Com o Bloco, as mulheres “vieram para ficar” e as alterações ao aborto são para rasgar

Bloquistas contrariam lógica do voto útil e não reconhecem “legitimidade” à Standard & Poor’s para avaliar o país.

Catarina Martins e Mariana Mortágua não pouparam nas críticas ao Governo
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Catarina Martins e Mariana Mortágua não pouparam nas críticas ao Governo Enric Vives-Rubio (arquivo)

A primeira iniciativa que o Bloco de Esquerda se compromete a realizar, depois das eleições legislativas de 4 de Outubro, é rasgar “a indecorosa lei aprovada à pressa pela direita” e que introduziu alterações à regulamentação da interrupção voluntária da gravidez. A garantia foi dada pela porta-voz do Bloco, Catarina Martins, num comício nesta sexta-feira à noite em Lisboa.

A cabeça de lista pelo Porto referia-se às alterações aprovadas em final de legislatura pela maioria e que introduziram taxas moderadoras e acompanhamento psicológico obrigatório para as mulheres que decidem interromper a gravidez.

O mote veio das declarações da coligação Portugal à Frente. Em Vagos, no último fim-de-semana, Paulo Portas disse que “as mulheres sabem que têm de organizar a casa e pagar as contas a dias certos, pensar nos mais velhos e cuidar dos mais novos”. O suposto elogio não caiu bem junto de muita gente e no Bloco, liderado por uma mulher, também não.

Catarina Martins não só criticou “esta visão antiga e serôdia do papel das mulheres na sociedade” como garantiu que neste partido as mulheres vieram “para ficar”.

Interferir na democracia
Incontornável no comício foi a reacção ao facto de a agência de notação financeira internacional Standard & Poor’s ter anunciado a subida do rating português e defendido a continuidade das políticas seguidas, independentemente do resultado destas eleições.

Mariana Mortágua, a cabeça de lista por Lisboa, não podia ser mais clara: “Queremos aqui dizer à agência de rating que não vos reconhecemos legitimidade para avaliar o nosso país.” Além disso, este anúncio representa uma “interferência” nas escolhas que estão em causa, nas eleições e na democracia.

Mariana Mortágua recorreu ainda à ironia para questionar que “prémio é este que a agência de rating vem dar ao Governo” e às políticas dos últimos anos. E lançou várias interrogações: será que é o processo relativo ao Novo Banco que quer premiar? A dívida? A venda da TAP?

“Perguntem a cada pensionista deste país se se sentiu estável”, prosseguiu. E elencou ainda as pessoas que emigraram, que perderam o emprego, os que trabalham nas artes e espectáculos e ficaram sem Ministério da Cultura.

“Qual é a estabilidade que a Standard & Poor’s vem defender?” Só se for, lamentou com redobrada ironia, “a estabilidade do negócio que só o Bloco Central” garante. Por isso, quando perguntam aos bloquistas quem são os seus adversários, “são os donos disto tudo”, os que “tomaram conta do Governo” e defendem interesses privados. “É deles a culpa e são eles que agora se apresentam a eleições”, afirmou a economista na cantina velha da Universidade de Lisboa.

O “novo Passos Coelho”
Num comício com 350 inscritos, Catarina Martins procurou também desconstruir o discurso do líder da coligação de direita, Passos Coelho, defendendo que anda a “tentar reescrever a história” — a sua e a do país. “O novo Passos Coelho”, ironizou, “nunca apelou à emigração”, “nunca defendeu as virtudes da austeridade”, “nunca cortou nos rendimentos dos mais pobres”. O “novo Passos Coelho” anda agora “preocupado com as desigualdades sociais”.

A porta-voz do Bloco abordou ainda a questão que tem preocupado os partidos à esquerda do PS: a pressão do voto útil. Apelou ao voto no Bloco, em vez de se entrar no jogo do “descubra as diferenças, mesmo que no fim vá tudo parar a mais austeridade”, numa referência à coligação de direita e aos socialistas.

Também o líder parlamentar do Bloco e número dois por Lisboa, Pedro Filipe Soares, contrariou esta pressão. Criticou que as atenções estejam centradas em quem ganhou ou perdeu os debates, em quem fez o melhor gesto para a câmara. Quem perde com esta corrida é a democracia, disse. Até porque, “espremendo bem” os debates, o que se percebe é que a diferença entre a coligação de direita e os socialistas é entre cortar e “cortar mais”.

Lamentou a tentativa de se “transformar a política num jogo de futebol”, ainda por cima fazendo crer que “há um empate” e que, por isso, é necessário “escolher um deles para desempatar”. Para Pedro Filipe Soares, a alternativa é o Bloco que elegerá, garantiu, “deputados que nunca se vergam perante os interesses instalados”.

Sem “aventureirismo”
A Segurança Social, que muita tinta tem feito correr, não ficou ao lado do discurso de Catarina Martins, que voltou a reafirmar a oposição ao plafonamento e a acusar a coligação Portugal à Frente de não esclarecer devidamente a proposta. Para a porta-voz, o plafonamento — que prevê que a partir de determinado montante os trabalhadores possam descontar para fundos privados — mais não é do que privatizar a Segurança Social. Um “aventureirismo” no qual se recusam alinhar.

O Bloco prefere outras propostas “radicais”. Exemplos? “Um contrato por cada posto de trabalho”, renegociação de dívida, acabar com a sobretaxa do IRS, voltar aos anteriores escalões do IRS, aumentar o salário mínimo nacional. “Quem perdeu tudo com a crise não pode ser abandonado pelo Estado”, disse.

Numa sala onde se agitaram várias vezes bandeiras, a primeira pessoa a usar da palavra foi o número cinco por Lisboa, Jorge Falcato, portador de deficiência que se desloca numa cadeira de rodas. Arrancou muitos aplausos da sala quando disse: “Direitos humanos não são regalias, não se cortam nem se discutem, cumprem-se.”