Leonhard Foeger/Reuters
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Refugiados: a Europa não ajuda quem pode, mas quem quer

Nunca esperei um dia ver comboios cheios de gente a serem desviados para campos ("de concentração") de refugiados

O drama dos refugiados não é de ontem nem deste século. Mesmo assim, é de bradar aos céus a inércia europeia, a inércia global, face a uma situação extrema onde o desespero faz com que mães e pais se façam ao mar com os seus filhos. Apenas desespero existe quando pomos em risco o que temos de melhor. Apenas uma situação de morte certa faria mães e pais arriscar um trajecto de morte iminente pela salvação dos seus filhos.

Multiplicam-se as notícias de vidas perdidas no Mediterrâneo, mas ainda que o trajecto seja bem-sucedido, as garantias de chegada à “terra de leite e de mel” dos tempos modernos não está garantida, pois os governos não facilitam nem a vida aos seus cidadãos, quanto mais aos refugiados. Diariamente, nascem leis e decretos em tudo iguais a cercados de arame farpado que fecham as portas a quem já passou por muito para ali chegar.

Revolta-me que a tragédia fora da Europa ainda seja tão irrelevante para um continente que se comove com atentados em capitais europeias e que todos os dias deita confortavelmente a sua cabeça num travesseiro burocrático que impede que quem pede a nossa ajuda consiga ser ajudado.

A Europa não ajuda quem pode, mas quem quer. Neste momento, homens como Aristides de Sousa Mendes ou Oskar Schindler veem as suas memórias atormentadas por uma ausência de resposta que daria à Europa a hipótese perfeita de se redimir das suas vergonhas passadas. Nunca esperei um dia ver comboios cheios de gente a serem desviados para campos ("de concentração") de refugiados.

Apesar de tudo, todos os dias surgem almas nobres (ou serão apenas seres humanos conscientes?) que juntam esforços e honram o ideal europeu (ou humano?), para que se consiga, ao mesmo tempo, o acolhimento dos refugiados e a resolução definitiva do conflito.

Agora, a questão é: como se resolve um conflito em que uma das partes não está minimamente interessada em resolvê-lo? E a nós, a Europa da cultura, da História, da Paz, quem nos salvou? Quem acolheu os nossos refugiados de guerra? Quem interveio no nosso conflito que rapidamente se tornou mundial? Quem acolheu os filhos das vítimas de guerra antes que esses dessem a costa, como se o próprio mar se compadecesse daquelas crianças? Poderão não ter sido os Sírios mas, na altura, soube bem, não soube?

Neste momento, à luz da tragédia que todos os dias nos entra pelos olhos, apenas queria que a minha Europa voltasse a ser um exemplo de boa governação, convergência de ideais e união do todo pelo singular e não apenas uma imensa jangada de pedra, cada vez mais à deriva, refugiando-se dos refugiados.