Editorial

A fadiga do voto e o desencanto político

Gregos perderam a conta às vezes que foram chamados a votar. Antes com entusiasmo, agora com resignação

Os gregos são chamados a votar neste domingo pela enésima vez (seis vezes em seis anos) e é visível o sentimento de cansaço, de desencanto e de saturação nos eleitores. Duas legislativas em 2012, europeias em 2014, para além das duas legislativas de 2015 e um referendo pelo meio. E se dos resultados das eleições deste domingo resultar um cenário de ingovernabilidade (nas sondagens ninguém descola), é provável que os gregos sejam novamente chamados a votar em 2015. Já é democracia a mais para que mude tão pouca coisa. O que não deixa de ser uma tradição na Grécia, que desde 1974, data em que foi instaurada a democracia depois da ditadura militar, teve poucos governos que conseguiram completar o mandato.

A correspondente do PÚBLICO em Atenas, Maria João Guimarães, passou a semana a falar com os gregos, e o sentimento dominante pode caber dentro desta frase de Natassa, uma arquitecta de profissão que trabalha hoje numa loja de tecidos: “Já votei várias vezes no Syriza, mas desta vez não sei. Estas eleições são ridículas. O que quer que se vote, o resultado é o mesmo.”

O mesmo? Provavelmente sim. Os resultados das sondagens mostram que 65% a 70% dos votos irão para partidos que apoiaram a assinatura do memorando de entendimento com a troika, que vai condenar os gregos a mais três anos de austeridade. A consequência poderá ser um aumento brutal da abstenção. Não é por acaso que o discurso de Alexis Tsipras se tem centrado muito nesta frase: “Nem um voto deve ser perdido, não podemos ser vencidos pela abstenção.” Mas o líder da coligação de esquerda está numa posição ingrata; como dizia o filósofo grego Christos Yannaras ao PÚBLICO, “é preciso ter uma maturidade e informação muito completa para votar em alguém que, há dois anos, dizia uma coisa diferente do que diz hoje”.

Daí a importância e a necessidade de um resultado eleitoral que permita a constituição de um governo estável, mas que não esvazie o papel da oposição, de forma a que o descontentamento não seja canalizado para os partidos menos alinhados como os neonazis da Aurora Dourada, que aparecem como terceiros nas sondagens. Além disso, a crise dos refugiados (para a qual a Europa ainda não encontrou uma resposta comum satisfatória) já entrou na campanha, tema que pode favorecer os extremistas de direita, apologistas de um discurso de medo e de xenofobia.

Os gregos sabem que pouco vai mudar no seu dia a partir de amanhã. As eleições servirão para um novo rearranjo parlamentar, depois de o Syriza ter perdido a maioria após a dissidência de 25 deputados que saíram para formar a União Popular. Resta saber qual é a combinação que dará um governo estável à Grécia. Mas será sempre um voto de resignação, em que o programa eleitoral já foi aprovado de antemão pela troika, restando apenas saber quem o vai executar.