Ataques contra Trump reabrem corrida no Partido Republicano

Os candidatos à presidência dos EUA pelo Partido Republicano debateram esta noite pela segunda vez. Jeb Bush tentou dobrar o magnata favorito nas sondagens, mas o resultado teve altos e baixos.

Os preparativos para o debate na CNN
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Os preparativos para o debate na CNN REUTERS/Lucy Nicholson
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Os candidatos Donald Trump e Jeb Bush REUTERS/Lucy Nicholson

Quem quiser encontrar momentos que definem a polémica personalidade de Donald Trump tem muito por onde escolher, mas o segundo debate entre os candidatos do Partido Republicano à presidência dos EUA, que entrou pela madrugada desta quinta-feira adentro, começou com uma troca de palavras que terá sempre lugar numa daquelas listas com "dez ou mais coisas que você não pode mesmo perder".

Num ataque vindo do nada, Donald Trump olhou para Rand Paul, senador do Kentucky, e disse-lhe que ele nem deveria estar naquele debate, por causa da sua fraca prestação nas sondagens; quando Paul questionou se Trump já tinha saído da escola secundária, por passar a vida a fazer piadas com o aspecto físico de outros candidatos, a resposta do magnata deixou a audiência sem saber se havia de rir ou corar de vergonha alheia: “Nunca fiz comentários sobre o aspecto físico dele, e acreditem que há ali muito para comentar.”

Apesar desta primeira rasteira a Rand Paul, Donald Trump cedo percebeu que desta vez os seus colegas não iriam deixá-lo ser rei e senhor do recreio, ao contrário do que aconteceu no primeiro debate, em Agosto. Na noite de quarta para quinta-feira, na Biblioteca Presidencial Ronald Reagan, na Califórnia, e com o Air Force One do antigo Presidente norte-americano como pano de fundo, vários candidatos tentaram acertar alguns golpes no ego do magnata, mas foi Carly Fiorina quem se destacou.

Tal como aconteceu em Agosto, no debate transmitido pela Fox News, também nesta noite, nas câmaras da CNN, os candidatos foram divididos em dois grupos: um primeiro com os quatro mais atrasados nas sondagens, que durou cerca de 80 minutos, seguido do espectáculo principal, com 11 candidatos a responder a perguntas e a resumir argumentos durante três penosas horas. De tal maneira que no final, quando questionado por um jornalista sobre se tinha retirado alguma lição do debate, Donald Trump disse que tinha percebido que conseguia ficar três horas seguidas sem se sentar.

Todos os candidatos tiveram de falar sobre os mais variados assuntos – do acordo sobre o programa nuclear iraniano à ameaça do autoproclamado Estado Islâmico, do emprego ao casamento gay, da imigração à legalização do consumo de marijuana.

E foi durante este último tema que saiu um dos momentos mais divertidos da noite, quando Jeb Bush se viu levado por Rand Paul a confessar publicamente que já tinha fumado. “Admito que fumei marijuana há 40 anos. Tenho a certeza de que outras pessoas também fumaram, mas se calhar não querem admitir perante 25 milhões de pessoas. A minha mãe não está contente por eu ter acabado de o admitir”, disse Bush, provocando uma sonora gargalhada entre as cerca de 500 pessoas presentes na Biblioteca Presidencial Ronald Reagan. Apesar da reacção da audiência, Bush não disse nada que não tenha confessado num artigo publicado em Janeiro pelo jornal Boston Globe e, poucos minutos depois de ter terminado a frase no debate, a sua equipa de redes sociais já estava a disparar, nos bastidores, uma divertida mensagem no Twitter: “Desculpa, mãezinha.”

Antes do início do debate, mais do que as ideias de cada um dos candidatos, as análises centravam-se no que seria de esperar da prestação de Donald Trump. Estaria o homem que lidera as sondagens no Partido Republicano preparado para se acalmar um pouco – nem que fosse por três horas – e deixar para trás a imagem de rufia que tem contribuído de forma decisiva para essa liderança? Estaria o mundo preparado para conhecer um Donald Trump mais comedido, a começar a piscar o olho a uma camada do eleitorado mais tradicional? A resposta foi rápida: não.

A diferença foi que Jeb Bush precisava desesperadamente de fazer mais do que no primeiro debate, para tentar recuperar da queda livre nas sondagens, o que lhe deixou nas mãos uma tarefa quase impossível: tentar ganhar a Trump no jogo que ele próprio inventou, o do candidato presidencial que se comporta como se estivesse num reality show.

Foram várias as picardias entre os dois, mas será uma surpresa se as percentagens de Bush começarem a subir devido à sua prestação neste debate.

Uma mulher em ascensão
Quem continua na sua trajectória ascendente é Carly Fiorina, a única mulher entre os candidatos do Partido Republicano à presidência dos EUA. Depois de ter sido relegada para o debate menos importante em Agosto, a antiga presidente executiva da Hewlett-Packard conseguiu um lugar entre os mais fortes e não deixou escapar a oportunidade.

Além de Marco Rubio, senador da Florida, Carly Fiorina foi das poucas vozes com propostas concretas e pormenores na ponta da língua – avançou números detalhados para o reforço da máquina militar dos EUA, por exemplo, mas foi a sua postura dura e fria em relação a Donald Trup que arrancou mais palmas e menções nas redes sociais.

Trump foi confrontado pelo moderador do debate com uma declaração citada num artigo publicado na semana passada na revista Rolling Stone, sobre Carly Fiorina: "Olhem bem para aquela cara! Acham que alguém votaria naquilo? Conseguem imaginar que aquela é a cara do nosso próximo Presidente? Quer dizer, ela é mulher, e não é suposto eu falar mal, mas a sério, pessoal. Estão mesmo a falar a sério?”

O milionário não conseguiu esconder o embaraço, e surgiu pela primeira vez completamente desprotegido aos olhos de milhões de telespectadores. “Acho que as mulheres de todo o país perceberam muito bem o que o sr. Trump disse”, respondeu Fiorina, recebendo uma sonora salva de palmas.

Sem encontrar as palavras que queria, Trump fez um comentário que não foi bem recebido pela audiência – por uma vez, Trump não conseguiu improvisar uma saída à Trump, e ficou-se por uma frase que parecia sincera na forma, mas em que poucos acreditaram: “Acho que ela é linda, é uma mulher linda.”

Durante uma troca de acusações entre Donald Trump e Carly Fiorina sobre as competências profissionais de cada um, foi o governador de Nova Jérsia, Chris Christie, quem aproveitou para brilhar: “Os eleitores querem lá saber das vossas carreiras. Eles estão interessados é nas carreiras deles. Vamos começar a falar sobre os assuntos e deixemo-nos deste vaivém infantil entre vocês os dois.”

Mais do que acrescentarem ideias às posições que já são conhecidas, muitos candidatos aproveitaram para testar as águas em que Donald Trump tem navegado com sucesso – se evitar a confrontação não resultou no primeiro debate, então só restava mudar de táctica.

O governador do Wisconsin, Scott Walker, também entrou na carruagem de Carly Fiorina, Jeb Bush e Rand Paul, quando disse que a Casa Branca não precisava de um “aprendiz”, numa referência ao programa televisivo que Donald Trump apresentou durante anos, “The Apprendice”.

Mais apagado esteve Ben Carson, o neurocirurgião reformado que tem vindo a aproximar-se de Trump nas sondagens. Sempre calmo, explicou a Donald Trump que não há estudos que provem uma ligação entre as vacinas e o autismo, e tentou explanar as suas ideias de forma ponderada, mas sem a energia típica do magnata que lidera as sondagens – aquela que alimenta as sondagens.

Ao todo, nos dois debates, os telespectadores passaram mais de quatro horas a ver muitos dos gestos e todas as ideias que já conheciam. A não ser que as sondagens dos próximos dias venham a surpreender até quem já não sabe o que pensar das sondagens, Donald Trump deverá manter a liderança – sem ter sido sequer igual a ele próprio, pode reclamar uma certa vitória apenas por não ter perdido de forma evidente. Resta saber que peso terá a sua maior derrapagem, que surgiu já perto do final do debate, quando criticou a fase final do segundo mandato de George W. Bush, acusando-o de ter entregue a Casa Branca a Barack Obama – Jeb Bush saltou em defesa do irmão, dizendo que o país ficou seguro após os atentados de 11 de Setembro de 2001, e a maioria dos restantes candidatos também saiu em defesa de George W. Bush. Afinal, Donald Trump tinha acabado de violar o 11.º Mandamento de Ronald Reagan, uma frase usada em 1966 durante a campanha para governador da Califórnia: “Nunca dirás mal de outro Republicano.”