk da década de 70, na cantora maliana Oumou Sangaré, em jazz, música clássica indiana e beats de toda a proveniência ou na electrónica-noise-punk dos Lightning Bolt – que tudo isto se junte e, sobretudo, que faça sentido, é uma vitória troante contra o bom-senso. Custa verdadeiramente a crer que estes estremeções de ritmo trazendo a reboque sintetizadores esfusiantes, como Shaolin monk motherfunk, Breathing underwater ou Swamp thing, possam ter alguma vez existido como temas para voz e guitarra.

“Acho que temos sorte”, comenta Moss sobre esta união de esforços que a poucos pareceria uma boa formulação teórica. “Acontece simplesmente sermos o grupo certo de pessoas na mesma sala. É muito interessante estarmos a aprender como pensam os nossos companheiros de banda e, aos poucos, apercebermo-nos de como as ideias de todos acabam por estar ligadas.”

Duro, muito duro

Kaiyote é nome de uma agência de viagens especializada em programas de observação de pássaros. Nai Palm é uma confessa apaixonada por ornitologia; ainda assim, a corruptela de coiote e a sua coincidência com o nome da agência é um mero acaso, uma confirmação apenas de que a bizarria dos australianos encontra eco no mundo. Tal eco, graças também ao prestigiado clube de fãs que reuniram logo com o lançamento de Tawk Tomahawk, em 2013, apanhou-os de surpresa e, por outro lado, atirou-os para uma vida para a qual não estavam preparados. Tanto assim que Choose Your Weapon foi composto nos pequenos intervalos escavados a custo entre as constantes solicitações para digressões. “Fomos tocando, continuámos e continuámos”, diz Perrin, lembrando o estado de transe em que a banda se viu metida. "Queríamos lançar um novo álbum mas não conseguíamos, estávamos cansados e cheios de concertos, até que percebemos que isto não pára, está sempre em movimento."

Apesar de afirmar que os quatro já se habituaram a este ritmo, Perrin vai repetindo que “é duro, muito duro” suportar este modo de vida. “Continuamos a fazê-lo, mas andamos exaustos, ficamos com o corpo todo fodido.” E é por isso que parecem soar as campainhas da inevitabilidade quando se pergunta se não estará na hora de se mudarem para a Europa ou os Estados Unidos, lugares a partir dos quais seria menos penoso, oneroso e demorado partir em digressão – cujo roteiro costuma incidir, precisamente, nesses territórios. “Talvez estivéssemos um pouco menos longe de casa se vivêssemos em Londres ou em Nova Iorque porque os concertos seriam mais frequentes e mais concentrados geograficamente, não teríamos de fazer estes rounds muito intensos”, concede Mason.


A situação do grupo, no entanto, pode estar prestes a mudar – se a sua crescente reputação mundo fora equilibrar as contas ao proporcionar um menor número de concertos e mais bem pagos. Mas é também verdade que ouvindo Choose Your Weapon pode intuir-se que todo o cansaço não será de mais se tiver como consequência entre os músicos esta tão aguda ausência de filtros que, como o confirma Moss, uma canção só é dada por terminada quando está já a abarrotar de ideias de todos. Perrin diz que até gostava que a música dos quatro se simplificasse, mas o mais natural seria esse tratamento de limpeza acabar por trair uma música a que chamam, numa auto-ironia que não despreza um mínimo de preciosismo, “multidimensional polyrhythmic gangster shit”.

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