A preocupante tendência do “fix-it-all with this pill”

A utilização de psico-fármacos como única abordagem terapêutica é, na minha perspectiva, absolutamente redutora da complexidade de cada indivíduo

Foto
frolicsomepl/Pixabay

Todos os dias, variadíssimos produtos emergem com a tentadora promessa de uma solução eficaz, procurando melhorar a nossa vida de alguma forma. Os ingredientes que compõem esta solução tendem para uma maior simplificação, rapidez e facilidade na execução de alguma tarefa ou acção, e tendem também para um menor esforço.

Este paradigma, "per se", apresenta inúmeras vantagens. No entanto, quando passamos de uma perspectiva externa, tal como a aquisição de um serviço ou produto, para uma perspectiva interna, como a vivência psicológica individual e interior de cada um, este paradigma apresenta inúmeras desvantagens.

Esta é a equação: mais simples, rápido, fácil, com menos esforço. Esta é também a tentadora solução que a medicação psico-farmacológica apresenta. De acordo com o relatório do Infarmed, em 2013 consumiram-se 20 559 811 psico-fármacos em Portugal sim, vinte milhões. São cerca de 57 000 embalagens por dia.

Vejamos o caso da depressão. Nunca se prescreveram e consumiram tantos anti-depressivos. Mas afinal o que fica solucionado com um anti-depressivo? Solução significa “resolução de uma dificuldade, problema (...) desfecho, conclusão”. Quão eficaz será então um anti-depressivo?

Será a depressão, não a causa, mas a consequência ou o reflexo de um conjunto complexo de circunstâncias? Quantas situações cabem no mesmo diagnóstico de depressão? Abuso, trauma, desemprego, divórcio, luto, incerteza em relação ao futuro, doença física incapacitante, baixa auto-estima, "bullying", ideação suicida. Será que tão díspares situações ficam resolvidas com um mesmo tratamento farmacológico?

A utilização de psico-fármacos como única abordagem terapêutica é, na minha perspectiva, absolutamente redutora da complexidade de cada indivíduo. Um coração bate muito rápido no êxtase da felicidade e na angústia do desespero. Uma pessoa com depressão está profundamente triste; mas pode está-lo pela perda de um ente querido ou por ter ficado desempregado. O que se pode observar, externamente, é muito semelhante. O que se pode sentir, internamente, é muito diferente.

Os anti-depressivos são naturalmente importantes no tratamento da depressão e a sua eficácia, no controlo sintomático, está demonstrado sobretudo em níveis moderado a grave. Contudo, quando não prescritos para as situações certas, durante o tempo certo, tornam-se rebuçados caros... a curto prazo a eventual doce expectativa de algum alívio sintomático, a longo prazo a amarga perpetuação da origem do problema e a dependência. Com a actual situação, aplica-se a clássica metáfora, “Dá-se o peixe na boca, mas não se ensina a pescar”. Este é um negócio fabuloso para a indústria farmacêutica, que encontra na ideia de depressão crónica (e logo aquisição de anti-depressivos à la longue) uma fonte de receita inesgotável.

Explorar a origem dos nossos problemas, compreender a razão pela qual têm impacto em nós, é também aprofundar o conhecimento que temos de nós mesmos. A intervenção psicológica pode, por isso, construir a oportunidade para este caminho. Readquirir controlo sobre nós mesmos, reconstruirmo-nos a partir de situações complexas, será porventura das experiências mais transformadoras do nosso sentido de "self". A confiança de que eu consegui; de que tenho, dentro de mim, os recursos necessários para me reerguer. A noção de que me sentia no fundo de um poço sem ver saída, mas hoje sei como entrei e como saí, memorizei o caminho porque o percorri detalhadamente, passo a passo. Estar na vida com a coragem e a certeza de cair sete vezes e levantar oito. Já Churchill dizia, “atitude é uma pequena coisa que faz uma grande diferença”.