Opinião

A alegre campanha

Nada mudou depois de 9 de Setembro, asseguram-nos. Na verdade, tudo mudou.

O debate. Já foi, mas deixou rasto. Dividiu jornalistas e analistas como nunca se vira. Ninguém escapou incólume, mesmo os que deram a vitória a Costa.

Se, no jornal digital onde se concentra, a tribo da direita fantasiou empates e lambeu feridas, com excepções naturais para preservar posições futuras, a maior defesa dos derrotados foi o ataque aos entrevistadores: que não davam tempo para explicações, que picavam o pobre do Passos com o cronómetro, que nada perguntaram sobre educação, refugiados, economia, Europa. Passos foi trucidado cá fora por ter falado 12 vezes em Sócrates, chão que deu uvas; por se ter enrolado nas tecnicalidades vertical e horizontal do plafonamento, por tentar esconder o sol com a peneira, negando a ameaça da assertiva e sempre obediente Maria Luís sobre o corte de 600 milhões nas pensões, já prometido a Bruxelas. Outra ministra veio depois retocar a cosmética com nova origem de fundos: o rigor das execuções fiscais cobriria o buraco pensionário. Não se estranhe que surjam ainda novas soluções, talvez a recolha dos saldos de contas bancárias esquecidas, inertes. Como solução final, restará sempre o ouro das reservas do Banco de Portugal, derradeiro escudo defensivo com que o gentil cavaleiro Passos defenderá os seus queridos pensionistas que tanto maltratou. Como São Martinho que aí virá neste Outono, com eles repartirá a sua capa de centurião.

O BES. Manancial inesgotável. Servirá de círio fúnebre a Cavaco, de véu negro a Maria Luís e de mortalha a Passos, os três principais responsáveis. O caso BES está para durar. Leviandade, mentiras e pressas, dão sempre maus resultados. Leviandade na voz grossa do aval político a negócios que se sabia impossíveis e fraudulentos, como a venda de papel comercial, como se de títulos firmes se tratasse. Já houve quem dissesse que a palavra de Passos (e Cavaco) seriam cartas de conforto da recusa de apoio de Estado, com o BCE e a Comissão mais que atentos. Mas depois vem o enleio da mentira, empurrada pelo contraponto: não, não se fez como no BPN, não se aceitou a nacionalização, apenas a resolução, ficando tudo a cargo da banca. O rabo de fora do gato escondido é desfeito pela imprensa económica: grandes perdas públicas existem no envolvimento maximal da Caixa, na vulnerabilidade que acresce a um BCP aflito cá e na Polónia, e sobretudo na redução regular de lucros bancários passíveis de imposto, devido à servidão a que a Banca será obrigada, mesmo que em prestações suaves. Finalmente a pressa, a eterna má conselheira. Mesmo que o negócio fosse mau, como se esperava, o Governo deitaria foguetes por ter encerrado um dossier difícil. Saiu tudo ao contrário: a pressa passou a sobranceria: não, não temos pressa nenhuma nem pressionamos o Banco de Portugal! Se a fatalidade era previsível, porquê então inventar um método de concurso em que o vendedor perde poder negocial a cada recusa de interessados, diminuindo de degrau em degrau a distância ao desprezo. Tudo isto fui depois explicado, clarinho, a Passos, perante centenas de milhares de Portugueses. Porquê continuar a errar e a mentir, atolando-se na lama, com os indignados em ira justificada? Até que o Governo, no final, ceda tudo o que, em bom tempo, teria podido negociar? A promessa de Passos de servir de primeiro subscritor de uma angariação para pagar a advogados, pensando que assim obtém a remissão dos seus erros e pecados, foi tirada indigna da dignidade do poder. Será destruída pelo ridículo. Semana horribilis? Não, apenas o princípio do desmontar da feira.

A campanha. Nada mudou depois de 9 de Setembro, asseguram-nos. A campanha da coligação prosseguirá como previsto! Passos continuará a fazer de morto e Portas de animador de arruadas. Na verdade, tudo mudou. Um comício aditivado na FIL, logo no dia seguinte, uma saída para um bracarense terreno conservador e os verdes prados de Vila Verde. Arruadas generosas e revitalizantes, não fora os indignados do BES e os professores sem emprego estragarem a festa. Não foi bonito. Pois não! Mas sempre o Povo diz que quem semeia ventos colhe tempestades. E depois, a substância do debate: para que foi Passos reincidir na solução impossível de um plafonamento em período de vacas muito magras que só trará poupança daqui a quarenta anos e até lá só acumulará prejuízo? Para logo confessar ser apenas solução parcial e dependente de consenso político, ali mendigado a Costa. Acto contínuo, Costa responde com nega radical, como se poderia prever. Para que se mete Passos por caminhos que mal conhece, sem apresentar mais que um estudo pífio? Por que não guarda um pouco do serão para ler o programa do PS?

O silêncio. A unção de santidade que o silêncio permitia desapareceu, fatalmente. Em que mente brilhante foi concebido o fingir de morto que não resistiria à primeira derrota mediática? Seria naturalmente previsível que os debates dessacralizassem Passos e transformassem Portas num fatigado chefe de redacção à procura de títulos-bala para uma edição já com falta de tempo. Tudo disfarçado em sorriso sardónico que aumenta o efeito brechtiano de distanciamento do intérprete face ao seu papel. Neste vazio de ideias e estratégia em que está a cair a campanha PAF, vão perseguir-nos as imagens de Passos cerrando a boca num traço e de Portas nervoso e pimpão, irradiando confiança de compère de music-hall. Uma campanha alegre!

Professor catedrático reformado