O fim à beira de Veneza

Francofonia, de Alexandr Sokurov, é dado como favorito no palmarés. De uma competição cujo interesse acelerou no final.

Fotogaleria
Francofonia, de Alexander Sokurov dr
Fotogaleria
Heart of a Dog, de Laurie Anderson dr

Dois filmes-ensaio, Francofonia, de Alexander Sokurov, e Heart of a Dog, de Laurie Anderson, polarizam “conversas de corredor” no Festival de Veneza.

O autoritarismo de um, o cineasta russo, a narrativa de um “alpha-male”, é comparado com a procura de empatia da outra, a performer norte-americana, a narrativa de uma andrógina - a passagem de Laurie Anderson por Veneza foi mesmo um espectáculo de empatia.

O filme de Sokurov, apocalíptico, imperial, um lamento pela Cultura europeia, aparece à frente nas listas dos títulos mais “estrelados” pelos críticos e jornalistas em diferentes publicações. Por isso diz-se que é “o favorito” ao palmarés, que vai ser decidido no sábado pelo júri presidido pelo cineasta mexicano Alfonso Cuarón.

Talvez se possa aproveitar esta presença, nas conversas do Lido dos últimos dias, destes dois títulos que são afirmações pessoais e irredutíveis de uma mundivisão, para testemunhar sobre o cansado desfile da ficção mais tradicionalmente formatada na competição da 72ª Edição.

Só se dignificou quando a crise de modelo foi assumida e ultrapassada, a alternativa trabalhada. Para além dos filmes de Sokurov e Anderso, 11 Minutes, de Jerzy Skolimowski, que dinamita o filme-puzzle, fazendo explodir o cruzamento de histórias (há quem peça o Leão de Ouro para o polaco), ou Rabin, the Last Day, de Amos Gitai, obra grave, solene, plúmbea, a partir do assassinato do primeiro-ministro israelita Yitzhak Rabin, que transcende o docudrama,

Os dois últimos filmes em concurso trazem sinais dessas dificuldades e dessas superações. Confirmaram, para além disso, o interesse ascendente que tomou conta da fase final da competição. Behemoth, de Liang Zhao: ou como as minas de carvão e ferro são o sinal de um monstro bíblico que consome a Natureza; os corpos são para queimar, o sacrifício humano possibilita as gigantescas cidades-fantasma que povoam a paisagem rural da Nova-China.

Como os seus compatriotas Jia Zhang-ke ou Wang Bing, também Liang Zhao olha para os vestígios de humano que sobrevivem ao desenvolvimento económico – um final da Civilização tal como a conhecíamos. É fortíssima a passagem que faz dos corpos sujos das minas ou prostrados nos hospitais com doenças pulmonares para o monstruoso “paraíso” artificial que são cidades sem gente, sem carros. Mas o seu escândalo perante a catástrofe leva-o a dar um passo que duvidamos acrescentar poder ao filme: sobre o documentário, a alegoria e a Divina Comédia de Dante.

Per Amor Vostro, de Giuseppe Gaudino, assinala o reencontro na competição com o autor do longínquo Giro di lune tra terra e mare, de 1997 – filme que continua longe de ser formatado. Per Amor Vostro é uma história de amor absoluta, sem recuo, sem tréguas – e sem possibilidade de não aderir a ela - entre um realizador e actriz que escolheu para interpretar a personagem do filme, Valeria Golino.

Gaudino filma Valeria como presença total, corpo e imagem que são uma tela para todas as projecções. Ela pode ser tudo, ela é tudo, mulher que resgata a sua coragem ao milieu familial napolitano, figura santificada, o espírito de uma terra vulcânica e uma funcionária, num estúdio televisivo, submissa. É um filme excessivo, desequilibradíssimo, mas o surrealismo é cheio de “lata” porque se apresenta sempre como tentativa imperfeita, a marimbar-se para o resultado. O amor é que conta, e por Valeria ele é enorme.