Só sobrou a feira para comermos coisas sérias

O Pantagruel imaginado pelo Teatro Experimental do Porto e pelo Teatro Oficina é um delírio à volta da mesa. Espectáculo-banquete para pensarmos sobre poder e violência, desde quinta-feira no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães.

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Há comida, bebida e um cicerone bem-humorado. Há fardas, botas e olhos a espreitarem junto à nuca. Não se escapa a esta tensão permanente entre o universo pantagruélico e a distopia militarista em que o Teatro Experimental do Porto (TEP) e o Teatro Oficina nos colocam a ouvir as façanhas do gigante Pantagruel. O espectáculo-banquete que as duas companhias têm em cena este fim-de-semana no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, está repleto de paradoxos como este. A sua excentricidade não disfarça o desconforto perante o regime em que vive.

O ponto de partida é um romance do século XVI (François Rabelais e a sua mordaz crítica da sociedade medieval), mas a realidade é esta, a de 2015. A montagem sublinha, no entanto, a intemporalidade dos temas do texto original, ao ser projectada num futuro não muito distante: 2050, debaixo de uma ditadura. A metáfora dos dias de hoje é “clara”, assume o diretor do TEP, Gonçalo Amorim, que encena o espectáculo. “Hoje vivemos numa ditadura velada, mascarada de democracia. Vimos, com o que aconteceu à Grécia e também nas respostas que estão a ser dadas à crise dos refugiados, que isto estala rapidamente e, quando arreganha os dentes, o poder é violento, capaz de humilhar."

Neste futuro à distância de 35 anos, já não há velatura alguma. A sociedade está militarizada, a vigilância aumentou. Só sobrou a feira e a possibilidade de continuarmos a comer todos juntos. O regime permite que se realizem alguns espectáculos: eventos gastronómicos, provas de vinhos ou parques de diversões. “Sobrou aquilo com que quase nenhum regime consegue acabar, os ritos ancestrais”, diz Amorim.

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É essa a proposta primeira deste Pantagruel: um ritual. Desde o momento da entrada do público no teatro até à forma como nos sentaremos à mesa (o espectáculo tem, por isso, lotação limitada a 50 pessoas em cada apresentação). Ali vamos poder beber vinho e comer as iguarias servidas sobre a língua do gigante, enquanto uma trupe constituída por gente “que não tem onde cair morta” se dispõe a contar a história de Pantagruel.

Carnavalizar
Estreado esta quinta-feira, Pantagruel mantém-se em cena até domingo (sempre às 22h), no palco do Grande Auditório do Centro Cultural Vila Flor. É a primeira reunião entre o TEP e o Teatro Oficina, duas companhias que já têm feito outras co-produções em anos recentes, mas nunca uma com a outra.

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Nesta montagem, os feitos do gigante de Rabelais não são representados, antes contados. Como num jantar entre velhos parceiros ou numa reunião de amigos que recordam feitos passados, o ambiente vai perdendo a solenidade com o passar do tempo, transformando-se, cada vez mais, no freak show que a ditadura ainda permite – vamos percebê-lo pela música e pela voz colocada no microfone à maneira das feiras populares.

Numa atmosfera cada vez mais intensa, com um cicerone cada vez mais embriagado, este Pantagruel há-de parecer-se cada vez mais com um delírio. Este é um espectáculo excêntrico, excessivo, por vezes escatológico. Parece claro, todavia, que o seu intuito nunca é o de nos alienar do contexto em que acontece. As três ajudantes (Catarina Gomes, Diana de Sousa, Raquel de Lima) em traje militar e o Pantagruel em movimento panóptico estão lá para lembrar-nos disso. 

“Não devemos ter uma abordagem fetichista dos problemas que nos são apresentados”, explica Gonçalo Amorim. Os problemas actuais são “complexos” e exigem esforço teórico para que se tornem compreensíveis. Nos últimos dois anos, o trabalho do TEP tem vindo a afastar-se cada vez mais do diálogo directo com o real, que era mais evidente, por exemplo em Nós somos os Rolling Stones (2014), e a procurar cada vez mais a excentricidade. O ano já tinha arrancado sob o signo da carnavalização (Casa Vaga, estreado em Março, e Caridade, em Junho) e, antes do final do ano, ainda haverá O Animador, de John Osborne – com estreia no Porto, em Novembro, e carreira no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, no mês seguinte.

É o mundo que “está a pedir” que isso aconteça, defende Rui Pina Coelho, que assina a dramaturgia de Pantagruel. “As formas de intervenção crítica foram engolidas pelo próprio sistema que é suposto criticarem e tornaram-se irrelevantes”. Por isso, a extravagância “torna-se mais ágil” para agir sobre o mundo.

A história que Pina Coelho adapta para este espetáculo é a do segundo livro de Pantagruel (Os horríveis e apavorantes feitos e proezas do mui renomado Pantagruel, rei dos Dípsodos, filho do grande gigante Gargântua), classificada habitualmente como a Ilíada da série escrita por Rabelais, uma vez que é nesta obra que são relatadas as batalhas do gigante: o resgate da cidade da Utopia, que pertencia aos Amaurotas, de quem descendia a mãe do gigante, e a conquista da Dipsódia.

A obra foi considerada herética pela Igreja Católica e censurada pela Sorbonne. Nela, Rabelais “bate em tudo e em todos”, assegura Marcos Barbosa, director-artístico do Teatro Oficina, que aprece neste espetáculo em palco, no papel do pré-Pantagruel, uma espécie de contra-tempo do protagonista (interpretado por um cáustico Ivo Alexandre). O autor, que foi monge e depois professor em universidades, sente-se à vontade para atacar a Academia e a Igreja. Mas fá-lo “com conhecimento de causa”, sublinha Barbosa: “É uma lição para os revolucionários do nosso tempo."