Estudo identifica gás radioactivo e outros poluentes em creches e escolas

Investigação em dois distritos do Norte encontra radão a mais em infantários de Bragança, onde não há vigilância obrigatória sobre esta substância cancerígena. Noutras escolas do país, a poluição do ar foi associada a problemas de asma das crianças.

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Quantidades surpreendentemente excessivas de radão – um gás radioactivo cancerígeno – foram encontradas em infantários e escolas primárias do distrito de Bragança, segundo um novo estudo sobre a poluição do ar em estabelecimentos de ensino em Portugal.

Ao longo de três anos, investigadores da Universidade do Porto realizaram medições detalhadas da qualidade do ar em 58 salas de 25 creches, jardins de infância e escolas primárias da Área Metropolitana do Porto e do distrito e Bragança. Os resultados – que são apresentados esta quarta-feira – mostram um retrato que, em parte, não é novo: o ar estava mais poluído do que é admissível na maioria dos casos.

Havia partículas finas a mais em 84% das salas avaliadas, segundo os limites sugeridos pela Organização Mundial de Saúde, e em 54%, segundo a legislação nacional. Metade das salas tinha também dióxido de carbono a mais.

O resultado mais inesperado, porém, foi a identificação de níveis elevados de radão nos estabelecimentos do distrito de Bragança. O radão é um gás natural, normalmente associado a solos graníticos. É reconhecido como a segunda causa de cancro do pulmão, depois do tabaco. Os efeitos na saúde dependem do nível de exposição.

O radão está presente em várias zonas do país. Segundo a legislação nacional, é obrigatório realizar análises à sua concentração em grandes edifícios comerciais e de serviços nos distritos de Braga, Vila Real, Porto, Guarda, Viseu e Castelo Branco. Mas em Bragança não.

As análises efectuadas nas creches e escolas primárias, no entanto, revelaram “valores preocupantes”, nas palavras de Sofia Sousa, investigadora principal do projecto Inairchild, liderado pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e envolvendo também a Faculdade de Medicina da mesma instituição e o hospital de São João, no Porto.

Os valores chegam a cerca de 800 becquerels por metro cúbico, duas vezes o limite máximo previsto na legislação nacional e quatro vezes o adoptado em alguns países, como Irlanda, Reino Unido, Espanha e Suécia. Das salas avaliadas no distrito de Bragança, 65% tinham radão a mais. “Pode ter a ver com os materiais de construção”, avalia Sofia Sousa.

Poluição e asma
Em parte, o Inairchild confirma o que outro projecto de investigação, o Envirh, liderado pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Lisboa, já tinha constatado: que há poluição a mais nas creches e infantários. Cerca de 95% das 125 salas de 19 estabelecimentos de Lisboa e do Porto avaliados no Envirh tinham uma qualidade do ar inadequada, segundo os resultados apresentados em 2013.  

Agora, os investigadores deram um passo a mais e procuraram, com inquéritos e exames respiratórios, identificar a ocorrência de asma entre as crianças. O resultado sugere um aumento de 50% na probabilidade de desenvolvimento da doença nas creches e escolas com excesso de partículas no ar.

A responsável do projecto diz que os resultados não são alarmantes e que medidas simples, como melhorar a ventilação, podem resolver os problemas. As próprias instituições foram contactadas, com sugestões sobre o que fazer. Por exemplo, numa situação verificou-se que valores pontualmente elevados de compostos orgânicos voláteis tinham a ver com a utilização de produtos de limpeza a meio do dia. “Esta prática foi alterada”, diz Sofia Sousa.

Noutro caso, sugeriu-se que se aspirassem as salas antes da chegada das crianças, para reduzir o risco de ressuspensão das poeiras. Mas não havia dinheiro para um aspirador.

O estudo revelou ainda que há margem para melhorias na legislação sobre a qualidade do ar, a começar pela forma como é calculado o número admissível de crianças em cada estabelecimento. “Encontrámos em quase todos uma ocupação excessiva”, diz Sofia Sousa.

Os valores não violam o que está previsto na lei portuguesa, mas estão além de valores-guia de normas norte-americanas que levam em conta também a questão da qualidade do ar.

Os resultados são apresentados esta quarta-feira, num seminário na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. “O que vamos fazer é tentar que cheguem aos legisladores e a outras pessoas que possam mudar esse panorama”, afirma Sofia Sousa.