A admirável "missão Sampaio"

É bom saber que um pequeno país como Portugal responde desde 2013 a esta crise.

Em Portugal, na história recente, o Presidente Ramalho Eanes habitou-nos a uma postura de reserva quase total, com raras aparições, cuidadosamente escolhidas.

O Presidente Mário Soares, em sentido oposto, optou por manter bem viva a sua presença, com permanente intervenção pública, e até novas funções políticas, como eurodeputado.

Já o Presidente Jorge Sampaio surgiu com uma abordagem totalmente distinta de intervenção: discreta, exclusivamente focada na defesa dos direitos humanos, nomeadamente através de cargos que exerceu na ONU. Inicialmente enquanto Enviado Especial do Secretário-Geral da ONU para a luta contra a tuberculose e, entre 2007 e 2013, na qualidade de Alto Representante da ONU para a Aliança das Civilizações.

Mais recentemente deu um passo de gigante, desconhecido da maioria dos portugueses: aventurou-se na criação da Associação “Plataforma Global de Apoio aos Estudantes Sírios” (1), projecto inspirado nas suas recordações sobre a importância do acolhimento português aos jovens austríacos afectados pela II Guerra Mundial, e que tem por missão apoiar estudantes universitários sírios, mediante a concessão de bolsas de estudo e o estabelecimento de parcerias com universidades nacionais e estrangeiras.

Graças à Plataforma do Presidente Jorge Sampaio mais de uma centena de jovens estudantes sírios estão hoje a frequentar o ensino superior, tanto nas universidades portuguesas como em universidades fora de Portugal, em dez países distintos. Esses estudantes estavam, até 2013 (ano da fundação da Plataforma), impedidos de frequentar o ensino superior, por força da guerra e catástrofe que se vive na Síria e, na maioria das situações, a ponderar mesmo desistir de estudar.

Tal como nós, podem hoje saborear o “direito à educação”, que a guerra lhes havia tirado. E souberam agarrar a oportunidade com uma incrível garra… Regularmente chegam notícias a Lisboa sobre o/a estudante sírio/a que é já “melhor aluno/a em engenharia x”, um outro/a “com nota máxima no mestrado y” e vários/as com convite para continuarem, rumo ao doutoramento ou quiçá ao mercado de trabalho.

Todos muito gratos ao trabalho de Jorge Sampaio, que, já depois dos 70 anos de idade, decidiu arriscar, com sucesso. Envolvendo gente de esquerda, de direita, jovens, menos jovens, de diferentes áreas profissionais, portugueses, estrangeiros, pessoas! Pedindo apoios a empresas, fundações, universidades, particulares ou misericórdias. Movimentando-se até nos corredores do Mundo, junto de diversas entidades, para a criação de uma política global que responda às necessidades educativas dos estudantes (sírios e de outras nacionalidades) afectados por crises humanitárias.

Diariamente, a Plataforma e o seu Presidente Jorge Sampaio vêm lutando para assegurar que estes jovens, antes condenados ao insucesso, continuarão a sua formação. Em rigor, para que esta gente possa, no futuro, ser o futuro do seu país. Afinal de contas, qual será o futuro de certos países se os seus cérebros, além de emigrarem, deixarem de estudar?!

No contexto da crise do Mediterrâneo, em que cidadãos do Mundo fogem do terror, em busca de uma vida melhor por mares europeus, é bom saber que um pequeno país como Portugal – através da Plataforma Global de Jorge Sampaio – responde desde 2013 a esta crise, apoiando jovens estudantes aqui e além-fronteiras.

Porque terá início, muito em breve, um semestre eleitoral (legislativas e presidenciais), com entradas e saídas de titulares de altos cargos da Nação, eis um admirável exempli gratia de uma resposta digna ao dilema de muitos políticos: “e depois da política…? ”.

1) Declaração de interesses: pela mão do Dr. José Manuel Galvão Teles, tenho a honra de colaborar com a Plataforma, desde a sua génese.

Advogado