Programa Próximo Futuro chega ao fim

Desde 2009, o Próximo Futuro foi a porta por onde aquilo a que dantes chamávamos Terceiro Mundo entrou na Gulbenkian. Agora que a porta se fecha de vez, António Pinto Ribeiro, o seu programador-geral, faz um balanço.

António Pinto Ribeiro faz um balanço em que fala da genealogia e dos frutos deste programa de cultura contemporânea que criou e dirigiu desde 2009
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António Pinto Ribeiro faz um balanço em que fala da genealogia e dos frutos deste programa de cultura contemporânea que criou e dirigiu desde 2009 Miguel Manso

O Próximo Futuro entra agora na recta final. Não desta edição, mas de todo o programa. E traz teatro da América que não manda no mundo e da Europa que incomoda. Foi, aliás, para dar voz aos criadores e intelectuais de latitudes muitas vezes arredadas das programações que, em parte, nasceu.

Nesta breve entrevista, António Pinto Ribeiro (Lisboa, 1956), o seu programador-geral, faz um balanço em que fala da genealogia e dos frutos deste programa de cultura contemporânea que criou e dirigiu desde 2009. Um balanço em que fica de fora a polémica com o Conselho de Administração da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG, que levou ao seu afastamento no final de Abril, quando deveria manter-se em funções até ao final de 2016, pelo menos –

 

o seu nome chegou a ser anunciado para um novo cargo que deveria assumir já no início do próximo ano, o de coordenador-geral de toda a programação cultural da fundação. Cargo que, garante, nunca chegou a aceitar, alegando falta de margem de manobra para tomar decisões e um “desencontro total” entre a sua visão e a do Conselho de Administração sobre o que deve ser a oferta artística de uma instituição como a Gulbenkian. 

A ruptura tornou-se inevitável quando, em declarações à agência Lusa, Pinto Ribeiro acusou o órgão presidido por Artur Santos Silva de “censurar” a venda na loja da fundação de uma BD – Papá em África  do sul-africano Anton Kannemeyer, um dos convidados do Próximo Futuro. Santos Silva negou tê-lo feito e afastou Pinto Ribeiro do programa, “com efeitos imediatos”, invocando “quebra de confiança institucional”. 

Agora que está prestes a chegar ao fim, é altura de olhar para este futuro e perguntar o que é que nos trouxe. Isto enquanto ainda faz parte do presente.

O que é que o Próximo Futuro (PF) deixa na Gulbenkian e fora dela?

O PF deixa para todos os que nele participaram, em Lisboa e fora de Lisboa, uma nova representação de África e da América Latina, outro modo de fazer programação que pode ser diferente de uma certa mesmização europeia, a prova de que a crítica e a festividade podem muitas vezes ser consonantes. Deixa também um conjunto imenso de memórias pessoais e comunitárias resultantes do que nos foi possível colocar de novo no mundo: as lições de Alain Pauls, os toldos de sombras e de desenhos, a emergência do teatro chileno, os concertos no anfiteatro, o novo cinema árabe ao ar livre, a dança uruguaia, Breyten Breytenbach, as múltiplas edições de debates nas tendas, as fotografias vindas de África, os inéditos bailes na garagem...


Dizem algumas vozes críticas que o programa não deixou raízes, experiências duradouras que hão-de resultar noutras coisas, ao contrário do que aconteceu, por exemplo, nos Encontros Acarte, absolutamente fundadores. Como reage a estas críticas?

O PF é o desenvolvimento lógico de um programa iniciado anos anteriores onde o modo de ver a criação artística se cruzava com a possibilidade de uma política cultural cosmopolita, o debate público e a produção de teoria. Quando em 2004 o Rui Vilar me convidou para colaborar com uma FCG que fosse do século XXI, propus dois projectos de programa: o Programa Criatividade, uma formação de excelência artística que realizei com a Catarina Vaz Pinto e de que resultou a criação de toda uma geração de artistas – da encenação ao cinema –, e a criação de uma plataforma europeia de criação e difusão artística diferenciada e inovadora. Esta última teve como expressões da sua realização o fórum O Estado do Mundo – dois anos de produção e apresentação de mais de uma centena de obras, presença em Cannes com filmes produzidos, livros editados, etc. E nesta altura a FCG deveria ter assumido com este projecto uma viragem fundamental nas suas linhas programáticas. Tal não aconteceu, mas mesmo assim seguiu-se a colocação na agenda da Gulbenkian de questões de interculturalidade, pós-colonialismo, pós-nacionalismo, da urgência de produção artística e da emergência de protagonistas exteriores à Europa. O PF era o resultado sincrético destes projectos que o antecederam. 

Mas deixou marcas que ficarão depois dele?

Tenho para mim que, depois do momento da criação do Serviço de Música na década de 60 e do Acarte, o PF foi o terceiro momento mais importante em termos de resposta pertinente e substantiva aos desafios da contemporaneidade. A FCG é uma organização complexa porque sendo simultaneamente uma máquina com raras capacidades de produção e difusão é também um poderoso instrumento de poder e da sua distribuição. Esta situação gera um paradoxo que começa por se sentir no interior, com muitas dificuldades de contágio entre áreas, e depois no exterior, onde as questões de uma cultura contemporânea crítica têm dificuldades em tomar lugar. O PF era um programa de acessibilidade democrática, mas minoritário. Estas características não são um defeito, pelo contrário: na sociedade de consumo fácil e massificado, são enormes atributos que, aliás, exigem conhecimentos especializados e redes de contacto particularmente complexas e antigas. No que diz respeito ao capítulo das raízes, e ainda antes que passe algum tempo, prefiro as raízes pequenas mas sólidas e capazes de coabitarem com outras às raízes do eucalipto que desertificam tudo o que está à volta. Também creio que uma raiz só se cria se a terra que a acolher for boa e quem a cultivar for cuidadoso.


Na altura da ruptura, referiu que o programa era uma maneira de ligar a Gulbenkian ao mundo de hoje e que sem ele lhe faltava contemporaneidade na programação. Em que medida e em que áreas foi o PF inovador?

Há dois aspectos que diferenciaram o PF: um de metodologia, e que estava associado à programação de contornos mais críticos, à produção de teoria, ao trabalho com centros de investigação. As centenas de intelectuais, artistas, cientistas sociais – actores e protagonistas inovadores –, os ensaios, lições e debates produzidos tinham por objectivo contribuir para a formação de massa crítica que fosse para além das rotinas académicas e de um certo nacionalismo que por vários motivos, entre os quais a nossa condição periférica, subsistem. O outro, traduzido na produção e apresentação de exposições, concertos, filmes e espectáculos correspondia a uma ideia de festividade que é uma característica da modernidade europeia, das poucas que ainda não se esgotaram. África, América Latina e Mediterrâneo foram aqui fundamentais nos seus contornos mais inovadores e mais dinâmicos pela simples razão de que é nestas regiões que emergem os grandes problemas e que se vive uma energia criativa ímpar. A contemporaneidade não é sinónimo de novidade. Pode ter-se uma abordagem actualizada e dinâmica a outras actividades: a Biblioteca de Arte, o jardim e o Museu Gulbenkian são bons exemplos. 

Há certamente quem veja na programação regular da Gulbenkian uma solidez e uma qualidade inabaláveis a vários níveis. Sem PF, como é que a define?

O PF trouxe novos protagonistas e um novo público que encontrou neste programa o seu lugar, o seu abrigo, a sua ponte com o mundo e muitas das chaves para o seu entendimento. Um público exigente, crítico, mas também resistente. Temo que esse público e os seus actores se sintam órfãos. Como grande máquina que é, a fundação tem alguma diversidade de outros públicos, alguns dos quais, como diz, vêem na programação regular uma solidez e qualidade inabaláveis. Ainda bem para esse público.

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Teatro chileno. Neva, de Guillermo Calderón, inaugurou em 2010 o ritual anual de auscultação de um fenómeno: o fulgurante teatro chileno, quase sempre hiper-político, a que o Próximo Futuro dedicou uma particular atenção DR
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Arte para os jardins. Os toldos ficarão como uma das imagens de marca do programa de António Pinto Ribeiro — e da sua militante inscrição nos jardins da Gulbenkian DANIEL ROCHA
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Fotografia africana. Este é o Lugar, do sul-africano Pieter Hugo, foi apenas a última manifestação (2014) do caso que o Próximo Futuro teve com a fotografia africana DR

Há espaços para outros PF noutros espaços culturais do país? Que espaços?

Sim, haverá com certeza, talvez não em forma de ilha mas de arquipélago.