Encenar a estranheza

A encenadora Ana Luena e os actores João Lagarto e Sérgio Praia mergulharam no insólito mundo de Kafka e vieram à tona com um espectáculo que procura manter intacta essa mistura de lúcido realismo e inquietante estranheza. É Impossível Viver chegou na quinta-feira ao Rivoli, no Porto.

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Sérgio Praia e João Lagarto começaram por fazer um trabalho físico, de relação entre os corpos; o texto veio depois José Caldeira
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Os actores João Lagarto e Sérgio Praia andavam com “vontade de trabalhar textos de Kafka”. Juntou-se-lhes depois a encenadora Ana Luena, que já por mais de uma vez se cruzara com o autor checo e que, encerrado o capítulo do Teatro Bruto, estava e está “disponível para projectos destes, que surjam de encontros e de partilha de vontades”. Assim nasceu É Impossível Viver, que se estreou na quinta-feira no Teatro Municipal Rivoli, Porto (fica até domingo), e que se baseia em Descrição de uma Luta (Beschreibung eines Kampfes), um conto que Kafka deixou inédito e do qual se encontraram diversas versões no seu espólio.

Além deste texto razoavelmente longo, traduzido pelo dramaturgo José Maria Vieira Mendes, o espectáculo recorre ainda a um conto mais breve, Ser-se Infeliz (Unglücklichsein), que mantém estreitas relações com o anterior, a ponto de uma das suas frases aparecer tal e qual numa das versões de Descrição de uma Luta: “Durante algum tempo deixei a boca aberta, para que a agitação me saísse pela boca."

O carácter fragmentário de Descrição de uma Luta, a sua narrativa não-linear, que inclui conversas do narrador com um devoto e com um bêbado, e o próprio facto de se tratar de um texto aberto, sem uma versão que possa considerar-se canónica, contribuíram para que a encenadora e os actores vissem nele um veículo exemplar para expressar a típica estranheza kafkiana, uma estranheza que pode desencadear-se no contexto das mais rotineiras circunstâncias quotidianas, e que por isso mesmo resulta tão  inquietante e ameaçadora.

Mas como se leva ao palco, sem a trair, essa estranheza de Kafka, os seus narradores sem identidade estável, o seu minucioso realismo sobre premissas aparentemente absurdas, os seus diálogos alheios à lógica convencional da comunicação, nos quais as palavras não puxam palavras, mas há apenas duas falas que confusamente se vão aproximando e desviando uma da outra? Foi esse o desafio que se impuseram Ana Luena e os actores João Lagarto e Sérgio Praia, auxiliados pela fotografia de Virgílio Ferreira, pelo desenho de luz de Rui Monteiro e pela música expressamente criada por Peixe (ex-Ornatos Violeta), colaborador de longa data de Ana Luena.

Não se trata apenas de debitar a ficha técnica. A fotografia de Vergílio Ferreira, por exemplo, influenciou a própria concepção do espectáculo. “O trabalho dele acabou por ser um mote para a encenação”, diz João Lagarto. “Fizemos uma sessão de fotografias e estivemos aí uma tarde inteira, sem palavras nenhumas, porque ainda nem sabíamos o texto: foi uma coisa muito física”, conta o actor, reconhecendo que o registo fotográfico dessa experiência influenciou depois as opções de interpretação e encenação.

“Quando veio o texto por cima da parte física, as palavras ganharam importância”, explica, mas a interpretação manteve essa dimensão muito corporal. E se Ana Luena sublinha que a luta a que alude o título do texto de Kafka pode também ser “o combate entre aquilo que é pensado e o que é dito”, essa ideia é acentuada pelo modo como a interpretação corporal dos actores se relaciona com as falas das personagens. “Tentámos que a parte física nunca fosse ilustrativa do que se diz”, confirma João Lagarto. “Há uma relação dos dois corpos que é paralela à história que o texto conta, e ambas podem até ser contraditórias”.

Fantasmas
É Impossível Viver abre com uma cena adaptada do conto Ser-se Infeliz. Dois homens levantam-se de um sofá e dirigem-se para o meio do palco, onde se vêem várias caixas de madeira compridas e baixas: algumas têm maçanetas, como se fossem portas deitadas no chão, outras poderiam ser caixões. Kafka tem uma reconhecida obsessão por portas, e também nesta peça se fala bastante delas, mas Ana Luena prefere não restringir demasiado as leituras do cenário que concebeu para É Impossível Viver: “Também posso ver aqui um passadiço ou uma linha de comboio."

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Percebemos pelo diálogo que a cena inicial se passa num quarto, entre um homem já um tanto alquebrado (João Lagarto) e um jovem (Sérgio Praia), que talvez seja ainda uma criança. O mais novo começa por parecer uma presença benévola e protectora, acompanhando o mais velho, sustentando-o e ajudando-o a andar, embora a linguagem corporal de Sérgio Praia – uma certa rigidez de gestos, uns sorrisos sem aparente razão de ser – instale desde logo a suspeita de que nem tudo é o que parece. O modo como estes dois actores de diferentes gerações conseguem criar apenas com os corpos uma atmosfera estranha, instável, vagamente sombria, de uma hostilidade subtil – um cocktail de sensações que o alemão resume no adjectivo unheimlich – é certamente um dos grandes méritos deste espectáculo.

Como é frequente em Kafka, a tensão surge de imediato e sem que se saiba ao certo o que a causou. Depressa se percebe que a relação entre o velho e o jovem se funda em equívocos, acusações mútuas, ressentimentos. O jovem, de resto, não será bem um jovem, mas antes um fantasma. Que não se comporta, todavia, como seria de esperar de uma assombração. A dado passo, ambos discutem o tópico das aparições, e o mais velho, já exasperado, diz ao possível fantasma: “Vê-se mesmo que nunca falou com um fantasma! Nunca se lhes consegue arrancar uma informação clara, esses fantasmas parecem ter mais dúvidas sobre a sua existência do que nós."

“Interessou-nos muito essa questão da dificuldade de comunicação, da dificuldade de conhecermos realmente alguém, de nos relacionarmos com o outro”, diz Sérgio Praia. João Lagarto acrescenta: “Mas trabalhámos sempre a partir da ideia de duplo, de fantasma, de sombra, e quando se refere a comunicação com o outro é também da busca de si próprio que se está a falar."

Nessa lógica, arriscámos perguntar, o fantasma da cena de abertura poderia ser o próprio velho na sua juventude?. “Pensar isso, ou fazer outra leitura”, responde Sérgio Praia, “é o trabalho do público”. Ao trabalho, portanto. Se não apanhar a peça no Rivoli, onde está até domingo, há já espectáculos marcados no Centro de Arte de Ovar (26 de Setembro), no São Luiz,  em Lisboa (19 a 29 de Novembro), e no Cine-Teatro Avenida, em Castelo Branco (9 de Janeiro).