A vagina de Kapoor foi outra vez vandalizada e agora é assim que vai ficar

Anish Kapoor não vai apagar as inscrições feitas na obra, exposta em Versalhes, para que perdure na memória a intolerância da sociedade.

A exposição mantém-se até Outubro no Palácio de Versalhes
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A exposição mantém-se até Outubro no Palácio de Versalhes Reuters
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As inscrições racistas surgem também nas pedras que compõem a obra Reuters
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A direcção do Palácio de Versalhes condenou o acto Reuters
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A ministra da Cultura, Fleur Pellerin, no local neste domingo AFP
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Toda a obra foi vandalizada AFP
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Para François Hollande este foi um ataque anti-semita Reuters
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Kapoor criticou a intolerância da sociedade, optando por deixar a obra como está para que se perceba que o ódio ainda existe AFP

Depois de ter aguentado dois meses intacta, a escultura em forma de vagina que Anish Kapoor instalou nos jardins do Palácio de Versalhes, nos arredores de Paris, voltou a ser vandalizada. Da primeira vez, em Junho, poucos dias depois da inauguração da sua exposição com peças espalhadas pelos jardins, o artista condenou o acto e limpou os estragos – algo que agora não fará. As inscrições anti-semitas que apareceram na peça vão ali continuar como testemunho das intolerâncias da sociedade.

A instalação já por si estava a levantar algumas dúvidas, desde logo por causa do nome, Dirty Corner, e depois por se assemelhar a uma vagina. Mas se dúvidas existiam, Anish Kapoor, nascido em Bombaim, na Índia, em 1954, mas radicado em Londres desde o princípio da década de 1970, deixou claro: é mesmo isso, uma vagina. O artista chegou a ir mais longe, incendiando alguns ódios, quando numa entrevista antes da inauguração disse que aquela era a “vagina da rainha que tomou o poder”. Mais tarde desmarcou-se destas palavras, garantindo ter sido citado erradamente.

Quando, em Junho, a peça foi vandalizada com tinta, sem quaisquer inscrições, Kapoor criticou “uma certa intolerância política que apareceu em França para com aquilo que a arte é”. “O problema parece-me muito mais político do que qualquer outra coisa. Refere-se a uma pequena fracção de pessoas a quem foi dito que qualquer acto criativo compromete o passado sagrado, reverenciado ao extremo”, reagiu na altura, decidindo limpar a peça para que esta voltasse ao seu estado original.

Desta vez isto não vai acontecer, porque os simples rabiscos pintados transformaram-se em mensagens de ódio em que se lê, por exemplo: “A segunda violação da nação francesa pelo activismo judeu desviante.”

Dirty Corner está agora marcada com ódio, vou preservar estas cicatrizes como memória desta história dolorosa. Estou convicto de que a arte vai triunfar”, reagiu em comunicado neste domingo Anish Kapoor, assegurando que não permitirá que este “acto de violência e intolerância” seja apagado. “A partir de agora, em nome dos princípios universais, estas palavras abomináveis vão tornar-se parte do meu trabalho, vão cobri-lo e estigmatizá-lo”, disse depois o artista ao francês Le Figaro.

Dirty Corner é uma escultura de aço em forma de funil, ou de vagina, no meio de várias pedras partidas, virada exactamente para o Palácio de Versalhes que desde 2008 vem convidando artistas contemporâneos a dialogarem com os seus mestres do barroco e a ali exporem as suas obras.

O incidente obrigou mesmo a um comentário do Presidente francês, François Hollande, que condenou o acto “odioso e anti-semita”, palavras próximas das usadas pelo primeiro-ministro, Manuel Valls, que prometeu justiça, garantindo que os autores do crime, cuja identidade se desconhece, serão severamente punidos.

A Versalhes foi Fleur Pellerin, a ministra da Cultura francesa, para avaliar os danos. Aos jornalistas Pellerin disse que o que aconteceu ali foi “um ataque à liberdade de criação” e as frases ali escritas são “inaceitáveis”. “É um acto que revela uma visão fascista da arte.”

Esta exposição de Verão em Versalhes é uma das mais importantes do calendário mundial das artes e também das mais procuradas. Versalhes, só por si, tem cinco milhões de visitantes anuais. Kapoor sucede a Lee Ufan (2014), Giuseppe Penone (2013), Joana Vasconcelos (2012), Bernar Venet (2011), Takashi Murakami (2010), Xavier Veilhan (2009) e Jeff Koons (2008). Em 2012, também a portuguesa se viu envolvida numa polémica quando a sua peça A Noiva, com milhares de tampões, foi recusada em Versalhes por não se adequar na exposição. A peça recusada pela curadoria de Versalhes foi exposta, ao mesmo tempo que decorria a exposição em Versalhes, no Centquatre, em Paris. Joana Vasconcelos é até hoje a única mulher a constar da lista de artistas em Versalhes.

Anish Kapoor é o autor de obras como Marsyas, a misteriosa membrana em PVC com que ocupou os 150 metros de comprimento do Turbine Hall da Tate, em 2003, a ArcelorMittal Orbit, a peça de mais de 100 metros de altura concebida para o Parque Olímpico de Queen Elizabeth, em Londres, tida como a maior escultura do Reino Unido, ou Leviathan, o enorme balão que em 2011 instalou no Grand Palais, em Paris.