Catarina Martins insistiu, mas Passos não pediu desculpa nem mostrou números

Novo Banco e plafonamento aqueceram debate entre líderes do Bloco de Esquerda e do PSD. Passos Coelho contra-atacou com a Grécia, considerando um "desrespeito" a hipótese de perdão da dívida.

Foto
O “sucesso de Martins mandou arrepios a todo o establishment da Europa”, refere a revista americano

A porta-voz do Bloco Catarina Martins considerou, no debate desta sexta-feira à noite na RTP Informação, que o adiamento da venda do Novo Banco aparece como “muito oportuno” para este Governo, dada a proximidade das eleições legislativas. Para a deputada, a operação tem custos para os contribuintes e o primeiro-ministro devia pedir “desculpa” aos portugueses por ter garantido o contrário.

Além de não ter pedido desculpa, por considerar que os contribuintes portugueses não serão lesados, Passos Coelho também não acedeu a outro pedido de Catarina Martins: mostrar os números, os cálculos que a coligação Portugal à Frente fez para defender o plafonamento da Segurança Social.

A estes ataques, o primeiro-ministro respondeu com um outro, já recorrente: a Grécia. Voltou a colar o Bloco ao Syriza, congratulando-se por o primeiro não estar no Governo em Portugal, caso contrário o desfecho seria o mesmo – mais um programa de ajuda.

Além de terem debatido a questão da austeridade, com Passos a defender que fez sentido e Catarina que não, estes foram os três temas que marcaram o debate.

Quanto ao Novo Banco, Catarina Martins considerou que o adiamento da venda é favorável ao executivo nesta altura, por motivos eleitorais, e não deixou de dizer que tal pode mesmo dever-se ao facto de este Governo ter reconduzido Carlos Costa no cargo de governador do Banco de Portugal. “Tirou este peso ao Governo”, afirmou.

Passos Coelho rejeitou as acusações. O principal argumento que usou foi o de que, agora, não se está diante de uma nacionalização como no BPN e como - contra-atacou - o Bloco defendia. E garantiu várias vezes que, no caso do Novo Banco, “os contribuintes não perdem dinheiro” – o Estado emprestou e vai receber com juros, explicou o governante. Se, quando a venda se vier a concretizar, houver prejuízos “será a banca, o sistema financeiro” a suportá-los, sendo que a Caixa Geral de Depósitos é um desses bancos.

Catarina Martins rebateu, recordando que em seis anos houve seis bancos intervencionados, com “casos claros de fraude” e “os contribuintes sempre a pagarem” – uma finança “predadora do país” que, vincou, o PSD pretende continuar a defender no futuro. E até aproveitou para lembrar que Passos Coelho já elogiou publicamente Dias Loureiro, ex-ministro e accionista e administrador da SLN/BPN. “O PSD não aprendeu nada com a crise financeira”, rematou a deputada.

A Segurança Social também agitou o debate, com Catarina Martins, sempre ao ataque, a pedir insistentemente que Passos explicasse como pretende tapar o buraco que um eventual plafonamento pode deixar. Para a porta-voz do Bloco, o facto de as pessoas que ganham mais poderem escolher descontar para fundos privados vai retirar ainda mais dinheiro à Segurança Social, que já enfrenta um problema de sustentabilidade.

Entre outros argumentos, Passos justificou que se trata de uma proposta de base voluntária e que só se aplica a futuros contratos. O montante a partir do qual se poderá descontar para fundos privados teria de ser decidido em sede de concertação social.

Para o primeiro-ministro, o Estado não tem de garantir as pensões mais elevadas. Apesar de ainda não ser um número definitivo, o primeiro-ministro disse que o plafonamento não se aplicaria a pensões abaixo de 2500 ou 3 mil euros.

Catarina Martins não acolheu o argumento: “O que está a dizer é que as pessoas que têm mais dinheiro ficam libertas de pagar. Está a ser demagógico.”

O contra-ataque de Passos Coelho baseou-se sobretudo na colagem do BE à Grécia. E lembrou a hipótese de perdão de metade da dívida proposta pelo ex-ministro das finanças grego, Yanis Varoufakis, para considerá-la um “desrespeito” pelos portugueses que emprestaram 1100 milhões de euros à Grécia.