Cientistas conseguem matar a maioria das células resistentes do cancro da mama

Estudo com investigador português desvenda mecanismo de células do cancro da mama resistentes à terapia anti-hormonal.

Fotogaleria
Instalação na Grécia para sensibilizar o público sobre o cancro da mama Alexandros Avramidis/Reuters
Fotogaleria
Bruno Simões defende que a detecção precoce do cancro é a forma mais eficaz de o combater DR

A diversidade é uma característica da vida que tem implicações na luta contra o cancro: o caso de uma pessoa que teve cancro, foi tratada com terapia anti-hormonal e, passados anos, teve de lidar de novo com a doença pode representar um aspecto dessa diversidade. Este ressurgimento pode estar ligado às diferentes células que existem inicialmente no tumor: algumas são resistentes às terapias tradicionais, e voltam a proliferar. Um novo estudo sobre o cancro da mama identifica um mecanismo importante para a sobrevivência dessas células. Quando os cientistas bloquearam esse mecanismo, conseguiram reduzir, em muito, o número de células malignas remanescentes.

O trabalho, com participação de um cientista português, foi publicado nesta quinta-feira na revista Cell Reports e tem implicações para o combate desta doença.

O estrogénio é uma hormona importante para o cancro da mama. Três em cada quatro mulheres com esta doença têm, no tumor, células que produzem um receptor para aquela hormona. “As células que expressam este receptor, na presença de estrogénios proliferam mais”, explica ao PÚBLICO Bruno Simões, um dos autores principais do artigo, a trabalhar desde 2011 na Universidade de Manchester, no Reino Unido.

Por isso, não é de estranhar que o tratamento do cancro da mama passe, além da cirurgia e da radioterapia, por uma terapia antiestrogénios, que tem tido resultados positivos. Os tumores tendem a desaparecer. Mas numa em cada três mulheres, o cancro volta. “Há doentes que passados dez a 20 anos apresentam um segundo tumor [que é] resistente” à terapia anti-hormonal, explica o biólogo.

A equipa de Bruno Simões, liderada por Robert Clarke, foi olhar para a causa desta sobrevivência celular. “O tumor não é uma população homogénea de células. É heterogéneo”, diz Bruno Simões. Há um grupo de células designadas por “células estaminais do cancro”. Estas células ganharam este nome porque têm características bioquímicas semelhantes às das células estaminais, conhecidas por dar origem a diferentes tipos de células no desenvolvimento embrionário, e por proliferarem quando é necessário.

“As células estaminais do cancro não proliferam muito, mas em condições especiais conseguem proliferar dando ‘gasolina’ para que o tumor cresça”, explica o biólogo, acrescentando que estas células não apresentam o receptor ao estrogénio e, por isso, os fármacos antiestrogénio não vão ter efeito nelas.

Usando linhagens celulares, amostras de doentes e ratinhos imunodeprimidos que receberam pedaços de tumor de cancro da mama humano, os cientistas foram, passo a passo, perceber o que se passa com estas células estaminais do cancro. Primeiro, aplicaram em todas as células cancerosas fármacos antiestrogénio, como o tamoxifeno, usados na terapia contra o cancro da mama, e verificaram uma diminuição das células cancerosas. No entanto, houve um aumento da proporção das células estaminais do cancro, ou seja, estas células sobreviveram enquanto as outras morreram.

Os investigadores aperceberam-se de que nas células estaminais do cancro havia uma via de sinalização celular muito activa, ligada à um receptor chamado notch — uma proteína que atravessa a membrana das células, recebe estímulos externos e desencadeia uma série de actividades dentro da célula. E quando a equipa bloqueou a actividade desse receptor, essas células morreram. “Conseguimos reduzir a percentagem de células estaminais do cancro”, relata o cientista.

A descoberta tem implicações para o tratamento do cancro da mama. “Temos um grupo de doentes que quando apresentam uma elevada expressão desta via de sinalização, não vão responder tão bem à terapia antiestrogénios”, declara Bruno Simões. “Estas doentes beneficiariam de uma terapia antiestrogénios, em combinação com um fármaco contra esta via de sinalização.”

Ainda assim, o mistério da resistência do cancro da mama não está resolvido. “Conseguimos uma melhoria, mas ainda há células que são capazes de formar tumores”, diz o cientista. A equipa está agora a tentar identificar as características específicas desta população para poder encontrar uma outra forma de as matar. Só assim é que se poderá evitar que os cancros da mama voltem a surgir.

Aliás, esta é outra pergunta para a qual Bruno Simões não tem resposta: depois de anos em que a célula cancerosa parece ter estado adormecida, “o que faz esta célula voltar a proliferar?”. O cientista faz notar que quando o cancro se dispersa pelo corpo, em metástases, é potencialmente intratável. E, por isso, bate numa tecla fundamental: “A detecção precoce do cancro da mama ainda é a forma mais eficaz de combater esta doença. Que não se tenha medo de ir fazer a detecção nem da palavra ‘cancro’. Se houver alguma dúvida [de saúde], deve-se dirigir ao médico o mais rápido possível.”