Editorial

A difícil posição de António Costa

As sondagens são fracas, a mensagem não passa e Sócrates chegou à cidade. Como sair deste labirinto?

Pode a nova situação de José Sócrates perturbar a campanha do PS? Pode, se for essa a sua vontade e, se o objectivo for esse, António Costa pouco pode fazer. Mas uma coisa é Sócrates agir isoladamente sem a participação ou a conivência de figuras importantes do universo socialista, outra é vê-los alimentar romarias ou a produzir declarações que contribuam para ampliar o ruído à volta da campanha. Se tal acontecer, isso significa que Costa não consegue controlar o seu partido, colando a si uma imagem de fragilidade que lhe pode ser fatal.
A questão que hoje se coloca é se o secretário-geral do PS mantém hoje, perante o partido, a mesma força e autoridade que tinha quando, em Novembro de ano passado, Sócrates foi detido no aeroporto de Lisboa, no regresso de uma viagem a Paris. Ora a resposta a isto é que Costa não está agora na mesma posição. Na altura, conseguiu, com uma simples frase, impor uma fronteira entre o PS e um caso judiciário, apesar do rosto desse caso ser um ex-primeiro-ministro socialista. Evitou, assim, qualquer tentação de confundir a acção político-partidária com o decurso do inquérito judicial, o que obviamente prejudicaria o PS; e travou uma mistura explosiva capaz de subverter a separação de poderes, um dos principais fundamentos do Estado e Direito.

Mas isso foi há dez meses atrás. Agora, as sondagens dão o PS colado à coligação, a campanha mostra-se (ainda?) incapaz de acertar no tom ou no alvo, a mensagem tarda em ganhar segurança e consistência, tudo dificuldades que nos remetem para uma fragilidade que seria inimaginável estar a acontecer nesta altura. Acresce que o presente (e justificável) distanciamento de Costa face a Sócrates fez aumentar o peso dos seus críticos internos, o que torna ainda mais difícil a sua gestão dentro do PS.

Os primeiros sinais do próximo futuro também não são encorajadores. Do lado de António Costa, foi decepcionante a primeira declaração feita sexta-feira à noite, logo após a saída de Sócrates da cadeia de Évora. O líder socialista apareceu inseguro, como se tivesse sido apanhado de surpresa, quando este acontecimento era mais que previsível, competindo-lhe apenas ter todas as respostas e todos os cenários estudados e na ponta da língua. Ontem de manhã, no norte, corrigiu a pose e surgiu bastante mais seguro, não se afastando um minuto do objectivo daquela acção de campanha. Veremos se consegue resistir ao que aí vem. E bem pode ir afinando a sua resiliência porque do lado socrático, não vai ter a vida facilitada. Menos de doze horas do ex-líder entrar na nova morada, já os seus advogados davam uma conferência de imprensa repisando a mesma mensagem de sempre: José Sócrates é inocente e a prova disso é que o Ministério Público não consegue deduzir-lhe a acusação; a prisão preventiva é uma “manobra de propaganda” que serve para esconder a natureza política do processo. Ou seja, Sócrates quer colocar o seu caso no terreno da política, o lugar de onde Costa quer fugir a todo o custo. Não está nada fácil a vida do secretário-geral do PS.