Para quando um título AAA em Portugal?

Estamos a criar, aos poucos, as condições necessárias para que um AAA possa acontecer. Mas, isso vai levar tempo

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Jonathan Alcorn/ Reuters

A pergunta que serve de título a esta crónica está no “top 3” das questões que me fazem mais vezes ao longo do ano. Normalmente, a minha resposta é também sob a forma de uma questão: "O que é um AAA?". Esta é resposta mais comum que oiço: "É um título de grande orçamento." Mas, deixem-me já esclarecer: não, não é. Ou antes, não devia ser.

A definição AAA foi criada no mercado norte-americano como um termo para definir um jogo de grande qualidade. Todos aqueles A têm um significado — a inovação, a recepção críitica e o sucesso financeiro. Isso é o que define um título AAA, em oposição ao resto. Infelizmente, ou não, os maiores representantes da indústria começaram a justificar que a qualidade vinha agregada ao orçamento. O que faria sentido, mas que, entretanto, teve uma repercussão. Se existe uma preocupação com as vendas do jogo, não se vai inovar, de forma a receber o retorno do investimento. Muitas empresas começaram a jogar pelo seguro, ou antes, a repetir a mesma fórmula até a exaustão, e tentaram impingir ao público que o produto era à mesma de grande qualidade. E pronto, de repente, os títulos das maiores produtoras eram todos considerados AAA, e infelizmente esta definição ficou até hoje, mesmo quando não corresponde ao critério original.

A culpa disto tudo também é dos jornalistas dos grandes sites, que começaram a engolir todo o "press-release" lançado pelas produtoras, e que se limitaram a fazer essa tradução para o seu público. Em pouco tempo, chegamos ao ponto em que todos os AAA, ao invés de serem visto pela qualidade, e serem os verdadeiros jogos que demonstrariam tudo o que de bom a indústria pode produzir, passou simplesmente a ser conhecido por "projectos de grande orçamento".

Em suposta oposição aos AAA surgiram depois os "indies", ou seja, os projectos independentes que não têm grandes orçamentos, ou são mais modestos. E, por isso, a qualidade seria algo inferior. Mas, na realidade, isso era só uma teoria infundada. Jogos como o Fez, Limbo ou Monument Valley provaram plenamente o contrário. O dinheiro pode realmente ajudar a estabelecer uma empresa, mas a qualidade não é sempre sinónima de "uma pipa de massa investida".

Voltando ao tema desta crónica. Para quando um “AAA” em Portugal? Bem, se quisermos seguir pela definição original, na minha opinião, isso vai naturalmente acabar por acontecer; está só dependente das equipas e empresas existentes começarem a ganhar experiência. Afinal, os títulos de grande qualidade acontecem porque as pessoas atrás dos projectos já andam nisso há uns valentes anos, nalguns casos há décadas. Por cá, estamos a criar aos poucos as condições necessárias para que um AAA possa acontecer. Mas, isso vai levar tempo.

Se, por outro lado, seguirmos a definição actual de "grande orçamento", então a minha resposta mantém-se. Os grandes orçamentos só vão estar disponíveis quando as empresas actuais já tiverem experiência suficiente para estarem credibilizadas junto das entidades financeiras. 

Portanto, para um título com grande qualidade a sair de Portugal, ou ter grande orçamentos comparáveis aos maiores da indústria, só temos de ter equipas experientes. E estamos a caminhar nesse sentido. Mas, isto só pode ser feito a médio-longo prazo. Por enquanto, já é possível ver parte desse trabalho a acontecer. Por exemplo, os jogos portugueses publicados na plataforma Steam claramente apontam na direcção correcta. Talvez ainda não lá estejam, mas é só uma questão de tempo. A paciência é uma virtude.

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