Jerónimo de Sousa

O mundo gira, ele resiste. Isto não será sempre assim

Há quatro anos, António Costa e Catarina Martins não eram líderes partidários. Passos Coelho prometia não cortar salários. Paulo Portas foi a votos sozinho. Jerónimo de Sousa viajou até Havana e encontrou-se com Raúl Castro. Segundo artigo da série "Quatro anos que mudaram a vida deles (e a nossa)."

O  carro do partido que usa é o mesmo há 11 anos. Vive em Pirescoxe, onde nasceu. Nem de marca de tabaco mudou, há muito que é a mesma. Não tanto, porém, como o tempo há que fuma: o secretário-geral do Partido Comunista Português (PCP) lembra-se de a mãe, que nunca tinha permitido que acendesse um cigarro à sua frente, lhe dar um maço quando foi trabalhar para a fábrica aos 14 anos. Se ia contribuir para o orçamento familiar, já era um homem. Embora hoje, com 68, seja impossível Jerónimo de Sousa não ter mudado, é essa imagem de constância que faz questão de manter.

Os últimos quatro anos, porém, tiraram-lhe o sono. Em 2011, quando o memorando da troika foi assinado, durante a governação socialista e a um mês de este executivo tomar posse, o líder comunista deitou-se e, nessa noite, pensou: “Vêm aí tempos muito duros, muito difíceis.” De manhã, só tinha uma palavra na cabeça: luta.

É este momento que o secretário-geral do PCP identifica, quando lhe perguntamos o que mais o marcou ou o que mudou na sua vida nestes quatro anos: a presença da “troika estrangeira”, como lhe chama. É, aliás, impossível contar quantas vezes repetiu, nestes quatro anos, a expressão “pacto de agressão”, para se referir ao memorando, ou defendeu a necessidade de uma “política patriótica de esquerda”. Jerónimo de Sousa garante que não são meros slogans e que vai repeti-los quantas vezes for preciso.

Foi por oposição ao memorando que o PCP definiu a sua estratégia. De tal forma que se recusou a dialogar com a troika. Em que é que essa atitude contribuiu para resolver os problemas dos portugueses? Num terraço na Quinta da Atalaia, onde estavam a montar a Festa do Avante!, Jerónimo de Sousa acende um cigarro e agradece a pergunta. Permite-lhe clarificar as razões: “Reunimos com o Governo PS em torno dessa matéria, porque consideramos que é nas instituições nacionais que o diálogo deve prevalecer. No encontro, perguntei a um alto responsável: ‘Diga cá, o que estamos a assistir é um processo de negociação ou de imposição?’ A resposta foi inequívoca. ‘Não, não estamos a negociar’.”

O argumento dos comunistas é este: se não existia verdadeira negociação, o que era preciso era ir para a luta. Jerónimo de Sousa baixa a voz: “Este Governo fez muito mal aos portugueses, às suas vidas, mas ficará sempre por saber se não tivesse sido essa luta, esta resistência, se não estaríamos bem pior do que estamos hoje.”

Tirando a “intensidade da intervenção e da iniciativa política” destes quatro anos, em que o PCP apresentou três moções de censura ao Governo, é difícil arrancar a Jerónimo de Sousa confidências sobre alterações na sua vida pessoal.

Quando, em 2004, sucedeu a Carlos Carvalhas no cargo de secretário-geral, muitos analistas políticos olharam com cepticismo para a escolha. Enfrentou críticas político-ideológicas, mas também elitistas, por ser um operário e não um intelectual, como os antecessores Álvaro Cunhal e mesmo Carvalhas. Hoje reúne um estranho consenso. Numa entrevista ao i, o social-democrata Duarte Marques falou do secretário-geral como “o cúmulo da autenticidade”. É genuíno? Estratégia? Ou está Jerónimo de Sousa refém da sua própria imagem?

Ruben de Carvalho, organizador da Festa do Avante! há 40 anos, garante que o camarada é mesmo assim: “Afável e convincente.” Nunca o viu zangado, embora o secretário-geral se zangue. A Ruben de Carvalho também lhe agrada que o “secretário-geral de um partido com forte implantação operária” seja “ele próprio de origem operária.”

Jerónimo de Sousa tornou-se uma figura mediática, que marca presença em vários eventos. Este ano, esteve na cerimónia de trasladação dos restos mortais de Eusébio para o Panteão Nacional e recordou que o jogador ofereceu uma camisola número dez a Álvaro Cunhal.

No ano passado, quando Carlos do Carmo ganhou o Grammy, felicitou-o. E ter ido à apresentação do livro de Judite de Sousa sobre Cunhal mereceu-lhe não só agradecimentos da jornalista, como fotografias nas revistas sociais: “Uma palavra especial para si, Jerónimo de Sousa, por quem tenho uma enorme admiração. Sei que não é habitual a presença do líder do PCP neste tipo de eventos e, por isso, agradeço-lhe o facto de ter vindo.” Também esteve na antestreia do filme Até Amanhã, Camaradas, baseado no romance do histórico líder comunista Álvaro Cunhal e realizado por Joaquim Leitão.

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Aquela gente, daquele lugar, olha para mim como um igual, mas que é capaz de chegar à Assembleia da República e dizer umas coisas justas ao Governo, a Passos Coelho

“Caranguejo moído”

Hoje Jerónimo de Sousa, considerado ortodoxo e da linha dura do partido, ri-se das críticas que ouviu quando chegou a secretário-geral. Diz já ter provado que sabe ler, falar e até sabe dançar — como se viu nas imagens da campanha para as presidenciais de 1996, desliza os pés com agilidade pela pista de dança, enquanto põe a mão na testa como quem avista um navio ao fundo. Mas não sabe, por exemplo, ou não domina totalmente a língua inglesa. Até o que podia ser um embaraço, o secretário-geral usa a seu favor. Numa entrevista ao humorista Ricardo Araújo Pereira contou que, num encontro com a rainha da Dinamarca, foi obrigado a pedir ajuda a um deputado do PSD para comunicar. A rainha dirigiu-lhe a palavra e ele, calado a um canto a ver os outros nas “mesuras” e a exibirem o inglês, teve de dar resposta. E até sua majestade, que estaria entediada com o protocolo, terá ficado rendida à conversa. O secretário-geral falou-lhe de Portugal, de como era um país “magnífico” onde havia um “peixinho” e um “vinhinho tinto que é uma categoria”.

Jerónimo de Sousa nasceu em Pirescoxe, concelho de Loures. É lá que tem raízes e, apesar de dizer que as intervenções que faz na Assembleia da República são dirigidas a todos os portugueses, é naquela comunidade que muitas vezes pensa. “Aquela gente, daquele lugar, olha para mim como um igual, mas que é capaz de chegar à Assembleia da República e dizer umas coisas justas ao Governo, a Passos Coelho.”

Tratam-no por camarada, mesmo que não sejam do partido. Quando o vêem na televisão, dizem-lhe se esteve bem ou se devia ter dito algo e não o fez. Mas nunca que não o perceberam. Nas arruadas ou no Parlamento, é o mestre dos dizeres populares.

O ex-líder parlamentar comunista e presidente da Câmara Municipal de Loures, Bernardino Soares, recorda que, quando se começou a falar dos cortes nos salários e pensões, Jerónimo de Sousa levou para o Parlamento a palavra “roubo”. A direita ficou incomodada.

Em 2013, chamou “trapaceiros e malabaristas” ao primeiro-ministro e vice-primeiro-ministro. Já disse que o Governo era um “pau-mandado” do poder económico. Este ano avisou que “o Governo promete as reposições salariais para o dia de São Nunca à Tarde” e, no debate do estado da nação, quando o primeiro-ministro falou nas dez pragas deixadas pelo Governo Sócrates, ironizou: Passos Coelho também não foi o insecticida. No meio da polémica sobre as dívidas do primeiro-ministro à Segurança Social, rematou: “Este Governo já não tem ponta por onde se lhe pegue.”

Quanto ao PS, ilustrou: “Não é carne, nem peixe”, parece mais “um caranguejo moído”. E já lamentou que o Presidente da República, Cavaco Silva, queira, nas eleições legislativas que se avizinham, “aprisionar” o voto ao PS, PSD e CDS. “Perante isto, é caso para usar aquela expressão popular e fazer um apelo: não lhes dês cavaco.”

No ano passado, o secretário-geral pediu uma audiência ao chefe de Estado: queria que dissolvesse a Assembleia da República e convocasse eleições antecipadas. O encontro foi captado pelo fotógrafo do PÚBLICO Daniel Rocha e a imagem não podia expressar melhor o desconforto entre os dois. Jerónimo de Sousa ressalva o “respeito no quadro institucional”, mas admite: há fotografias que conseguem “pôr o coração nos olhos”.

Quando Cavaco Silva comentou um eventual Grexit com a frase “a zona euro são 19 países, espero que a Grécia não saia, mas se sair ficam 18”, o líder comunista não perdeu tempo: “Para ele, [a Grécia] é uma folha de couve e veio um burro e comeu-a.”

Numa reportagem de Idálio Revez, no PÚBLICO, durante a campanha para as europeias de 2014, lia-se: “O feirante João Jerónimo, de 77 anos, ajeita o chapéu preto, chega já quase no final dos discursos, com o folheto da CDU na mão: ‘Não sei ler, mas percebo bem o que diz este homem’.” Até quando perdeu a voz num debate televisivo para as legislativas de 2005, colheu elogios.

Amigos de direita

Já respondeu vezes sem conta, por exemplo, a questões sobre a Coreia do Norte. Recusa que o regime (oficialmente socialista, de partido único e com graves violações dos direitos humanos) seja um embaraço para o PCP e usa sempre o mesmo argumento: não existe um modelo único e a construção do socialismo depende sempre da realidade histórica e cultural de cada país, repete-nos na Quinta da Atalaia. “Dizer que temos diferenças enormes em relação à Coreia do Norte é uma coisa que assumimos designadamente em tese de congresso.”

Além de sublinhar que o PCP já fez uma reflexão sobre “as falhas que houve na construção do socialismo” em alguns países, faz ainda questão de ressalvar que o partido é contra o igualitarismo: a cada um deve ser reconhecido “o seu próprio mérito”. Um “operário qualificado ou técnico especializado” não deve ter “o mesmo vencimento, os mesmos direitos do que alguém que não se preocupou em ter uma formação, uma qualificação”. Isso não quer, porém, dizer que “muitos que não a têm, por dificuldades diversas, sejam preteridos e postos de lado”.

No ano passado, Jerónimo de Sousa regressou a Cuba, onde esteve com Raúl Castro pela primeira vez e com quem conversou quatro horas. Falaram sobre a revolução cubana, mas não só. “Foi uma conversa entre dois amigos, dois camaradas, de conversa solta, troca de opiniões”, recorda o secretário-geral, que vê o reatar de relações diplomáticas entre os Estados Unidos e Cuba como um “avanço”, num “processo que ainda não terminou”, sendo necessário resolver a questão “central” do bloqueio económico.

Sobre a viagem à China em 2013 (foi ainda ao Vietname e ao Laos), garantiu ao Jornal de Negócios que vincou o desacordo do PCP em relação às privatizações: “A Portugal o que é de Portugal, aos chineses o que é dos chineses.”

Casado, pai de duas filhas (uma do Benfica, como o pai, outra do Porto), Jerónimo de Sousa nasceu a 13 de Abril de 1947 e é militante desde 1974. Não tem na sua biografia a clandestinidade ou a prisão. É o afinador de máquinas, que esteve na Guerra Colonial, que frequentou um curso industrial à noite, que chegou a deputado na Constituinte (1975-76) e na Assembleia da República. Ele que perguntou a um camarada da direcção do partido: “Como é que se faz isso, ser deputado?” O camarada animou-o: “Tu sabes o que queres, o que defendes, és capaz de intervir num plenário com centenas de trabalhadores. Sabes como se organiza uma luta. Vais para ali nunca esquecendo quem és nem os valores que defendes. Não tentes ser o que não és, continua a ser quem és e vais ver que a tarefa se realiza.” Seguiu à risca o conselho e não se arrepende: “Ao longo destes mais de 30 anos de mandato institucional, todos aqueles que pretendem ser quem não são acabam por falhar.”

Garante que tem, no seu círculo, amigos de direita e que há “gente séria em todos os partidos”. Curiosamente, o homem que lidera o partido a quem muitos apontam intransigência no diálogo diz-nos com toda a calma que a procura de soluções implica um debate franco. “Não sou dono da verdade absoluta.”

Porque segue, então, o PCP um caminho de ataque ao PS e de recusa de entendimentos? Jerónimo de Sousa discorda em absoluto que o partido recuse o diálogo, o compromisso ou as alianças. Argumenta que não pode “andar a dizer uma coisa ao povo português e depois fazer outra”. E elenca a renegociação da dívida, o Tratado Orçamental ou a Segurança Social como alguns temas dos quais não abre mão e para os quais, entende, os socialistas não têm respostas de esquerda.

Repete há anos que admite ser Governo se, nas urnas, os portugueses derem força à CDU (coligação com o Partido Ecologista Os Verdes) e sobre a relação com o PS reafirma: “Entendimentos, compromissos em troco deste ou daquele lugar é fácil. O PCP quer assumir compromissos e fazer alianças com base em políticas claras que visem designadamente uma política patriótica e de esquerda capaz de resolver os problemas nacionais.” E devolve a pergunta: “Então e o PS, o que é que quer?”

Só o facto de ser do Benfica tem merecido as poucas trocas de palavras simpáticas com o líder socialista António Costa: “Vi a entrevista dele ao Negócios e podemos encontrar aqui um ponto de consenso. Somos os dois benfiquistas”, disse ao mesmo jornal Jerónimo de Sousa, que, ao contrário da forma como o histórico líder Álvaro Cunhal protegia a intimidade, fala sobre os netos, ouve Beatles e gosta de cantar.

Amor e cerveja

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O PCP quer assumir compromissos e fazer alianças com base em políticas claras... capazes de resolver os problemas nacionais. Então e o PS, o que é que quer?

A Ricardo Araújo Pereira contou que a neta, na altura com três anos, o viu na televisão a fazer um mimo a uma criança e não gostou: “Esse comunista não é teu, é meu.” O humorista brincou: então a criança considera o avô propriedade privada? Nos afectos, sem dúvida, anuiu o secretário-geral.

Durante a conversa na Quinta da Atalaia, volta a falar, divertido, dos ciúmes da neta. No fim de um comício na Festa do Avante!, quando toda a gente quer cumprimentar o secretário-geral, a miúda, então com oito anos, pediu-lhe colo. Só depois de terem passado a multidão é que a menina perguntou: “Achas que já posso descer, avô?”

Começou a trabalhar na adolescência, apesar de um professor insistir que ele devia continuar os estudos. A mãe lamentou: era preciso contribuir para o orçamento familiar, Jerónimo tinha cinco irmãos.

Seria afinador de máquinas. Hoje recebe pouco mais de 800 euros, o que ganharia se estivesse na fábrica. O resto do salário de deputado vai, como é regra no PCP, para o partido.

Nunca pensou estudar mais. Mas se decidisse agora fazê-lo, escolheria letras ou teatro — na Colectividade de Santa Iria da Azóia, diziam-lhe que ia longe como actor. De certa forma, foi. Há sempre uma componente teatral quando se intervém na Assembleia da República.

Como tinha jeito para as palavras, durante a Guerra Colonial, na Guiné-Bissau, os companheiros pediam-lhe para escrever cartas de amor. Jerónimo de Sousa fazia-lhes a vontade a troco de cerveja. Perguntava-lhes como era a rapariga e, depois, dava azo à imaginação. Resultava, elas respondiam. “Sou responsável por alguns casamentos e namoros.”

Também se lembra de ler histórias para a mãe, que era analfabeta, enquanto ela costurava. A mãe Olímpia que fazia milagres com o orçamento familiar e “teria dado uma excelente ministra da Economia”, diz. Tinha um orgulho desmedido no filho: “Ai de quem falasse mal do seu menino e do PCP”, sorri Jerónimo de Sousa, que fala muito mais da mãe do que do pai, que era mais reservado.

Na noite em que o filho partiu para o Porto, antes de ir para a guerra, o pai deu-lhe 50 escudos. “O esforço que aquele homem não teve de fazer para me dar aquelas poupanças, ele achava que era uma fortuna.”

Jerónimo de Sousa usou, e continua a fazê-lo, a sua experiência de vida como trunfo: “Descobri a chave do segredo para ser um deputado igual aos outros, mas com características próprias, falando daquilo que sabia falar.” Dá um exemplo: “Na [Assembleia] Constituinte, quando na comissão respectiva, se discutiu o direito à greve, consagrado hoje na Constituição, eu discutia com doutores, pessoas formadas, não tanto no plano técnico, na solução técnico-jurídica, mas partindo do conhecimento que tinha por que se fazia uma greve, como se fazia, qual o âmbito dos interesses a defender.”

É difícil detectar incoerências no discurso de Jerónimo de Sousa nestes quatro anos. Ou mesmo recuando no tempo. O vocabulário comunista repete-se há anos. No programa eleitoral para as legislativas, lê-se, por exemplo, que querem estudar e preparar o país para se libertar da “submissão” ao euro. O tema é antigo, o PCP sempre olhou com cepticismo para a moeda única.

Uma das novidades assinaladas pelo historiador e ex-militante do PCP José Neves nestes anos foi a forma de ocupação das ruas. As grandes manifestações deixam de ser só as das centrais sindicais, em particular da CGTP, e passam a ser também as chamadas inorgânicas, de movimentos sem ligações a partidos. A primeira, pouco antes de este Governo tomar posse, foi a da Geração à rasca, em 2011. No ano seguinte, Que se lixe a troika! Queremos as nossas vidas! foi considerada uma das maiores em Portugal desde 1974.

Para José Neves, o PCP “mudou um pouco nestes últimos quatro anos” ao mostrar “alguma simpatia e tolerância” por esses movimentos. Em alguns casos, foi até “obrigado a ir atrás”.

Mas o partido chegou a ser acusado de se afastar desses movimentos, que de certa forma poderiam ameaçar o poder do PCP sobre as ruas. Em 2012, ao Jornal de Notícias, Jerónimo de Sousa explicava: “Consideramos que a luta organizada tem muita força e mete muito medo e é por isso que nós, sem fazermos um abraço de urso a esses movimentos, que têm a sua própria dinâmica, podemos perfeitamente confluir e convergir com esse movimento espantoso de luta que existe.”

PCP “tem de mudar”

PÚBLICO - 11 de Fevereiro ?de 2012: manifestação organizada pela CGTP contra as medidas de austeridade ?do Governo ?e exigência ?do aumento do salário mínimo
11 de Fevereiro ?de 2012: manifestação organizada pela CGTP contra as medidas de austeridade ?do Governo ?e exigência ?do aumento do salário mínimo Nuno Ferreira Santos
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Entre 5 e 10 de Janeiro de 2014, o secretário-geral esteve em Cuba, onde se encontrou com o Presidente Raúl Castro DR
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30 de Maio de 2014: debate da moção de censura apresentada pelo PCP e chumbada pela maioria Daniel Rocha
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16 de Junho de 2014: audiência pedida pelo PCP ao Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva Daniel Rocha
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As manifestações inorgânicas, o surgimento do Bloco: o mundo gira, o PCP resiste. Aliás, nos últimos anos já ninguém anuncia a morte do partido, diz José Neves: “A expectativa da morte do PCP foi mais do que recorrentemente anunciada. O PCP não sobreviveria à queda da União Soviética, à criação do BE. E, aparentemente, o Bloco tem mais dificuldades de sobrevivência.”

Nas eleições autárquicas, em 2013, a CDU aumentou o número de câmaras. Nas europeias de 2014, conseguiu um resultado histórico, elegendo três eurodeputados. E conseguiu fazer uma renovação: no ano passado tinha a bancada mais jovem da Assembleia da República.

Essa sobrevivência tem, porém, o reverso da medalha: o PCP é um partido “mais consolidado, no bom e no mau sentido”: não morre, mas também não tem agilidade para ir muito mais longe. “Um problema” que ainda não enfrentou “com a energia necessária”, defende José Neves.

Despindo-se da pele de historiador, já como cidadão, o ex-militante mostra a sua perspectiva crítica: “O PCP tem um desafio que é perceber que pode mudar, tem de mudar na sua organização política, na linguagem política. E mudar não significa aproximar-se do PS. Mudar não significa aproximar-se do centro, não significa deixar de ser radical.” Significa ir à raiz do tempo em que se encontra, defende Neves, para quem “o PCP pode agir, intervir, posicionar-se politicamente de formas inovadoras, arriscando-se e sendo mais ousado na construção das suas alianças políticas”. E isso “não tem em nenhum momento de significar uma cedência”.

José Neves deixou o PCP na década de 1990, não saiu “zangado”. Foi na altura da disputa entre ortodoxos e renovadores e, embora mais perto da vontade de redemocratização da vida interna do partido, acabou por não se identificar totalmente com o que era proposto. Tal não significa, no entanto, que alinhe na tese de que o PCP é apenas uma força importante da sociedade portuguesa: “O PCP não deve ficar contente com isso e acho que não fica. É um partido importante para a transformação da sociedade.”

Sobre o desempenho de Jerónimo de Sousa nestes quatro anos, entende que se confirmou como “uma figura bastante mais valiosa, mais importante do que alguma vez dele se esperou”.

Recorda-se do momento em que Jerónimo de Sousa se tornou secretário-geral, dos artigos de opinião nos quais se dizia que era “um ortodoxo”, um operário que não sabia falar, seria o fim do PCP. Agora, diz, “a sua figura tornou-se em alguns aspectos maior do que o PCP”. É este líder que gera frases como: “Eu não sou comunista, não voto PCP, mas gosto dele.”

Pedimos ao marketeer Pedro Bidarra um olhar sobre o partido, que vê como conservador, e o seu líder, que vê como “um senhor, um clássico, um avô”. É a imagem que passa: de “maturidade”, de homem “mais velho”, com “uma segurança que vem com a idade”.

Uma vez, um CEO seu amigo estava atento a um fórum na rádio sobre a situação na Grécia e disse-lhe que, entre todos os intervenientes, o único que se conseguia ouvir era Jerónimo de Sousa. “Fala com sensatez, com um salamaleque na conversa, não é um fedelho”, brinca. Apela àquele “respeito devido aos mais velhos”, embora Bidarra acredite que mantém “lá dentro a chama extremista”. Jerónimo de Sousa é, desde Cunhal, “o que encarna melhor o que é o PCP”, um “caso de sucesso”.

Octávio Teixeira destaca nestes quatro anos a coerência de Jerónimo de Sousa, mesmo que para os mais críticos ela signifique respostas antigas para novos problemas. Para o ex-líder parlamentar comunista, o PCP não tem de encontrar outras respostas ou adaptar o discurso a novas realidades, como, por exemplo, a dos trabalhadores precários. “O trabalho precário não é uma novidade sociológica, resulta de políticas erradas que são aplicadas e que, no caso social, [implicam] a desvalorização completa do trabalho. É evidente que não pode haver adaptações, deve haver a coerência de continuar a combater isso.”

Esta é, de resto, a posição do secretário-geral, para quem não são precisas novas respostas, porque, apesar de o mercado laboral ter mudado, o problema essencial continua a ser o confronto capital-trabalho. “Recusamos e entramos em divergência com sectores de esquerda quando tentam criar uma nova classe de precários.”

“Político vintage

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Como é possível aceitar que um homem tenha o direito de explorar outro? Não há-de ser sempre assim

Para o marketeer Carlos Coelho, Jerónimo de Sousa representa “uma marca do século passado, herdeira de uma aura espiritual” de Cunhal, embora “mais físico e menos cerebral”. Por ser uma “marca forjada a aço do metalúrgico que se fez deputado e subiu pelo próprio pulso”, que fez um “percurso diferente dos outros”. Por continuar a defender de forma “genuína e orgulhosa a sua condição de trabalhador do século passado”.

Pode ser o “menos actual” dos políticos, mas “é muitíssimo genuíno”, diz Carlos Coelho, para quem a “simpatia natural” de Jerónimo de Sousa pode parecer “vulgar”, mas não é. “Nada vulgar”, sublinha. “É o avô lúcido e fisicamente apto da política nacional. É o político coerente numa casa de aço que se mantém fiel ao seu passado de trabalho, ainda que já não o tenha há anos”, acrescenta.

O melhor de Jerónimo de Sousa acaba por ser o pior: o aço com que se ergueu permite-lhe ter um “percurso coerente, sólido”, mas ao mesmo tempo mais estático, menos capaz de se modernizar.

“O facto de ser do século passado poderia não ser mau, dava-lhe sabedoria, pátina, mas não lhe dá nenhuma vantagem para os desafios contemporâneos.”

De qualquer forma, nota Carlos Coelho, ninguém está à espera que Jerónimo de Sousa se modernize: o secretário-geral tem “sucesso” porque mantém “o espírito de uma época”, dura pela sua “imutabilidade”, é um “político vintage”.

O secretário-geral contrapõe: “Tenho a idade que tenho e, no entanto, continuo a ter mais projecto do que memória.”

Na Quinta da Atalaia, quando estava a ser montada a festa que termina hoje, Jerónimo de Sousa não admite só que não é dono da verdade, o comunismo também não o é. Só que isso não quer dizer que não continue a acreditar nele. Acredita tal e qual como quando era adolescente e levou, na fábrica, a primeira lição de marxismo, ao perceber que estava a ser explorado, que devia ganhar mais.

Para o líder do PCP, o projecto comunista continua “bem vivo” e a “iluminar o caminho dos que continuam a lutar pela concretização das mais profundas aspirações do povo”. Estas foram as palavras que usou em 2013, no centenário do nascimento de Cunhal e na abertura do Congresso Álvaro Cunhal — O Projecto Comunista, Portugal e o Mundo de Hoje.

A questão para o líder comunista continua a ser a mesma de sempre: “Como é possível aceitar que um homem tenha o direito de explorar outro?” Para um homem que apesar das reprimendas nunca aprendeu a escrever com a mão direita, a esquerda sempre se impôs. Na escrita e no resto. Continuará canhoto e a acreditar: “Não há-de ser sempre assim.”