A mais longa noite de Braga também é uma outra forma de olhar a cidade

A Noite Branca dura 48 horas e começa esta sexta-feira. Há 13 projectos de artistas emergentes incluídos num programa onde há consagrados como António Zambujo ou Deolinda.

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Adriano Miranda

Uma bola de basquetebol está esquecida a um canto. Centenas de cadeiras empilhadas e um colorido de pastas de arquivo e extintores dão dimensão à desarrumação desta sala. O ginásio, que também chegou a ser capela, da EB 2,3 Francisco Sanches, em Braga, é hoje um armazém onde cabem quase todos os objectos que já vimos numa escola. Ao contrário deste imenso espaço, quase todo o edifício está vazio e à espera de uma nova utilização, desde que os estudantes trocaram estas salas pelo novo edifício construído a poucos metros. É para lugares como este que três jovens bracarenses querem direcionar os olhares dos milhares de visitantes que são esperados, durante este fim-de-semana, no festival artístico Noite Branca.

Quem chegar à cidade pela histórica entrada do Arco da Porta Nova vai encontrar o largo da Praça Velha preenchido por estendais. Essas estruturas são parte da instalação “Não deixar em branco” que Tomé Capa, António Faria e Maria Betânia Ribeiro idealizaram para a Noite Branca. A sua intenção é desenhar uma espécie de mapa da cidade, onde serão incluídos espaços que, como a Francisco Sanches, estão devolutos e à espera de uma nova utilização. “São sítios que estão pendurados”, como os lençóis brancos onde foram desenhados, ilustra Maria Betânia Ribeiro.

Além da escola, onde a jovem bracarense, formada em Comunicação e Turismo, foi aluna, estão incluídos na obra outros edifícios como o cinema S. Geraldo, a fábrica Sarotos ou o edifício Marques da Silva na rua do Castelo. Estão são espaços “com um potencial incrível”, que estão vazios e para os quais “já se apontaram várias soluções”. “Mas nenhuma delas avançou”, sublinha António Faria, que, tal como Tomé Capa, é formado em Arquitectura. 

“A Noite Branca tem um carácter festivo, mas com milhares de pessoas na rua, é uma oportunidade para chamar a atenção para este património”, acrescenta. A organização espera que passem pelo evento, que este ano foi alargado e durará praticamente 48 horas, em vez de apenas uma noite, 250 mil pessoas. O evento arranca esta noite (21h30) com um concerto de António Zambujo, na praça do Município.

Até às 19h00 de domingo há mais de 60 eventos para assistir em Braga, com destaque para os concertos de Deolinda, Richie Campbell, Capicua e Diabo na Cruz. Também haverá espetáculos itinerantes pelas ruas do centro histórico, festas, mercados e actividades dirigidas às crianças, todos com entrada gratuita. Os museus da cidade juntam-se à celebração abrindo aos visitantes durante todo o dia de sábado, até às 2h00 da manhã dessa noite – que é a que concentra os principais motivos de interesse da Noite Branca.

Ao programa mais vocacionado para o grande público, a organização decidiu juntar um concurso artístico em que foram desafiados jovens criadores e associações para se apresentassem propostas de actividades culturais que pudessem ser apresentadas durante o evento. A instalação “Não Deixar em Branco” é um dos projectos apoiados financeiramente por essa iniciativa da Fundação Bracara Augusta, uma das co-produtoras do evento, juntamente com a Câmara de Braga e o Theatro Circo. Entre as mais de 100 candidaturas recebidas, foram escolhidas 13, que vão ser apresentadas durante este sábado em vários pontos da cidade. Entre esses projectos há peças de teatro, instalações, concertos de jazz e exposições de trabalhos de ilustração ou a ópera “A Querela dos Grilos”, apresentada pelo Quarteto Contratempus. Esta obra cómica parte de um texto de Tiago Schwäbl e tem composição de Fátima Fonte e encenação de António Durães e será apresentada na praça de entrada do Museu D. Diogo de Sousa (18h00 e 22h00 de sábado).

“Neste tipo de festivais só costumam haver coisas para massas e aqui há uma leque grande de coisas a acontecer ao mesmo tempo”, elogia Teresa Nunes, cantora lírica que será uma das intérpretes desta ópera. Júlio Mendes Rodrigo, um artista baseado no Porto e que foi também um dos escolhidos pelo concurso artístico da Noite Branca, concorda que no “marasmo criativo” do país, esta iniciativa é “um balão de oxigénio” para artistas emergentes.

Júlio Mendes Rodrigo e André Fonseca são os autores de uma instalação e uma performance de luz e som (que terá três apresentações, ao longo do dia de sábado, às 21h00, 0h00 e 1h30). Tal como a peça criada pelos três jovens de Braga para o largo da Praça Velha, esta obra é também uma outra forma de olhar para a cidade. “Sacrum Fulgor” será apresentado no Depósito Arqueológico da Sé de Braga e tentará “procurar uma leitura diferente” dos objectos ali guardados. Entre eles há fragmentos de edifícios romanos, visigóticos e medievais que “estão esquecidos”, mas agora “serão protagonistas”.