Enric Vives-Rubio
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“Quizzes”: uma tradição irlandesa que virou febre em Lisboa

Os jogos de perguntas que se prolongam noite dentro à volta de uma cerveja nasceram na Irlanda. Surgiram nos pubs de Dublin, alastrando-se aos bares europeus e só mais tarde a Portugal. Hoje, as noites de “quizzes” pela cidade de Lisboa arrastam centenas de adeptos e são cada vez mais populares

Quando em meados do século passado os pubs eram dos poucos locais onde havia televisores, os concursos de cultura geral empolgavam a clientela irlandesa. As respostas eram gritadas por cima do balcão a ponto de alguns mandarem os mais espertos concorrerem ao espectáculo televisivo. A adesão era de tal ordem que, rapidamente, a TV foi posta de lado e cada bar começou a organizar os seus próprios "quizzes". A prática espalhou-se pela Europa e já há uns anos que soma e segue em Portugal. Nas noites de Lisboa, não faltam bares onde podes pôr a tua cultura geral à prova.

António Pascoalinho, professor de cinema e audiovisuais, apresenta "quizzes" há cerca de 10 anos. Tudo começou quando a Sociedade Guilherme Cossoul, em Santos, o convidou para ser o apresentador de "quizzes" da casa, em 2011. “Para mim, esta é uma forma de bebermos um copo com os amigos e aprendermos alguma coisa ao mesmo tempo”, diz. Apesar de a maior parte das equipas já jogar há alguns anos, o apresentador tenta sempre trazer pessoas novas para experimentar os jogos. Com um ar descontraído e de cigarro na mão, Pascoalinho verifica o sistema de som e dá início ao jogo. “Qual a soma do número de satélites de Mercúrio, Vénus e Marte?”, “Como se chama a personagem que é inimigo do Spider-man?” são exemplos de perguntas que se podem encontrar nos "quizzes" clássicos de 50 perguntas na Sociedade Cossoul.

Não é muito habitual a presença de estrangeiros nas noites de "quiz" da Guilherme Cossoul. No entanto, António Pascoalinho conta que uma vez teve de traduzir as perguntas para um grupo de americanos que quis jogar. “Para os estrangeiros há os bares do Cais do Sodré, que preparam "quizzes" em inglês. Se tivermos uma pergunta sobre ovos moles, eles não sabem. São coisas muito específicas da cultura portuguesa e isso acaba por os desmotivar”, acrescenta.

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Pedro Castro está pela segunda vez no bar da Cossoul. “Decidi voltar aos 'quizzes' porque gostei muito da primeira vez. Acabei por descobrir que não sabia tantas coisas como pensava e que até sabia algumas coisas sobre as quais nunca tinha pensado.” Acrescenta ainda que o espírito das equipas mais antigas para com as novas equipas é muito bom, dando até uma mãozinha nas perguntas mais difíceis. E foi assim, desta forma pouco competitiva, que Pedro ficou a saber que Ganímedes é o maior satélite do sistema solar.

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Seguindo até Alcântara…

Em Alcântara, encontram-se João Silva e Carlos Santos, no restaurante e bar “Estado D’Alma” para apresentarem mais um "quiz" de cascata. Este é um pouco diferente do normal. Está inserido num campeonato de 11 jornadas para se chegar ao vencedor. E está divido em duas partes, uma parte de identificação de imagens e uma outra parte oral.

Carlos começou a jogar há uns seis anos devido a João Silva, que é professor de educação física e treinador de futebol. Tudo começou em 2004, na Academia Recreativa da Ajuda. “Como gosto de jogos de cultura geral e costumava ir aos concursos de televisão, um amigo disse-me que na Academia da Ajuda existiam uns "quizzes" e que aquilo era a minha cara”. Carlos decidiu experimentar e, como o próprio diz, entrou e nunca mais conseguiu sair.

O "quiz" de cascata organizado por Carlos e João acontece uma vez por mês no Estado D’Alma. A sala rapidamente fica repleta pelas 17 equipas com seis elementos cada. Não há nem uma mesa livre para clientes de última hora. “Às vezes aparecem aqui pessoas que querem jogar, mas só o podem fazer se alguma equipa desistir ou faltar”, acrescenta Carlos.

A primeira parte é o “aquecimento”, onde os concorrentes terão de identificar imagens. Nesta etapa, as equipas vão ser pontuadas de 1 a 15. Depois de terminada, começa o "quiz" de cascata propriamente dito.

No final do primeiro nível saem nove equipas e ficam oito para o nível seguinte. Quando termina a segunda cascata são apurados os vencedores e atribuídos os prémios, que normalmente são vales de consumo no restaurante para os três primeiros lugares e prémios simbólicos para todas as outras equipas. João explica que “as equipas que ficaram nos 11 primeiros lugares podem escolher, cada uma, três temas para o próximo campeonato.”

O "quiz" de cascata é constituído por 11 jornadas, sendo o mês de Agosto o único mês do ano em que não há competição.

A jogar está Rui Ganchinho, que faz parte dos Kromos United, que explica a sua adesão aos jogos com o bom ambiente, a camaradagem e o facto de continuar a aprender sempre alguma coisa, mesmo passados cinco anos. A seu lado, José Pedro Borges é outro elemento dos Kromos United. Começou a jogar em 2001, quando um amigo lhe telefonou e o convidou a participar. José lá foi e, nessa noite, ele e o colega ficaram em segundo lugar. “A equipa mais forte na altura era a do João Silva, apresentador do 'quiz' de hoje”, recorda Borges. “Actualmente, jogo no Estado D’Alma às terças-feiras, o cascata uma vez por mês e às vezes jogo alguns 'quizzes' do Júlio Alves”.

... e passando pela Estefânia

No Bar Al Café, na Estefânia, encontra-se Júlio Alves, um dos primeiros a organizar "quizzes" em português e em Portugal. Com 46 anos, Júlio já apresenta estes concursos desde 1999.

Antes de iniciar a aventura, Júlio costumava jogar num bar inglês. “O sítio onde costumava jogar deixou de fazer 'quizzes'. Na altura, estava a gerir um bar e, então, decidi experimentar”. Correu tão bem que, em 2003, Júlio abriu o seu próprio bar, chamado “Quizz”, onde fazia jogos duas vezes por semana.

Hoje, as noites de terça a sexta de Júlio são dedicadas à organização e apresentação de "quizzes" em diferentes bares. “Agora, quando digo que há 'quiz', as pessoas já sabem o que é. Pode-se dizer que agora existe quase um em cada bairro”, acrescenta.

Júlio tenta adaptar os seus "quizzes" aos diferentes bares e aos diferentes públicos. No entanto, confessa que repete imensas perguntas. “Se me esforço para ter sempre perguntas diferentes, acabo por perder público. As equipas mais fortes iriam acertar essas novas perguntas e as mais novas não, o que faria com que elas ficassem desmotivadas e desistissem”, salienta Júlio. “Para além disso, tento ter perguntas interessantes que eu possa fazer hoje e daqui a 20 anos”. João Torgal, jornalista da Antena 1, descobriu os bares de "quizzes" em 2011.

O primeiro que experimentou foi o do Pascoalinho na Sociedade Guilherme Cossoul. Depois de se tornar assíduo, mudou-se para o Porto. Como não havia bares que organizassem estes jogos no Porto, João decidiu tomar a iniciativa. O bar eleito foi o Breyner 85, que contou com a casa cheia de amigos de João e a estreia foi um sucesso. Passados dois meses, os amigos deixaram de ir, mas o Breyner continuava cheio.

“Do Porto, passei para Braga. Tenho lá uns amigos. Passei a fazer 'quizzes' de 15 em 15 dias em Braga no Estúdio 22”, conta João. Quando voltou para Lisboa, começou por fazê-los, às quartas-feiras, no Cinema City, em Alvalade. Contudo, a experiência não correu como planeado. “Havia noites em que não aparecia ninguém. Tens de criar uma dinâmica onde cinco ou seis equipas vão religiosamente, senão o jogo não funciona”, refere João.

Para Júlio, a pergunta mais difícil que alguma vez ouviu num “quiz” foi a de amigo que queria colocar à prova um grupo de pessoas especialistas em geografia. A pergunta era “Onde se encontram os ilhéus Langerhans?" Segundo Júlio ninguém acertou, porque ninguém sabia que as ilhéus de Langerhans ficam no pâncreas. 

Texto editado por Ana Fernandes