Opinião

A coligação PAF em palavras-chave

Desde o início de Verão que estamos a ser infestados de varejeiras virtuais, através dos twitt e das apostilhas aos artigos na imprensa.

Afã. Impressiona a produtividade do governo neste final: Na Justiça vão ser colocados 517 novos oficiais, mas foram prometidos 600: que pensarão os 83 relegados? Cerca de 2900 novos funcionários vão ser colocados nas escolas, muitos com licenciatura. As aulas, porém, abrem uma semana mais tarde. Que pensarão pais e avós? Ao fim de um ano de espera, o INEM adquiriu monitores de sinais vitais para uso hospitalar, inadequados para ambulâncias. Alguns já avariaram. Quem responde pelo erro? O Governo aprovou legislação para pagar mais a médicos de família, em troca de alargarem as listas de utentes. Para os que estão em horário de 40 horas, passarão a ver nos consultórios entre 43 e 58 doentes, por dia. Ou seja, consultas de duração máxima entre 9,8 e 7,3 minutos. Resistirão doentes e médicos a este afã “stakanovista”?

Desconfiança. A coligação acha que os eleitores nela confiam por se esperar crescimento económico (metade de Espanha e um terço acima do grego). Por estarmos a exportar mais, graças a medidas do governo anterior (nova refinaria de Sines, fixação de uma grande unidade papeleira, indústria aeronáutica localizada, política agrária orientada para a modernização, incentivos fortes à reestruturação do calçado e têxtil, nova fileira energética, expansão externa da construção civil pesada, etc., etc.). Por estar a subir o investimento no imobiliário, desviando pequena poupança da insegurança bancária e dos baixos juros. Por baixar o défice (sem o Novo Banco) devido a nova subida brutal da receita fiscal.

Divisão. Como sempre, dividir para reinar: foi aprovado, ao fim de uma longa saga de incompetência política, o estatuto da PSP. Mas abandonando à sua sorte, para as calendas gregas, o estatuto da GNR. A Guarda já prometeu acertar contas nas vésperas da eleição.

Obsessão. O Governo entonteceu com o fumo da destruição do património público. Primeiro os cimentos, depois a ANA, os CTT de sopetão, a seguir a TAP e agora os transportes colectivos e o metro do Porto. Como foi incompetente no concurso e o terreno lhe fugiu debaixo dos pés, a fúria redobrou, propondo a passagem a ajuste directo, sem tempo suficiente para propostas decentes nem avaliação criteriosa, colocando contra si todos os municípios os quais representam, afinal, os utentes. Como se o mundo acabasse amanhã. “Uma decisão vergonhosa” foi como um conhecido comentador de direita catalogou o feito. Na Educação e na Saúde o governo delicia-se com o definhamento da escola pública e do SNS. Mais 140 milhões para colégios e mais centena e meia de milhões para, sem concurso, se comprarem cirurgias electivas ao sector social, numa pretensa concorrência, quando cada produto é diferente pelas desiguais condições quer da oferta, quer da procura. Descartando os valores da escola pública e da saúde pública que visam a equalização de condições desiguais para que o elevador social funcione.

Promessas. Quando se acorda tarde, promete-se fazer tudo em menos tempo: Mais unidades de saúde familiares, mais unidades de cuidados continuados, mais endoscopias digestivas, mais equipamento de alta tecnologia para a saúde, depois de quatro anos de hibernação. Até Passos chegou a prometer para o corrente ano erradicar a praga dos doentes sem médico de família. Não podendo ser este ano devolvida parte da sobretaxa do IRS, promete-se que tal se fará no próximo ano, em pelo menos 25%. Que crédito merecem estas profetas, depois de subirem impostos, criarem sobretaxas, cortarem subsídios, reduzirem apoios sociais, tendo antes jurado por todas as alminhas que nunca o fariam?

Propaganda. O homem dos transportes, aureolado por zelo apocalítico, transporta-se em palavras enganadoras, tentando iludir os que ainda o ouvem. Acabou de negociar, disse ele, com os empreiteiros das estradas e seus financiadores, uma “poupança” que completa os 7,3 milhares de milhões de euros nas parcerias rodoviárias. O valor assombra qualquer mortal. Mas se virmos bem, a “poupança”, já de si diluída em quase 20 anos, afinal consiste na redução do objecto dos contratos, amputando troços, reduzindo obrigações de manutenção e a taxa de rentabilidade dos operadores privados. Ou seja, não há poupança, mas sim cortes. E quanto à taxa de rentabilidade, não parece merecer grande glória na sua redução, em contexto de juros extraordinariamente baixos graças ao “quantitative easing” que o Sr. Draghi adoptou, certamente com relutância do Dr. Passos e dos seus amigos fundamentalistas de mercado.

Reescrita. Alguns próceres da coligação PAF pensam que devem mudar o alvo para que a bala acerte: A Grécia é agitada como um fantasma, um potencial pesadelo para o PS. Pois bem, no segundo trimestre deste ano, com toda a instabilidade conhecida, a Grécia acabou por crescer 0,9%; Tsipras, antes considerado quase um malfeitor, afinal é hoje visto por Juncker e Schäuble como um parceiro credível. Alvo errado. O PS propõe utilizar mil milhões de fundos comunitários para reabilitação urbana, uma actuação que se ajusta como luva à política energética e de emprego de Bruxelas. A coligação PAF vem dizer que o dinheiro será retirado à nossa Segurança Social. Alvo errado. Uma ministra do CDS em visita oficial ao Alqueva, afinal convertida em viagem de propaganda, enlevada pela presença de Portas, confidenciou que este teria sido o grande aríete, em Bruxelas, para se completar o programa de regadio. Só não disse que fora o seu próprio Governo que desviara para outros fins, logo no início do mandato, as verbas já negociadas pelo governo anterior para completar o regadio. Alvo errado! Se há alguém a quem devemos o Alqueva é a Cravinho, Elisa Ferreira, Luís Capoulas e aos primeiros-ministros Guterres e Sócrates. Reescrever a história dá sempre mau resultado.

Traulitânia (Reino da). Ficou na história da 1.ª República esta fracassada tentativa de restauração da monarquia, devido aos maus tratos e sevícias infligidas aos prisioneiros republicanos caídos nas mãos dos couceiristas. Por instinto primário, alguns políticos da direita não resistem à escatologia, agora apenas verbal. Sem surpresa, esqueci logo o anterior requisitório de Nuno Melo. E julguei, por horas, que o pior de todos, o mais violento e o menos sofisticado seria o do ex-líder parlamentar do PSD. Tinha-o por homem que prolonga a simpatia visual para dentro do seu íntimo, que eu estimava ser irónico sim, muitas vezes acutilante, mas jamais grosseiro. Pois bem, enganei-me, paciência! Ainda mal refeito, deparo com as palavras de Paulo Rangel, um amigo com intervalos menos lúcidos. Qual Marco António depois de Bruto ter assassinado César, a perguntar à turba se achava que no governo anterior seria possível meter na prisão um ex-primeiro-ministro e em domiciliária o maior dos banqueiros. Sem o querer, Rangel desferia contra a separação dos poderes o maior ataque jamais perpetrado por um político no activo. Duvido que as magistraturas tenham gostado. A defesa de Sócrates certamente agradece, não podia encontrar mais forte testemunho a favor da sua tese de prisão política.

Varejeiras. Moscas. Desde o início de Verão que estamos a ser infestados de varejeiras virtuais, através dos twitt e das apostilhas aos artigos na imprensa. Tal como as moscas, voam pelo cheiro. Seja carne ou peixe, ou mesmo fruta, aí vêm elas em pequenos grupos, zumbir nas redes sociais e deixar os seus ovos pretensamente multiplicadores. Só as crianças que nunca as viram se podem enganar. Convenceram-se que venciam as eleições, como o fizeram no passado dentro dos partidos. Veremos. Para já, é visível a reacção dos jornalistas verdadeiros. A mentira, maldade e pulhice só surpreendem no início. Continuação é a sua morte.

Professor catedrático reformado