Imerso em polémicas, Corbyn sobrevive ao primeiro teste no Parlamento britânico

Novo líder trabalhista confrontou primeiro-ministro com perguntas feitas por apoiantes, num tom de moderação que foi bem acolhido. Decisão de não cantar hino numa cerimónia gerou novo incómodo

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Corbyn afirmou que os debates no Parlamento se tornaram demasiado teatrais Parliament TV/Reuters

Jeremy Corbyn, o inesperado novo líder do Partido Trabalhista, passou nesta quarta-feira o seu primeiro teste parlamentar, sem brilhantismo mas impondo um tom de serenidade que foi bem-recebido, sobretudo depois quatro dias em que atraiu todas as tempestades políticas possíveis, a última das quais desencadeada pela decisão de não cantar o hino nacional durante uma cerimónia de homenagem aos combatentes da II Guerra Mundial. Na estreia como líder da oposição, criticou a teatralidade que impera em Westminster e optou por confrontar o primeiro-ministro com perguntas que lhe foram enviadas por eleitores.

Corbyn sentou-se no banco da frente sabendo que os comentadores não iriam sequer esperar pelo final para julgar a sua prestação no debate semanal, momento alto da agenda política semanal do Reino Unido onde, mais do que esclarecimentos, ambos os lados usam os breves minutos que lhes são concedidos para encurralar o adversário e usar frases que encaixem nos noticiários da noite.

Eleito no sábado, Corbyn é o primeiro líder da oposição a vir directamente das filas de trás do Parlamento, onde passou 32 anos, entrincheirado na ala mais à esquerda do Labour. Pela frente tinha um primeiro-ministro que já enfrentou outros quatro dirigentes trabalhistas e conseguiu nas últimas eleições uma maioria que nenhuma sondagem lhe prometia.

Corbyn está também consciente de que tem um apoio minoritário entre os deputados trabalhistas, entre os quais há muitos que aguardam apenas por um deslize para mostrarem a sua dissidência. E pior, os últimos dias provaram que mesmo os que aceitaram integrar a sua equipa não estão em sintonia – depois das contradições sobre qual a posição que o Labour adoptará no referendo sobre a União Europeia, dois membros do “governo-sombra” desmentiram o líder afirmando que o partido não vai bater-se num futuro próximo pela eliminação do tecto máximo nas prestações sociais.

No final dos 30 minutos, porém, os veredictos mostravam que o veterano socialista tinha sobrevivido, até com mais à vontade do que muitos esperavam (ou temiam). Não por ter enredado Cameron, mas pelo contraste com os modos que se tornaram habituais em Westminster.

“Muitas pessoas me disseram que o debate com o primeiro-ministro é demasiado teatral e que o Parlamento se distanciou das pessoas” afirmou Corbyn no arranque da sua intervenção, ao anunciar que pretendia “fazer as coisas de uma forma ligeiramente diferente”. Na mão tinha um ligeira farpa para Cameron, ao recordar que também ele, quando se estreou como líder da oposição em 2005, defendeu que a troca de ideias deveria sobrepor-se à hostilidade. “Alguma coisa deve ter acontecido à sua memória neste período”, ironizou.

Falou sempre de forma pausada, sem levantar a voz, seguindo o guião que tinha à sua frente. Mas não foi apenas diferente no tom: as seis questões que tinha para Cameron foram escolhidas entre “os 40 mil ” e-mails que o Labour recebeu depois de ter desafiado os seus apoiantes a enviarem perguntas ao primeiro-ministro. "Marie" quis saber o que o Governo vai fazer para responder à escassez de habitação a preços controlados, "Paul" questionou a redução nos apoios sociais às famílias e a pergunta de "Gayle" visou a forma como os cortes orçamentais estão a afectar os cuidados psiquiátricos.

O truque permitiu a Corbyn transformar-se na "voz de todos aqueles que estão a sofrer no país” escreveu Tom Wats, colunista do jornal Guardian, para quem o novo líder trabalhista conseguiu passar a imagem de “um outsider sóbrio e ponderado no show de variedades que é Westminster”.

O líder conservador estendeu à mão à oferta de maior civilidade no debate e só no final atacou directamente as ideias da nova liderança trabalhista, quando, em resposta a um deputado da Irlanda do Norte, criticou os aliados de Corbyn que no passado fizeram a apologia do IRA e afirmou que prescindir dos mísseis nucleares ou sair da NATO seria trair a segurança nacional. Vários comentadores sublinham mesmo que o formato escolhido beneficiou o primeiro-ministro. “De certa forma foi refrescante, o problema é que estas são questões a que Cameron já respondeu há muito”, escreveu no Twitter o editor de política da ITV, Tom Brady. Theo Bertram, um antigo estratega trabalhista, lamentou também que Corbyn tenha abdicado de contra-argumentar, fazendo pontaria às contradições de Cameron.

Corbyn arrisca também a que, por muito elogiada que tenha sido, a sua prestação seja abafada pela polémica do hino que não cantou. Tablóides e comentadores de direita denunciaram a “traição” o “desrespeito pela rainha”, mesmo que à esquerda se tenha lembrado que pouco sentido faria um republicano e agnóstico entoar God Save the Queen (Deus Abençoe a Rainha).

Em declarações à BBC, Corbyn garante que assistiu à cerimónia militar “por respeito a esse momento impressionante da história britânica” e que o fez recordando os pais que serviram como voluntários durante os bombardeamentos nazis a Londres. Mas depois de alguns membros da sua equipa terem admitido que muitos britânicos se terão sentido ofendidos pela sua recusa em entoar o hino, fontes do Labour garantiram à imprensa que, na próxima vez, Corbyn não ficará em silêncio.

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