Quem matou Roland Barthes?

O novo romance de Laurence Binet, La Septième Fonction du Langage, é o tema de que mais se fala nos meios literários franceses.

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Afinal, Barthes morreu assassinado — é a tese (ficcional, claro) do novo romance de Laurent Binet DR

Saiu para as bancas na segunda quinzena de Agosto e parece ser o livro de que mais se fala nos meios literários franceses. A AFP diz mesmo que La Septième Fonction du Langage (à letra, "A sétima função da linguagem"), quinto título na carreira de Laurent Binet (n. Paris, 1972), é “o romance mais divertido e o mais sábio da rentrée literária” do país.

No centro da intriga está uma figura reverencial da cultura francesa do século XX, Roland Barthes, o escritor, semiólogo e crítico que morreu em 1980, aos 64 anos, depois de ter sido atropelado pela carrinha de uma lavandaria numa rua de Paris. Ou talvez as coisas não tenham acontecido bem assim… – ficciona Laurent Binet, que em La Septième Fonction du Langage, põe o autor de Fragmentos de um Discurso Amoroso a ser atropelado no dia 25 de Fevereiro daquele ano não por acidente mas vítima de um assassinato. O móbil do crime? Barthes estaria na posse da “sétima função da linguagem” – que permitiria “convencer não importa quem a fazer não importa o quê não importa quando…” –, completando o leque antes fixado pelo linguista Roman Jakobson nos anos 50.

No seu romance, Laurent Binet – que é professor de Literatura na Universidade de Paris – encena um intrincado inquérito policial a decorrer em paralelo com a campanha presidencial francesa que em 1981 levaria François Miterrand a suceder a Valery Giscard d’Estaing. Mas envolve também na história muitos outros nomes da intelligentsia francesa da época, de Michel Foucault a Gilles Deleuze, de Jacques Derrida a Julia Kristeva, de Hélène Cixous a Philippe Sollers, e inclui ainda Umberto Eco – sendo a cidade onde este vive, Bolonha, um dos cenários desta intriga que passa igualmente por Veneza e pelos Estados Unidos, além de Paris.

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“Eu não o matei, e ele morreu mesmo num acidente”, diz Laurent Binet em entrevista à AFP, desarmadilhando qualquer intenção menos aceitável do que o puro “prazer do texto”, parafraseando uma expressão cara ao próprio Roland Barthes. E o escritor – que em 2010 foi prémio Goncourt para primeira obra pelo romance histórico HHhH, já então uma edição Grasset ( HHhH — Oper­ação Antropóide que está publicado em Portugal pela Sextante) – apressa-se também a dizer que “não tem nada contra Barthes”, admitindo mesmo inscrever-se na sua “herança”.

La Septième Fonction du Langage tem tido recepções desencontradas, inclusivamente entre as figuras nele citadas: a AFP diz que Cixous e Tiphaine Samoyault, uma biógrafa de Barthes, saudaram a irreverência do romance, enquanto Kristeva e Sollers nem tanto.

“O livro pode ser lido a diferentes níveis”, defende-se Binet, acreditando que vão multiplicar-se as diferentes reacções ao seu trabalho. “É essa a beleza do romance”, diz, lembrando a teoria da “obra aberta” defendida pelo próprio Umberto Eco.